Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Mau jornalismo, de boa fé

Por Luiz Weis em 20/10/2007 | comentários

Um mês atrás, tendo como gancho a reportagem de capa da revista do New York Times sobre as falsas premissas em que se baseiam não raros tratamentos médicos, escrevi aqui o artigo “Os jacus, as garças e as notícias” [http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id=
{7FB0DBB8-B941-4F8D-9C59-51FDEDB4726D}&id_blog=3
].
    
 


 


Nele, tentei argumentar que as falsas relações de causa e efeito em medicina, motivo pelo qual tantas de suas certezas acabam tendo exíguo prazo de validade, são ainda mais freqüentes no jornalismo. Dia sim, o outro também, a mídia apresenta como nexos claramente identificáveis entre os fatos o que, visto de perto, são apenas correlações espúrias, como dizem os estatísticos.


 


O leitor é levado a achar que o acontecimento A provocou o acontecimento B, como se a associação real entre eles desse a um a paternidade do outro.


 


Hoje, de novo a partir de uma reportagem do Times, de John Tierney, “Dieta e gordura: um caso grave de consenso equivocado”, volto ao assunto – só que por outro ângulo.


 


Trata-se dos problemáticos meios pelos quais os formadores de opinião, na imprensa, formam as suas próprias opiniões. Também nesse terreno as analogias entre opinião médica e opinião jornalística – ou melhor, verdades médicas e verdades jornalísticas – são maiores do que seria desejável para a saúde das pessoas e a qualidade do seu domínio das questões de interesse coletivo.


 


O texto do Times [http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=
9905EFD8113AF93AA35753C1A9619C8B63
] abre com um exemplo histórico. Em 1988, o então “cirurgião geral” (surgeon general), o mais graduado servidor público americano na área, C. Everett Koop, proclamou que o sorvete, por seu teor de gordura, representava uma ameaça à saúde comparável ao cigarrro.


 


Era um alarme falso. Nem antes, nem depois de ele dizer o que disse, alguma pesquisa atestou a equivalência de riscos entre o consumo de gordura e o de nicotina – este sim, um malefício comprovado acima de toda contestação.


 


Koop, ele próprio, só tinha pesquisado, por assim dizer, a opinião de seus colegas presumivelmente experts na matéria – e o que fez, a rigor, foi transmitir, como esculpido em bronze, o consenso que encontrou entre eles.


 


Por sua vez, a classe médica e a mídia, compraram esse consenso no regime de porteira fechada. Os médicos, sem tempo para se manter em dia com as montanhosas pesquisas que se sucedem no seu setor, também formam a sua opinião à la Koop, ou seja, ouvindo os colegas cujo nível de conhecimento supõem ser tão ou mais alto que o seu próprio.


 


Forma-se assim o que o repórter Tierney chama “efeito cascata” [nada a ver com o uso desse termo em jornalismo: na gíria das redações, cascata é sinônimo de embromação].


 


E a mídia, que sabe menos ainda do que eles estão falando, vai nessa com tudo, desde que possa se abrir nas palavras de figurinhas carimbadas nos seus campos de atividade. Amanhã, ela irá em outra também com tudo, incapaz, aparentemente, de aprender com os próprios tropeços.


 


Trabalhos em psicologia experimental ajudam a entender esse mecanismo. Em mais de um estudo, os pesquisadores juntaram numa sala um certo número de pessoas a quem fariam uma pergunta que sabem que elas não podem estar absolutamente seguras sobre a resposta certa.


 


Verificaram e tornaram a verificar que, se os primeiros perguntados derem a mesma resposta – que, bem feitas as contas, é pouco mais do que um chute, como seria a resposta alternativa – a tendência dos demais será imitá-los, mesmo que o seu primeiro impulso fosse discordar deles,  como os cientistas tiveram o cuidado de apurar depois. Forma-se assim o conhecido “efeito manada”.


 


Maria (e João) vão com as outras (e outros) porque lhes atribuem uma autoridade no assunto que elas (eles) mesmos não teriam. Se A, B e C, um depois do outro, disseram a mesma coisa, eu, D, ficarei mais confortável aderindo a eles.


 


Essa tendência se manifesta mais intensamente nas culturas que valorizam antes o conformismo do que o dissenso. E mais intensamente ainda nas situações em que os dissidentes correm o risco de ser punidos de alguma forma por estarem na contramão do que se adotou (ou se impôs) como verdade. Não são precisos vôos de imaginação para saber até onde podem chegar essas punições em regimes ditatoriais.


 


Pois bem. O que mais faz o jornalista típico é se guiar por aqueles a quem se acostumou a considerar, ou foi induzido a crer que sejam “autoridades” no assunto que o interessa. Em geral recolhem e transmitem as verdades reveladas, raramente interpelando as suas fontes sobre os seus fundamentos.


