Quinta-feira, 29 de Junho de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº947

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

Mas afinal, o jornalismo de qualidade tem alternativas?

Por Carlos Castilho em 01/05/2007 | comentários


Recebi há dias o seguinte comentário de Mauricio Tuffani:


Caro Castilho, deixando de lado os desvios de conduta de profissionais e de veículos da imprensa, mas tendo em vista as tendências atuais do mundo da comunicação e em particular do jornalismo, inclusive com base no que mostraram os relatórios The State of the News Media de 2004, 2005 e 2006, como já tivemos a oportunidade de debater, é possível alguma alternativa para o jornalismo sob esse enfoque, com maior valor agregado, fora da destinação para nichos? Abraço.


Caro Mauricio,


Tua pergunta detonou uma reflexão que eu já vinha desenvolvendo há tempos e que não tinha coragem de abri-la para os amigos aqui do Código. Dei-me conta de que não adianta pensar sozinho e que o melhor seria abrir tudo, com todas as carências e imprecisões.


É uma contribuição mínima para uma reflexão que já está em curso, envolvendo a nata do jornalismo mundial e também o público, o novo protagonista da arena da informação. Há muitas idéias em debate sobre o futuro do jornalismo e eu tenho tentado reproduzir algumas aqui neste blog. Mas, como você assinalou, de vez em quando é preciso voltar ao começo para não perdermos o rumo.


Sim, o jornalismo com maior valor agregado tem lugar e é um componente indispensável da nova ecologia informativa que está sendo criada por você, por mim e por milhares de outros jornalistas profissionais e não profissionais.


Toda a onda criada em torno dos blogs, jornalismo cidadão, Web 2.0 e crise na imprensa tende a criar a impressão de que os veículos tradicionais encontram-se em estado terminal, o que não é verdade.


Acho, por exemplo, que o jornalismo investigativo ganha sua expressão máxima quando é praticado por equipes profissionais de empresas jornalísticas. Os weblogs e os autônomos podem investigar, mas lhes falta a infraestrutura de apoio que normalmente é exigida numa investigação de maior alcance como , por exemplo, escândalos de corrupção, crime organizado, narcotráfico, violações de direitos humanos e tantos outros.


Os blogs e autônomos tem mais capacidade de captar uma denúncia um identificar um fato delituoso, mas tendem a cair no denuncismo e na tentação de espalhar suspeitas, antes de uma comprovação mínima.


O jornalismo profissional pode e deve agregar valor a informação também na garimpagem de fontes. Tomemos o caso do tiroteio na universidade Virginia Tech. Ficou mais uma vez evidente que os profissionais não podem competir com os não profissionais e jornalistas cidadãos em matéria de velocidade de transmissão e diversificação de notícias sobre um grande evento.


Mas também fica cada dia mais claro que cabe aos profissionais analisar e principalmente contextualizar as centenas de novas fontes informativas, da mesma forma que os repórteres checam dados e noticias numa redação. O que está havendo é um deslocamento de prioridades. Antes o jornalista ia para a rua para informar sobre o incêndio.


Hoje ele tem a disposição dezenas de versões do evento fornecidas por informantes, amadores e jornalistas cidadãos. Cabe ao profissional listar estas informações, comparar-las e hierarquizar-las pela reputação do autor. O jornalista tende a ser, nestes casos, uma espécie de analista da informação.


Também não devemos esquecer que os jornalistas têm um papel de alto valor agregado na convergência de veículos de comunicação. As futuras redações integradas, reunindo jornais, revistas, rádio, televisão e internet, só poderão ser operadas por profissionais altamente qualificados porque o desenvolvimento simultâneo de conteúdos para cada um destes veículos é uma tarefa complexa e que demandará o desenvolvimento de novas habilidades e competências.


Igualmente não devemos deixar de lado que a narrativa não linear no jornalismo via internet dos próximos anos. É uma nova área onde a qualificação jornalística será indispensável e portanto um campo de trabalho com alto valor agregado.


Mencionaria ainda uma outra função que exigirá muito preparo dos jornalistas profissionais e que é a de treinador de jornalistas cidadãos no manejo da informação.


