Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Mentalidades

Por Mauro Malin em 17/02/2006 | comentários

Quase tudo, de Danuza Leão, é um livro excepcional. Entre várias passagens que fazem referência à mídia, ou, de modo mais amplo, à maneira como funcionam as cabeças no Brasil, encontram-se estas duas:


Rede Globo, página 187:


Faltavam apenas três meses para acabar meu contrato, quando um dia recebi um telefonema da Globo dizendo que eu estava demitida [Danuza era produtora de arte de novelas]. Assim, por telefone e sem explicações. Não entendi, perguntei a razão, e tive o indefectível ´ordens lá de cima´ como resposta. Minhas relações com Sílvio [de Abreu, novelista] continuavam ótimas, e, quando liguei para contar, ele também ficou perplexo. Mas tive minhas suspeitas e, depois, umas informações. No domingo anterior, tinha dado uma entrevista para o caderno de TV do Estado de S. Paulo na qual perguntavam meus programas preferidos, essas coisas. Nas minhas respostas a Globo pouco aparecia, e, no quesito telejornal, a resposta foi ´o do Boris Casoy´, que era do SBT. Isso, na Globo, costuma dar demissão – e deu”.


Jornal do Brasil, páginas 203/4:


Danuza descreve uma campanha de sua coluna no Jornal do Brasil para trocar o nome do Aeroporto do Galeão por Aeroporto Internacional Maestro Antonio Carlos Jobim. A certa altura é chamada pelo “Dr. Nascimento Brito, na época o dono do Jornal do Brasil”, que “era um lorde. Muito elegante, muito educado, sempre deu total liberdade aos jornalistas, que escrevessem o que quisessem”.


Ele diz a Danuza que deveria interromper a campanha. “Mas como, de repente, não falar mais de um assunto que era a cara da coluna? E os leitores, e os apoios que eu estava recebendo? Dr. Brito, mansamente, me disse que o Jornal do Brasil tinha, desde que fora fundado, uma posição: era contra a alteração do nome de qualquer logradouro. Eu não precisava parar de repente, mas que fosse diminuindo a freqüência com que falava do assunto; os leitores iriam esquecendo, e pronto. E terminou com esta pérola: ´Esse rapaz [Tom Jobim], minha filha, lá fora ninguém sabe quem é; só aqui algumas pessoas o conhecem´. Diante disso lembrei que manda quem pode, obedece quem tem juízo, e eu não ia convencer dr. Brito de que Garota de Ipanema era a segunda música mais gravada no mundo, até porque ele não ia acreditar. Fiz o que ele mandou, mas já era tarde, e alguns meses depois tive a honra de ser convidada pelo presidente Fernando Henrique para ir a Brasília assistir ao ato em que ele assinaria a mudança do nome do aeroporto para Maestro Antonio Carlos Jobim”.

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/02/2006 Eduardo Longo

    Realmente, o cara forçou mesmo! Não sei dizer o quanto Jobim é conhecido no exterior, mas dizer que aqui no Brasil ALGUMAS pessoas o conhecem é de lascar. Até eu, que DETESTO bossa-nova sei que ele foi o maior compositor desse gênero. Mas eu voltei ao assunto porque esqueci de comentar a primeira história. Veja bem, caro Mauro, você pode imaginar um engenheiro da General Motors dizendo no Estado de São Paulo, que bons mesmo são os veículos da Volkswagen? O cara até pode ter essa opinião, é direito de todos nós, mas que diga aos amigos, aos familiares na mesa de jantar. Dizer uma coisa dessas em um dos maiores jornais do país não é apenas uma asneira, uma sandice. É uma atitude profundamente antiética, é cuspir no prato onde come. A empresa não lhe paga um salário para você trabalhar em favor de seu maior concorrente. Francamente, em minha opinião isso é justa causa. Justíssima.

  2. Comentou em 20/02/2006 Eduardo Longo

    Concordo 100% com a postura do jornal quanto à mudança de nome de logradouros. Só quem teve o seu endereço mudado (e pior: sem ter sido consultado) sabe o transtorno que isso representa. Claro que ninguém mora no aeroporto, mas quando você começa a abrir exceções, sempre vira bagunça.

  3. Comentou em 17/02/2006 Hélcio Lunes

    ‘Manda quem pode, obedece quem tem juizo’ ‘A porta, é serventia da casa’ A coisa funciona assim desde que Adão e Eva, desobedeceram Deus (o Dono!!), comeram a frutinha e sif…. Mauro Malin, no tempo em que você trabalhava para a ‘American Chamber’, como jornalista, não era assim que a coisa funcionava? Por que então Dr. Roberto e Dr.Nascimento (Donos!!)não deveriam fazer com que as coisas fossem do jeito que desejavam? Hélcio

  4. Comentou em 17/02/2006 Edmundo Fernandes

    Outro dia li, não me recordo onde, uma analise que dizia que o que faltava ao Brasil era uma elite, pois o que tinhamos, na verdade, eram oligarquias. Talvez a imprenssa tradicional, a dos jornalões e canais de tv, sejam há muito comandadas por oligarquias. Não há linha de razão, apenas a vontade dos Lordes, ou melhor, dos Coronéis, já que estamos em terras tupiniquins.

  5. Comentou em 17/02/2006 Orlando Fogaça Filho

    Acho a Danuza Leão insuportável e suas colunas lamentáveis. Não tenho o que comentar sobre esta mediocridade, mas a maneira que os ´donos´ da informação manipulam e conduzem seus negócios, apesar de palavras dela, é realmente lastimável!

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