Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Matérias sem pai nem mãe

Por Luiz Weis em 12/08/2008 | comentários

É como se a imprensa desafiasse o leitor.


O desafio consistiria em fazê-lo tomar pelo valor de face informações importantes, mas sem procedência determinada, ou nem sequer sugerida.


O leitor pode contestar a notícia por não se basear em fontes com nome e sobrenome. É a reação do tipo “quem foi que disse?”


Pode aceitá-la, ainda assim, por qualquer dos seguintes motivos, ou por uma combinação entre eles:


1) ele acredita no jornal; 2) conhece o(a) repórter de nome e em princípio lhe dá crédito – ao se lembrar de outras matérias de sua autoria, que acabaram passando no teste da verdade, pois os fatos posteriores as confirmaram; 3) embora de origem não identificada, a narrativa não só faz sentido, mas é coerente com o que se sabe dos seus personagens.


O leitor também pode rejeitar a matéria por não gostar do que leu – ou pode aprová-la porque gastou.


[Jamais se deve subestimar a influência da subjetividade nas reações de cada qual às notícias do dia. Diferentemente do jornalista que é treinado e pago para relatar as verdades que conseguiu apurar, ou assim imagina ter feito, o leitor pode brigar quanto queira com os fatos que lhe são transmitidos. Mas essa é outra história.]


Na soma algébrica de prós e contras, o resultado, em geral, tende a beneficiar as matérias sem pai nem mãe, como é o caso de chamá-las.


Pena, porque poupa o jornalista de ser chato com as suas fontes que exigem anonimato – às vezes por interesse em plantar uma versão – pedindo-lhes ao menos que expliquem o porquê disso, por mais óbvio que seja, para demonstrar um mínimo de consideração com o leitor.


Como neste texto distribuído ontem pela agência americana Associated Press:


“Os militares americanos informaram previamente os russos dos vôos [que traziam de volta as tropas georgianas enviadas ao Iraque] para evitar mal-entendidos, disse um oficial na segunda-feira sob condição de anonimato porque ele não estava autorizado a falar do assunto publicamente”.


Ora, pois: se estivesse, não haveria motivo para o anonimato. Mas antes isso, por mais que soe a piada de português, do que nada.


Como nesta matéria do Estado de ontem intitulada “Tarso errou o tom, avalia presidente”, com o subtítulo “Maior aborrecimento foi a forma como ministro iniciou polêmica” [sobre a punição aos torturadores da ditadura].


O texto abre com o registro de que o presidente Lula “costuma aproveitar o estilo briguento do ministro da Justiça, Tarso Genro, para lançar balões de ensaio sobre temas espinhosos e sentir a reação da sociedade”.


Um único exemplo que fosse, nem pensar. Mas passemos.


Adiante se lê que “não foi o que aconteceu no caso do embate de Tarso com os militares. Motivo: Lula sempre avaliou que tocar nas Forças Armadas é como mexer num vespeiro”.


E adiante: “Lula disse a Tarso que era preciso agir rápido e evitar que o tema se transformasse numa batalha do Executivo. A ordem foi bater na tecla de que tudo está na alçada do Judiciário”.


Parece verossímel. Mas quem foi que disse que Lula disse o que se lhe atribui?


No mínimo o leitor merecia um afago do tipo “segundo um colaborador próximo do presidente, que pediu para não ser identificado porque não estava autorizado a falar do assunto publicamente…”, conforme a fórmula ora, pois, da AP.


O resumo da ópera é que, a julgar pela versão do sujeito oculto da matéria, de um lado, Lula não sabia previamente da iniciativa do ministro – “não foi o que aconteceu no caso do embate de Tarso com os militares”; e, de outro, “o que mais aborreceu o presidente foi a forma como o ministro entrou na polêmica”.


Fica a critério de cada um pegar ou largar.

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/08/2008 Ricardo M

    Isso mesmo, tudo parece muito verossímel.

  2. Comentou em 14/08/2008 Henrique Dorneles

    O que me da esperança na solução dos problemas que impedem o desenvolvimento da democracia no Brasil e no mundo é a atuação de jornalistas como Luiz Weis e Márcio Varella. Enquanto se reproduz essa ‘tradição inatista’ de que no Brasil todos são corruptos, tenho visto diversos exemplos de honestidade e esclarecimento como destes dois jornalistas. Como nosso povo vai fazer escolhas sem conhecer as opções? Só agora, depois dos 30 anos, percebo a importância fundamental do jornalismo honesto e competente para a construção de um mundo melhor.

  3. Comentou em 13/08/2008 ildefonso lima

    Sobre o assunto ‘ punição aos torturadores da ditadura’, deduzimos que ainda estamos numa pré-democracia e sob tutela militar. Na falta de decisão do judiciário brasileiro, só restará apelo aos tribunais internacionais.

  4. Comentou em 13/08/2008 José de Souza Castro

    Será que a confusão foi provocada mesmo por Tarso Genro ou pela interpretação feita pela imprensa ao que ele disse? Refiro-me ao noticiário sobre mudanças na Lei da Anistia para punir torturadores. Depois de passar dias lendo sobre essa mudança desejada pelo ministro da Justiça, eis que leio ontem artigo de Jânio de Freitas dizendo que não é bem isso. O ministro apenas quer que se interprete corretamente a Lei da Anistia. É a mesma opinião do ‘Manifesto dos Juristas’ divulgado ontem pela Folha de S. Paulo (não li outros jornais, não sei se também por eles). Sobre isso, acabo de escrever um artigo para o blog Tamos com Raiva (www.tamoscomraiva.com.br) intitulado ‘Para punir torturador não é preciso mudar a Lei da Anistia’. Acho que é uma questão muito importante que a imprensa não tratou como devia.

  5. Comentou em 12/08/2008 Marcio Varella

    O desconhecimento das leis, o desrespeito aberto às leis, a banalização da obediência às leis – some isso à absoluta falta de ética e à ansiedade dos patrões da imprensa em atacar Lula, o que evitaria, no pensar primata dos patrões, um possível futuro governo socialista, então teremos o que se faz na mídia desde 2002: não ‘atribuir’ a notícia a ninguém, a não ser à imaginação dos jornalistas sem-caráter.
    Mas o grande problema é que a imprensa parece que não consegue mais formar opinião – se conseguisse, Alckmin teria sido eleito presidente.
    Ou respeitamos a ética e fazemos jornalismo de verdade, com notícias de verdade, ou seguiremos firmemente para a implantação definitiva do jornalismo-técnico, feito por recém-saídos de faculdades que não ensinam absolutamente nada a ninguém. Será a subserviência à vontade patronal acima da verdade.
    Outra coisa: nos últimos dois anos, as emissoras de tv e rádio não mostraram sequer uma matéria informando a relação entre a economia e a agricultura, o significado dos juros para o crédito agrícola, os preços dos insumos, nenhuma orientação, nenhum servição, é como se a alface a couve mais os tomates e os pepinos fossem plantados em shoppings.

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