Sábado, 25 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

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Maria Helena e o pão que o diabo amassou

Por Luiz Weis em 18/03/2007 | comentários

Quando o governo anunciou, na quinta-feira, o Plano de Desenvolvimento da Educação – que virou, de imediato, uma unanimidade nacional -, entre os convidados que lotavam a platéia do Planalto estava a paulistana radicada em Campinas Maria Helena Guimarães Castro.


Ela foi a responsável pelo que de mais importante – e inovador – se fez no Brasil em matéria de avaliação do ensino, na gestão do tucano Paulo Renato. Atualmente, comanda a secretaria de Educação no governo do pefelista José Roberto Arruda, no Distrito Federal.


Depois do evento, não houve repórter escalado para ‘repercutir’ o programa que a ignorasse. E em todos os jornais ela apareceu elogiando o trabalho do ministro petista Fernando Haddad. Chegou a considerar ‘excelente’ a idéia de combinar os resultados das provas de aferição do ensino básico, que passarão incluir crianças a partir dos 6 anos, com os dados do fluxo escolar (índices de evasão e repetência) para orientar a política de incentivos aos municípios, prevista no plano.


A repórter Lilian Tahan fez mais – a reportagem ‘O poder de Maria Helena’, publicada hoje no Correio Braziliense. É coisa fina, principalmente por ser um dos raros textos em que a imprensa dá ao público pagante uma idéia do pão de cada dia servido nas instituições estatais do setor educacional.


É, vocês já devem ter adivinhado, o pão que o diabo amassou. A reportagem:


‘Toca o telefone da terceira mesa à esquerda de quem entra na sala principal do Centro Administrativo em Taguatinga. Alguém quer falar com a secretária de educação do Governo do Distrito Federal, Maria Helena Guimarães. Uma das assessores atende o telefone. É um deputado distrital. “Se for nomeação de diretor de escola, diga que eu não posso atender”, orienta Maria Helena à funcionária.


Não se trata de desprestigiar os parlamentares locais, mas ela cansou de receber ligações nos últimos meses em que o objetivo era o mesmo. “Muitos me procuraram na expectativa de usar a influência política para nomear diretores, trocar professores de escola, indicar pedagogos, até secretários. Tenho insistido que na minha pasta não há espaço para esse tipo de negociação”, afirma.

A intransigência a respeito de algumas convicções foi o que motivou o primeiro teste na relação entre Maria Helena Guimarães e o governador José Roberto Arruda.


No início de março, Arruda nomeou Marcelo Aguiar para uma das gerências de projeto do governo. Pessoa de confiança do ex-governador do DF e senador Cristovam Buarque, Marcelo Aguiar entrou no organograma do GDF pela cota do PDT. Ocuparia a gerência de avaliação da educação. Ocuparia.


Porque Maria Helena não concordou com as atribuições do cargo cedido ao PDT. Na visão dela, vigiar o sistema de ensino é parte do processo de gestão e “tem que estar necessariamente vinculado à secretaria”.

A despeito do constrangimento causado com os aliados do PDT, prevaleceu a opinião da gestora. Para abrigar Marcelo Aguiar a secretaria de governo criou uma outra gerência, a de qualificação profissional. “Não bati de frente com o governador, dei uma esbarradinha de lado”, comenta a secretária. “Eu decidi e ele não desautorizou, acho que nos entendemos”, avalia.

Em alguns episódios a secretária importada de São Paulo apresenta o seu estilo de trabalho na capital federal. Foi convidada por Arruda pelos predicados de um perfil técnico.


Maria Helena é socióloga com doutorado em Ciências Políticas. Participou da fundação do Núcleo de Políticas Públicas da Unicamp, na década de 1980, e de lá para cá já colaborou formal e informalmente com projetos políticos de estrelas da política tucana, como Fernanndo Henrique Cardoso (coordenou o programa de governo na área social em 1994), Paulo Renato de Souza (foi secretária-executiva no Ministério da Educação), Geraldo Alckmin ( secretarias de Desenvolvimento Social e de Ciência e Tecnologia) e José Serra (colaborou nas campanhas ao Planalto e ao governo paulista).

Mas além da experiência na elaboração de políticas públicas, Maria Helena tem conquistado o respeito do novo chefe demonstrando aptidões políticas. Do ponto de vista do governo, a secretária soube contornar a primeira ameaça de greve de professores poucos dias depois do início da administração pefelista.


Justificando o rombo no caixa deixado pela gestão anterior, o GDF atrasou em mais de um mês o pagamento das férias. “Na primeira reunião que tiveram com a secretária, os professores chegaram dispostos a cruzar os braços. Depois de uma hora de conversa, a secretária convenceu os sindicalistas a desistir da atitude”, elogia o secretário de Comunicação do GDF, Weligton Moraes.

Mas de lá para cá, a relação com os professores dá sinais de que pode azedar. Sindicalistas dizem faltar justamente o que governo avalia que está no ponto: sensibilidade no trato com a categoria. Representantes dos docentes reclamam das críticas públicas feitas por Maria Helena aos professores. A secretária condena o excesso das licenças tiradas pelos profissionais da área e comenta que os salários no DF estão acima da média nacional.


“Ela tem colocado nas costas dos professores a responsabilidade da quebra na qualidade do ensino, culpa que é do governo. Com isso, a secretária demonstra não conhecer a realidade da rede pública no DF, além de desprezar a construção de uma relação de confiança com a categoria”, critica Antônio Lisboa, um dos diretores do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro DF).

Apesar das críticas, Maria Helena está disposta a defender um ponto de vista amadurecido durante os oito anos em que trabalhou como secretária-executiva do Ministério da Educação, na gestão de Fernando Henrique Cardoso. [Na realidade, não foi durante todos os oito anos.] A gestora defende que os docentes no DF têm condição privilegiada em relação ao restante do país, mas mesmo assim a qualidade do ensino não corresponde à essa realidade.