 


Talvez para não correr o risco de perder o informante, receiam perguntar-lhe candidamente: “Com todo o respeito, como é que o senhor (a senhora) sabe o que está dizendo?” Qualquer que fosse a resposta, é possível que, se tivessem tempo, paciência, energia e a boa e velha humana curiosidade – para não falar na proverbial lição de casa – os repórteres adotariam a rotina de ir atrás de quem pudesse literalmente desautorizar as fontes tidas como sapientes.


 


Mas não apenas não costumam fazê-lo, repassando o que compraram com os olhos escancaradamente fechados pela reverência às suas fontes credenciadas, como, por outro lado, as redações se parecem como times sem goleiros – procedimentos de checagem sistemática da concepção, apuração e edição das matérias. Sem isso, as coisas saem como entraram – e o leitor que peça clemência ao Altíssimo.


 


Mesmo quando os repórteres não se limitam a percorrer as estradas conhecidas, abastecendo-se sempre nos mesmos postos, o resultado são matérias em que umas autoridades aparecem como mais iguais do que as outras, parafraseando a clássica expressão sobre as elites dirigentes da supostamente igualitária sociedade soviética.


 


No jornalismo científico, uma amostra dessa distorção é apresentada pelo repórter John Tierney, na citada matéria sobre o “consenso equivocado”. Ele conta que em 1960, a Time, a maior revista noticiosa do mundo, publicou uma matéria de capa sobre um relatório da Associação Cardíaca Americana [American Heart Association], segundo o qual “as melhores evidências científicas disponíveis” indicavam uma dieta pobre em gorduras para pessoas com riscos mais altos de doenças do coração.


 


Quem aparecia na capa era o doutor Ancel Keys, reputado especialista em alimentação e saúde. Não porque ele tivesse produzido novas pesquisas que respaldassem a posição da entidade, mas porque ele e um colega integraram o comitê responsável pelo relatório.


 


O detalhe é importante: três anos antes, outro relatório da Associação havia afirmado com todas as letras que as provas de que a gordura nos alimentos têm relação com doenças cardíacas “não resistem a um exame crítico”.


 


A parte da matéria da Time que tratava diretamente da questão ocupava quatro páginas. Nelas, um único parágrafo fazia menção ao fato de que os conselhos dietéticos do doutor Keys “continuavam a ser questionados por outros pesquisadores”.


 


Observa Tierney: “Jornalistas e leitores estavam à procura de orientações claras, não de ambiguidades científicas.”


 


O resumo da ópera parece ser o seguinte: a imprensa erra mais por inadvertência, preguiça, efeito cascata, espírito de manada, incultura e ausência de balizas internas do que de caso pensado – o tal do complô da mídia urdido contra ou a favor do que seja pelo baronato das empresas de comunicação e seus cúmplices nas cúpulas das redações.


 


Condenar a mídia supostamente movida por segundas intenções é travar o combate errado. Não que elas não existam. Mas, quando existem, são menos articuladas do que se pode imaginar olhando o negócio pelo lado de fora, porque concorrência e mercado são prioridades para os publishers.


 


Na grande maioria dos casos em que a imprensa merece ser levada ao pelourinho, a razão é o muito que há de errado no seu modus operandi, origem primeira dos desserviços que presta ao público pagante.


 


Pode-se perfeitamente bem fazer mau jornalismo de boa fé.

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/10/2007 André Martins

    Paula Abreu, sou leitor bem antigo da Veja, da Folha e do Estado. A Folha sempre pegou pesado com qualquer governo. O Estado sempre foi conservador. E a Veja sempre foi um panfleto de auto-ajuda tentando imbuir no brasileiro alguns valores americanos como o consumismo, a gana pelo sucesso e a competitividade, mas se esquecendo de outros valores como o patriotismo, a benemerência dos ricos e as associações civis. O que mudou com o governo Lula foi o estilo das reportagens, hoje existe um certo rancor preconceituoso presente nos textos e análises, veja que por um bom tempo o eleitor do Lula foi tratado com um nordestino pouco afeito a questões éticas e beneficiário do bolsa-esmola, mas qual órgão da imprensa se interessou em saber por que esse pessoal não votou no Alckimin? Aliás, até hoje a imprensa ainda acha que o Alckimin é um administrador competente. Em tempo, não é de hoje que o Nassif cobra equilíbrio da imprensa, ele já fazia isso quando estava na Folha e o governo era do PSDB.

  2. Comentou em 24/10/2007 Paula Abreu

    Por economia de espaço, no post anterior, acabei incorrendo em erros de digitação. Correção necessária: falSas teorias conspiratórias.

