Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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Manchetes e editoriais: senhores da mídia estão preocupados com a saúde fiscal

Por Alceu Nader em 19/11/2005 | comentários

Os jornalões deste sábado dividem os assuntos principais em dois mundos: o do futurismo político e o da economia real. O futuro dos títulos projeta a eleição do ano que vem com a notícia que já está intuída no consciente coletivo: Lula é candidato à reeleição. ‘Lula assume candidatura, depois diz que foi lapso’, marca a Folha de S.Paulo. ‘’Vou disputar a eleição’’, reproduz o JB. Os dois jornais anunciam a ‘novidade’ como se tivessem, enfim descoberto a pedra filosofal, embora a notícia já tenha cabelos brancos.

Seria uma surpresa? Uma revelação? Um alerta ou uma ameaça?

O Estado de S.Paulo também vem de política, mas temperada: ‘Lula quer ‘consertar’ a economia’, destila, fazendo troça do presidente. A preocupação dos senhores da mídia é se o governo federal vai abrir o cofre, reduzir os juros e promover o que já está sendo chamado de ‘gastança’ nos editoriais. O Estado foi o primeiro a se manifestar, e hoje volta à carga trazendo a Folha como companhia.

Apenas a manchete principal O Globo oferece o mundo real: ‘Interior já responde por metade do PIB brasileiro’. O assunto nobre do jornal são os números do PIB de todos os municípios brasileiros (5.560), divulgados ontem pelo IBGE, compreendendo o período 1999-2003. O dado macro é o da descentralização da economia, o que é ótimo para o país. O peso das capitais na geração de riqueza caiu quase 4 pontos percentuais, 1 ponto por ano: de 31,9% para 28%. As regiões metropolitanas não mudaram no período, variando de 22,1% para 22,3%. Já a participação do PIB de cidades fora das regiões metropolitanas cresceu de 46% em 1999, para 49,7% em 2003.

A coleta de dados do IBGE é um prato cheio para o cidadão se aproximar da realidade. De maneira geral, a mídia não aproveita todos os desvãos e projeções oferecidas pelas estatísticas do instituto. Opta-se, quase sempre, pela seleção das ‘mais mais’ em algum quesito, mas não exploram a fundo, por exemplo, efeitos de tendências demográficas na sociedade e na economia do país. Descentralizar sem desmontar exige infra-estrutura, um dos maiores nós do Brasil.*

Fechando o tema manchetes, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, mandou nota ao Estado desmentindo a principal reportagem do jornal de ontem (veja abaixo a íntegra). Após a leitura do protesto da ministra, que diz que não é de sua responsabilidade o documento que sustentou a manchete de ontem, como o jornal lhe atribuiu, resta a pergunta: como é que fica?

O Globo de hoje também se diferencia entre os editoriais, embora trate de política, assim como os da Folha e do O Estado. O jornal reflete a mesma preocupação dos senhores da mídia com a saúde dos cofres públicos no texto ‘O uso da História’:



(…)
‘Lula, como outros políticos, tenta capitalizar aspectos positivos que ficaram da imagem de Juscelino e seu governo: simpatia pessoal, capacidade de empreender demonstrada na construção de Brasília, na atração de montadoras de veículos para o país, na abertura de estradas, e assim por diante. O político, é claro, pretende herdar esses predicados no imaginário do eleitor — e se aproveita do fato de que a distância do tempo costuma esmaecer os aspectos negativos desses símbolos.
‘Não interessa a Lula que ressuscitem a relação direta que o governo JK teve com a disparada da inflação no final da década de 50/início dos anos 60, causada por uma política de militante e competente irresponsabilidade fiscal.

‘Esse tipo de tática de campanha visa a explorar o lado emocional do eleitor. Não passa disso, pois o Brasil deste início de Século XXI nada tem a ver com o país da fase que vai do pós-guerra até o final da década de 70, quando perdeu definitivamente fôlego o modelo de desenvolvimento autárquico. Pois naquela época acelerou-se o processo de quebra fiscal do Estado.

‘Mas para políticos em campanha isso é um detalhe.’


* Para os leitores que optarem pela leitura das conclusões do IBGE sem qualquer editorialização, recomenda-se a leitura do original utilizado pelos jornais, que pode ser diretamente acessado no IBGE.



A ÍNTEGRA DA CARTA DE DILMA O Estado de S.Paulo

É a seguinte a nota da ministra:

‘Em relação à manchete do jornal ‘Dilma disse a Lula que ação de Palocci pára ministérios’, da edição de 18 de novembro, e à reportagem ‘Relatório que Dilma entregou a Lula acusa Fazenda de sufocar ministérios’, publicadas pelo Estado de S. Paulo na edição de 18 de novembro, a Casa Civil da Presidência da República esclarece:

‘1 – Nenhum relatório com o teor relatado pela reportagem foi produzido pela ministra Dilma Rousseff ou pela Casa Civil

‘2–A Casa Civil da Presidência da República tem o papel de acompanhar as ações prioritárias do Governo, juntamente com os ministérios envolvidos. Assim, e por determinação do presidente da República, a Casa Civil é responsável pela articulação interministerial. Esta atribuição não transforma a ministra-chefe da Casa Civil em porta-voz dos ministros. Aguinaldo Nogueira, Assessoria de Imprensa da Presidência da República’

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/11/2005 Paulo Cesar dos Santos

    As perguntas do articulista sobre a reeleição do Presidente são as mesmas que faço. Não entendo a preocupação desmedida com um assunto tão óbvio: O presidente será canditado à reeleição. O temor da imprensa não se justifica, ela tem que informar seus leitores com imparcialidade, e se assim o fizer, nada terá a temer quando o Presidente Lula for reeleito. Só espero que jornalistas e editores sejam mais éticos,porquê nós leitores estamos já há algum tempo sendo alvo de mentiras, calúnias e achicallhes. Acham que somos ignorantes…!

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