Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1014
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Mais versões no ringue e um leitão no fim

Por Luiz Weis em 09/08/2007 | comentários

Sob o título ‘Atletas não agüentaram pressão do governo cubano, diz empresário’, a Folha publica hoje a seguinte reportagem assinada por Eduardo Ohata:

O empresário Ahmet Öner, da empresa alemã Arena Box Promotion, que assumiu ter organizado a suposta deserção dos boxeadores Guilhermo Rigondeaux e Erislandy Lara, no Pan, afirmou que os cubanos não agüentaram a pressão de seu governo, inclusive sobre suas famílias, e que, por isso, adotaram discurso nacionalista e a versão de que foram aliciados e drogados, em vez de assumirem que queriam desertar.

‘[Rigondeaux e Lara] dizem agora que estão arrependidos, que não fizeram nada. É tudo blablablá. Eles queriam ir para a Alemanha para se profissionalizar, pelo dinheiro. Só mudaram o discurso porque não agüentaram a pressão’, disparou Öner, ao tomar conhecimento dos relatos da dupla por intermédio da Folha.

O turco baseado na Alemanha Öner também diz que as famílias de Rigondeaux e Lara sofreram pressão da parte do governo de Fidel Castro. ”Falaram para Rigondeaux e Lara que, por conta da tentativa de deserção, fariam isso ou aquilo a seus parentes. São bastante jovens, e não suportaram’, afirmou o empresário.

Os cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara afirmam agora que foram drogados por representantes da firma alemã e, acima do peso, desistiram do torneio de boxe.

Em sua estréia no Pan, Rigondeaux batera o porto-riquenho Miguel Marrero por pontos, na tarde de sexta. Foi sua 104ª vitória consecutiva. Rigondeaux e Lara vêm afirmando nos últimos dias que amam seu país, e o primeiro, que é bicampeão olímpico e mundial, até cantou o hino nacional durante uma entrevista divulgada ontem pela TV. Em artigo ontem, o ditador cubano, Fidel Castro, afirmou que os dois não participam mais da equipe do país.

O turco baseado na Alemanha reagiu com indignação ao ouvir que os cubanos dizem agora que foram drogados. ‘Nunca. Nem eu e nem as pessoas que foram encontrá-los aí [no Brasil] jamais fariam isso. Não somos esse tipo de gente’, argumentou Öner. ‘Eles beberam e estiveram com as dançarinas porque quiseram, por vontade própria’, esclareceu o empresário sobre o comportamento dos pugilistas cubanos.

A seguir, Öner argumenta que não necessitaria lançar mão desse recurso para levar os cubanos para a Alemanha. Ele aponta como principal evidência o fato de empresariar quatro desertores, três deles amigos de Rigondeaux e Lara, campeão mundial até 69 kg. ‘Sou o promotor dos três cubanos amigos deles, por que faria isso? Não precisaria, meus cubanos são meu cartão de visita’, argumenta Öner, em referência a Yan Barthelemy, Yuriolki Gamboa e Odlanier Solis, pugilistas que desertaram em dezembro, durante campeonato na Venezuela, e assinaram com a Arena Box Promotion.

Como dizem os hispanos, va uno saber. Principalmente no sub-mundo do boxe, onde o aliciamento de atletas beira o tráfico humano. Mas é para tentar saber que existem jornalistas. Fica em todo caso a pergunta: o que é que o Brasil poderia ter feito de diferente nas circunstâncias, supondo que o empresário Ahmet esteja dizendo a verdade? Contra-pressionar os pugilistas? Retê-los? Mas com base em quê, se eles não chegaram a pedir asilo?

Ainda não acabou. Tem mais essa matéria, também na Folha de hoje, a partir de despachos de agências internacionais:

O pugilista cubano Guilhermo Rigondeaux, 26, deportado do Brasil na noite de sábado depois de desaparecer da Vila do Pan, no Rio, afirmou ontem que não desertou, mas que foi indisciplinado. Ele deu nova versão para o ‘desaparecimento’.

Segundo Rigondeaux, bi-campeão mundial e olímpico até 54 kg, ele e Erislandy Lara, 24, campeão mundial até 69 kg, saíram da Vila sem autorização depois de terem notado que tinham engordado e não poderiam lutar. ‘Não me apresentei a pesagem porque não havia tempo para perder peso, estava acima do peso e seria desclassificado’, explicou Rigondeaux.

Nos dia 3 e 4, em depoimento à Polícia Federal, os dois cubanos afirmaram que saíram da vila para comprar um videogame e que teriam encontrado dois homens que os teriam dopado e os mantidos presos. Segundo o boxeador, depois de perderem a pesagem, os dois pugilistas decidiram acompanhar dois empresários.

‘Nós fomos com eles porque tínhamos perdido a pesagem e estavamos com medo de regressar.’ Mas depois de um tempo, ele e Lara viram ‘que estavam errados e resolveram voltar a Cuba’.

Ao chegarem em Cuba no domingo, os dois lutadores foram levados a uma casa do governo, em Havana, onde ficaram sob vigilância até a manhã de ontem, quando foram autorizados a retornarem para seus endereços. Rigondeaux mora em um apartamento em Havana, com a mulher e dois filhos, e Lara em Guantánamo.

O boxeador disse que durante a permanência na casa prestaram depoimentos para funcionários do governo, e que foram ‘bastantes pressionados’. ‘Saímos da Vila sem autorização, cometemos uma grande indisciplina e estamos dispostos a assumir o que seja.’

Considerado o melhor boxeador cubano do momento, Rigondeaux disse que ‘espera orientações das autoridades’ para definir seu futuro e admite que não sabe se poderá voltar a boxear. ‘Estamos esperando ver o que vai acontecer.’

Rigondeaux continua recebendo o salário de 650 pesos cubanos (por volta de R$ 50), mantém o seu apartamento, propriedade do governo, e o carro, que tinha sido retirado depois do seu desparecimento, foi devolvido. Para celebrar a volta, a família de Rigondeaux fez uma festa, ontem à noite, em que prepararam um leitão.

P.S. Acrescentado às 17h15 de 9 de agosto:

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