  3. Comentou em 24/10/2007 Paula Abreu

    André, permita-me discordar de sua mensagem,como leitora atenta a diferentes pontos de vista,q acompanha o blogs do Nassif, do Reinaldo Azevedo e o Observatório.Não creio que seja adequado chamar Luís Nassif de petista,mas estou certa de q ele está muito envolvido na defesa do governo de maneira nada imparcial.A cobrança de comedimento p/parte da imprensa seria legítima e aceitável,caso não tivesse essa mesma imprensa sido tão ou mais enfática na cobrança de outros governos,como bem sabe o Nassif que escreveu o livro ‘O jornalismo dos anos 90’. E digo isso sendo até injusta, pois não acho que, tirando as emissoras de TV que se dedicam às camadas C e D c/programação sensacionalista,a imprensa fez cobranças no mesmo nível. Muito pelo contrário. No passado,era muito mais rigorosa,chegava a dar espaço a verdadeiras fraudes, como o famoso dossiê Cayman, enquanto hoje mal registra de maneira enfática críticas ao governo já se intimida, diante da patrulha petista, para não falar na influência das simpatias partidárias históricas da classe jornalística,principalmente de jornalistas ligados à cultura sindical.Diante desse quadro, ainda q L. Nassif estivesse de fato engajado no exercício do jornalismo neutro, o que não acredito, a sua cobrança de equilíbrio está servindo exclusivamente ao desequilíbrio da cobertura,s/ falar no qto alimenta as falas teorias conspiratórias de praxe.

  4. Comentou em 23/10/2007 Felipe Faria

    Boa fé e boas intenções sempre estiveram juntas no caminho do inferno. Muito político desmoralizou a honestidade por incompetência.

  5. Comentou em 22/10/2007 José Carlos

    Excelente o artigo, Sr. Weis, mas tomando a liberdade, ouso apenas discordar: a análise que faço é de que, embora ‘complô’ seja certo exagero, há sim uma ´tendência´ muito clara nas publicações de maior influência. Note, como bem chamou à atenção o jornalista PHA, que não há mais o termo ‘caos aéreo’ nos jornais eletrônicos, apesar dos atrasos em Congonhas superarem a casa dos 40%. Também não vemos o mesmo nível de cobranças de investigações pelas declarações do Sen. Azeredo, envolvendo FHC, dos pedidos de ´providências´ em relação ao Sen. Calheiros – que são mais do que cabidas, diga-se. Me parece que, senão todos, mas indivíduos muito bem colocados nas redações e direções jornalísticas podem muito bem já ter observado o comportamento de manada e estão se utilizando disso?

  6. Comentou em 22/10/2007 Cláudia Monteiro

    Caro Weis, a sua indignação é igual ao do Dines sobre o fato dos jornais condenarem a distribuição de livros didáticos com erros e cometerem as maiores barbaridades editando guias de vestibulares. Dines disse ‘se o governo não pode distribuir livros didáticos errados, a imprensa que critica o governo deveria estar mais atenta ao assumir o papel de educadora.’ E eu ponderei: talvez porque a nossa imprensa tenha sido acometida da vaidade de querer ser o que não pode. Os veículos de comunicação são somente isso: veículos – meios de se disseminar idéias, fatos e políticas. Jornal não deve substituir livro, professor e nem vivência de sala de aula. Jornalista não deve nem ao menos querer saber mais do que os outros. Afinal, somos generalistas e somos pagos para apurar fatos, oferecendo variadas versões, sintetizando comentários e posições. E, preferencialmente, temos a obrigação de alertar o receptor de quem é ou do que fez o personagens ouvidos. Mas, mais uma vez, o que faz falta hoje é da voz dos incomodados. Onde estão os professores, as academias, as universidades e os bons alunos que não reclamam das barbaridades que os veículos estão cometendo? A sociedade tem a imprensa que merece.

  7. Comentou em 22/10/2007 André Martins

    Luis Weiss você diz que o ‘complô da mídia’ não existiu. É evidente que nunca houve uma reunião entre os donos ou editores dos grandes jornais, revistas e televisões para discutir a cobertura das eleições. Assim como o ‘mensalão’ também não existiu porque os pagamentos não eram feitos todo 5o dia útil. Foram termos cunhados para resumir uma história que acabaram pegando. Muitos que pesaram a mão na época, agora poderão apelar para o efeito manada (não estou dizendo que é o seu caso). Mas quando jornalistas (como o Luis Nassif) pediam comedimento e separação entre fato e opinião, eram taxados de petistas, ou simplesmente xingados e caluniados. Mesmo agora, a tensão ainda não se dissipou.

  8. Comentou em 22/10/2007 Filipe Fonseca

    Luiz, concorrência e mercado são exatamente as ‘segundas intenções’. Manter esse mundinho mercadológico funcionando é uma das principais preocupações dos jornais que naturalizam esse mundo. Por isso, sempre reafirmam a soberania do mercado sobre os homens em sociedade.

    Greve é problema de trânsito. Pobreza é ocupação irregular. Bolsa-família é bolsa-esmola. Criança carente é falta de controle de natalidade. E por aí vai. Se nessa reinterpretação hipócrita do mundo não há segundas intenções, onde as há?

  9. Comentou em 21/10/2007 Lau Mendes

    Sr. Weis devolvo o comentário na mesma moeda embora quando o assunto é política acredito que a isenção fica meio prejudicada .Nossos amores e desamores podem ‘influenciar’ nossa boa fé e alem ou até por isto, jornalista e leitor(‘comentarista’)estão sujeitos a reflexões não muito claras e já contaminadas sob tal efeito cascata . Na internet vira dilúvio.

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