Maria Helena Guimarães está surpresa com a situação que encontrou no Distrito Federal. Às vésperas de completar 61 anos de idade, declara que a motivação de voltar a trabalhar em Brasília foi a perspectiva de realizar um sonho profissional.


“Aceitei o desafio de desenvolver um novo projeto de gestão para a educação na capital, mas até agora só administrei crises”, diz, ansiosa por apresentar resultados positivos.’


***


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Todos os comentários

  1. Comentou em 18/04/2007 Erilda Oliveira

    Estou de acordo que há necessidade de arrumação da casa e que a nova Secretaria tem se empenhado nisso. Durante os últimos oito anos foi vergonhosa a politicagem praticada no sistema educacional do DF em detrimento dos aspectos técnicos. No entanto, afirmar que nossa categoria é responsável pela decadência em que se encontra é um equívoco sem precedentes, porque as minorias não podem ser consideradas como a regra geral. Em que categoria não há os profissionais descomprometidos e relapsos? O que a Secretária Maria Helena encontrou nem de longe é comparável ao que nós já enfrentamos diariamente no DF como educadores: são escolas com gestores incompetentes, ambiente físico inadequado e deprimente, salas abarrotadas de alunos em carteiras e cadeiras velhas, centenas de problemas familiares que acabam recaindo em nossos ombros, alunos desajustados, ofensas ou ameaças de agressões, tanto morais como físicas, por alguns alunos e pais, salário base inferior ao de várias categorias do DF, falta de material didático (algumas escolas ainda usam o famoso cachacinha), ofensas verbais em cadeia nacional, e por aí vai. Com tudo isso, ainda não tenho o direito de ficar doente. Ainda bem que eu amo o que faço e, graças a Deus, não preciso acreditar em promessas de governo sobre melhorias na educação para ser feliz na minha profissão, senão, pior pra mim.

  2. Comentou em 23/03/2007 Janio Sena

    A repórter em questão deveria se informar um pouco mais sobre a situação que ocorreu quando da paralisação no dia 12 de fevereiro: não houve em momento algum daquela manifestação proposta de greve! Houve sim questionamento da falta de dinheiro em caixa para pagar as férias quando o governador convocava servidores para pagar precatórios, o que doga-se de passage ainda não o fez!

  3. Comentou em 21/03/2007 christian do nascimento flavio

    A secretária erra ao não contratar os concursados do último concurso de 2006. E já são quase 2 meses sem professores de várias matérias, em várias escolas.

  4. Comentou em 19/03/2007 Jávara Belisário

    Acho que a grande maioria dos professores são comprometidos sim com a educação. Vejo e sinto isso tds os dias, ninguém sabe as dificuldades por nós enfrentadas. Péssima carga horária de trabalho, professores trabalhando em 3, 4 escolas . Temos professores na que cursaram 3 faculdades e nosso salário sem reajuste a 11 anos. Nunca nos negamos a trabalhar, a estudar, porém se algo não for feito urgentemente a população não faz idéia de como as coisas podem piorar. De discursos autoritários, de acadêmicos que nunca deram aula pra uma classe de 1ª série repleta e acham que sabem como devemos fazer nosso trabalho…estamos fartos. Queremos pessoas que compreendam as nossas dificuldades, estejam conosco, invistam nas escolas e nos seus professores, somente então poderemos pensar num Brasil forte, competitivo e democrático

  5. Comentou em 19/03/2007 Marco Costa Costa

    Para que o ensino tenha sucesso em nosso país, aquelas pessoas que farão parte da equipe de gestão de ensino não poderão ter uma pequena divergência se quer. A equipe não poderá ser filiada a nenhuma agremiação partidária, torcer para clubes de esportes, não pertencer a esta ou aquela religião. Na música gostar de todos os rítmicos, para que possam dançar conforme o som da orquestra. Ser eclético no vestir, os homens não poderão usar barbas longas para não haver conflitos com aqueles que raspam. Quanto às mulheres, não deverão usar calças compridas, a fim de evitar comentários desonrosos. Em fim, a equipe deverá ser coesa, para que trabalhem única e exclusivamente em prol da boa qualidade de ensino. Não se trata de ditar normas ditatoriais, ou coisa parecida, mas de evitar conflitos desnecessário que venha colocar em risco o futuro do jovem brasileiro.

  6. Comentou em 19/03/2007 Fabiana Tambellini

    Existem professores relapsos assim como existem médicos e jornalistas relapsos. Não dá para generalizar e jogar nas costas dos professores a culpa pelas mazelas da educação. Aqui no meu estado – São Paulo – a situação é vergonhosa e os erros das políticas do governo na área são cada vez mais evidentes…o resultado está aí. Precisamos de mais Maria Helenas, que são governo, por aí.

  7. Comentou em 19/03/2007 Ylza Costa

    Os professores são relapsos, sim, e o atual sistema de ensino, de onde eles também provém, é vergonhoso. Se isso não for admitido, continuar-se-á a erigir paredes de concreto (e depois destruí-las) e manter-se o hábito de chamar a isso de escola Francamente. Por que se discute pontos irrelevantes das qüestões inutilmente neste país?

  8. Comentou em 19/03/2007 Lica Cintra

    Maria Helena é sem dúvida uma referência na gestão da educação pública mas concordo com as críticas de que ela pega um pouco pesado com os professores. É no dia a dia da sala de aula (quando tem sala de aula…) que a realidade da educação se expressa e puxando o fio da meada…são os governos os principais culpados pela tragédia educacional brasileira.

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