É uma atividade de alta relevância social porque terá conseqüências diretas no suprimento de notícias brutas como as que mencionei no parágrafo relacionado à garimpagem de fontes e contextualização de material divulgado por blogs de jornalistas cidadãos.


O público começa a ter acesso às ferramentas de publicação de notícias, mas ainda não tem o preparo necessário para lidar com uma matéria prima tão complexa como a informação. Quanto maior o preparo, menor a incidência de informações falsas ou distorcidas.


Bom, há muito mais coisas para falar e pensar sobre. Não tenho a pretensão de ser autoridade sobre o assunto porque ele é muito mais amplo e complexo. Acho que posso e devo ser apenas uma peça na engrenagem da reflexão coletiva.


Obrigado Maurício pela provocação.

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/05/2007 Sérgio Coutinho - www.mundoemmovimentos.blogspot.com

    Muito bem observado! Blogs não ameaçam o jornalismo, afinal são narrativas não lineares. Edney, responsável pelo blog http://www.interney.net, lembra numa coluna recente que nós, blogueiros, não somos jornalistas mas colunistas quando ocupamos com nossas idéias e textos de outros autores (respeitada a fonte) nosso espaço online.

    O jornalismo não está ameaçado, mas de fato a informação poderá ser analisada por um número cada vez maior de leitores e escritores. Em vez de tirar emprego de jornalistas, acredito que nós os divulguemos forçando debates.

  2. Comentou em 02/05/2007 Maurício Tuffani

    Castilho, boa dissecação das alternativas para o jornalismo na gestão do conhecimento! Eu não tinha clareza dessa variedade de possibilidades. Nada contra nenhuma delas, desde que certas atribuições sejam devidamente caracterizadas. Por exemplo, o ‘jornalismo cidadão’: ele deve ser bem-vindo, tem muito a contribuir para o jornalismo — inclusive para tirá-lo do marasmo e do piloto automático em que se encontra —, mas tende a levar a sociedade à crença na melhor qualidade da ‘informação sem intermediários’. (Importante a observação do Gentilli sobre o trabalho da Sylvia Morezsohn.) E não digo isto por corporativismo gate keeper, pois tenho certeza de que se o jornalismo cidadão crescer além da conta será por causa da falência do jornalismo como mediação, e não por causa de nenhuma ‘maquinação do poder’. E, seja como for, isto é, tanto por causa da mídia como por causa da sociedade em geral, todos seremos prejudicados se ocorrer no médio prazo a falência da mediação. Mas, retomando a pensata, tendo em vista seus esclarecimentos e as tendências atuais (mix de informação e entretenimento, conglomeração, declínio da verificação e da checagem, aumento crescente da distribuição de conteúdo em detrimento da produção, queda da circulação e da receita publicitária etc.), pergunto: A gestão do conhecimento não tende mais a nichos pagadores? E quem pagará a conta do jornalismo? Abraço.

  3. Comentou em 02/05/2007 Dalton de Barros Santos

    Castilho: Parabéns! Pegou na veia e com 3 dedos. Vai morar lá na gaveta com cep e tudo. Pode dar a chuteira prá lustrar. Desde o Admirável Mundo Novo, de Huxley, que o meu atavismo foi alertado da troca. Não perca a idéia de que a internet é ecológica, pois não usa papel nem gasta árvore. Faça do Blog uma Seqüóia formada por discos com gigabytes culturais que acolham a notícia com o carinho e a prudência que mereça, pois assim, mesmo uma denúncia, encontrará um seguro caule. Bastará a vocês, membros do Press´s Old Club, instruirem os alunos, seguros por raizes históricas honestas, a formarem uma espécie de prova mista, Revezamento de Martelo, para que a denúncia não se torne vazia e exija que a justiça se mova rápida em direção à solução, diminuindo a o tempo de impunidade. O leitor associará a reação à ação e o jornalismo voltará a gozar da credibilidade perdida, por mãos oportunistas como a de alguns profissionais da denúncia que só conseguem apontar erros sem propor soluções. Com um bom Planejamento de Ensino, que se mostre claro nas metas, conseguirão educar muito mais que jornalistas. Formarão homens seguros por se encontrarem sobre bases honestas do conhecimento.

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem