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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº999
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México em poucas – e boas – palavras

Por Luiz Weis em 08/07/2006 | comentários

Para um apanhado objetivo do que está em jogo na disputa sobre os resultados da recente eleição presidencial no México, eis um texto de primeira.


 


O autor é Greg Grandin, professor de história da Universidade de Nova York e estudioso das relações entre os Estados Unidos e a América Latina.


 


Saiu no New York Times de hoje, sob o título ‘Como ser um bom vizinho’. Segue a tradução, com uns poucos cortes e adaptações. Boa leitura.


 


‘A presente crise eleitoral no México é propelida pela inquietação no campo – a ira dos trabalhadores agrícolas deslocados pelo Acordo de Livre Comércio da América do Norte [Nafta, na sigla em inglês].


 


Andrés Manuel López Obrador, o candidato presidencial de centro-esquerda que contesta a anunciada vitória de Felipe Calderón na eleição de domingo passado, obteve muito do seu apoio entre a cada vez mais inquieta população rural pobre.


 


Antes do Nafta, o México era auto-suficiente em milho e feijão. Hoje, uma de cada três tortillas mexicanas é feita com milho barato dos Estados Unidos. Em 1993, mais de 10 milhões de mexicanos tiravam o seu sustento do solo. Hoje, embora a população do país tenha aumentado, esse número caiu para cerca de 7 milhões.


 


Os agricultores mexicanos simplesmente não conseguem competir com o agribusiness americano, rico em capital, que continua a desfrutar de generosos subsídios governamentais. Além disso, os importadores mexicanos de commodities recebem empréstimos a juros baixos para comprar produtos agrícolas dos Estados Unidos.


 


A cada ano, cerca de 3 milhões de toneladas de milho mexicano colhido apodrecem porque é muito caro para vender.


 


Os mexicanos têm outros motivos ainda de preocupação. Em 2008, entra em vigor a provisão final do Nafta, eliminando as últimas tarifas sobre o milho e feijão americanos e extinguindo os subsídios do governo aos camponeses mexicanos – enquanto permanecerão intocados os muito maiores subsídios de Washington ao setor agrícola do país.


 


Na sua campanha, López Obrador prometeu renegociar essa provisão, mas J.B. Penn, o subsecretário de Agricultura dos Estados Unidos respondeu preventivamente dizendo que “não tem nenhum interesse em renegociar qualquer item do acordo”.


 


Durante a última década e meia, Washington e seus aliados na política mexicana, incluíndo Calderón, promoveram um modelo econômico de livre-comércio que falhou em trazer a prosperidade que os seus defensores prometiam.


 


Embora a economia mexicana tenha crescido 3% no ano passado, a pobreza do país e os seus indicadores de desigualdade continuam tipicamente ruins, pelos padrões latino-americanos, com os 10% mais ricos da população controlando 43% da riqueza nacional, enquanto cerca de 40% dos mexicanos vivem abaixo da linha da pobreza.


 


Esses problemas, combinados com a indignação mexicana provocada pelo debate sobre imigração nos Estados Unidos, podem azedar as relações entre nossos dois países pelo futuro previsível.


 


Mas existe uma maneira de o governo Bush ajudar a conduzir as coisas a um caminho diferente. Embora os funcionários eleitorais digam que Calderón teve mais votos, os Estados Unidos não deveriam se apressar a abraçá-lo como o vencedor do pleito.


 


A contagem oficial dá a Calderón uma vantagem minúscula e há relatos críveis de irregularidades significativas que na melhor das hipóteses poderão enfraquecer a legitimidade da presidência Calderón, e na pior das hipóteses levar a uma escalada de protestos.


 


Os votos contestados incluem as 904 mil cédulas anuladas, principalmente das regiões onde foi ampla a vantagem de Obrador, além de discrepâncias entre os números fornecidos pelas mesas coletoras e apuradoras e as cédulas de fato depositadas nas urnas.


 


O melhor que os Estados Unidos podem fazer agora é apoiar o movimento pela recontagem dos votos e abster-se de cobrar de Obrador que reconheça a derrota.


 


Depois, ganhe quem afinal ganhar, a Casa Branca deveria renegociar o Nafta, permitindo ao México definir a própria política de apoio à sua economia rural.


 


Se o governo Bush agir de outro modo, poderá perfeitamente contribuir para o início de uma nova série de conflitos políticos violentos no país, como em 1810 e 1910 – dando razão aos astecas que diziam que a história é circular e os grandes acontecimentos se repetem ciclicamente.’



***


Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/07/2006 Reginaldo Almeida

    Entre a Alca e a Alba, sinceramente eu ficaria com a Alca. O problema do México é que aqui há bastantes mais caudilhos que no Brasil, e todo mexicano tem o plano B de fugir para os EUA. Assim, da mesma forma que o odeiam porque não o tem, o adoram uma vez que o tem, e olha que segundo a ótica de algumas pessoas no Brasil, os EUA são o bastião do capitalismo selvagem, por que será entao que todos querem ir pra lá?

    O grande lance é que o México poderia imitar os EUA no que é bom e deixar de lado no que é ruim, mas nem isso fazem, metade do povo está de costas para a fronteira, e a outra metade tenta cruzá-la

  2. Comentou em 10/07/2006 Felipe Pelussi

    Weis, transcrevo uma notícia veiculada pelo blog do jornalista Reinaldo Azevedo, de urgentíssima importância no que respeita à imprensa de um modo geral e sua relação com, vá lá, ‘os donos do poder’.Ei-la: ‘O juiz Fabrício Fontoura Bezerra condenou a empresa Folha da Manhã, que edita a Folha de S. Paulo, a pagar uma indenização de R$ 200 mil a Eduardo Jorge Caldas Pereira, ex-secretário-geral da Presidência no governo FHC, numa ação por danos morais. O jornal publicou um conjunto de reportagens, com base em informações depois não comprovadas, fornecidas pelo Ministério Púbico, que a Justiça considerou caluniosas. Elas diziam respeito a uma suposta rede de influências que teria sido criada pelo ex-secretário-geral para beneficiar empresas.’.A sentença do juiz está aqui: http://tjdf19.tjdf.gov.br/cgi-bin/tjcgi1?MGWLPN=SERVIDOR1&NXTPGM=tjhtml122&ORIGEM=INTER&CIRCUN=1&SEQAND=239&CDNUPROC=20030110550660 ; que jornalismo é este, irresponsável e imprudente, que, no entanto, se quer ‘isento’, e nem mesmo faz menção de se retratar? Na prática, a FSP aliou-se ao PT e ao infame procurador-geral da República de então, Luiz Francisco, para moer a reputação de alguém que, vê-se, é honesto e honrado, a se confiar-e eu confio- nas instituições competentes para apurar o imbróglio..É um tema de que não se pode omitir este Observatório da Imprensa.Ou pode?

  3. Comentou em 09/07/2006 Salvador Rocha

    Temos todos a obrigação de nos colocarmos em posição de alerta pois os americanos têm seus planos de ANEXAÇÃO muito bem traçados com anos de antecedência. A ALCA SERÁ UM MODELO EM PROPORÇÕES MAIORES AO NAFTA.

  4. Comentou em 09/07/2006 José Carlos dos Santos

    Caro Weis, vendo o sofrimento dos mexicanos eu fico pensando como é que ainda têm pessoas, políticos principalmente, que defendam a entrada do Brasil nessa arapuca do Nafta, ou alguém acredita que os Norte-americanos estão realmente preocupados com o desenvolvimento dos países ‘vizinhos’.

  5. Comentou em 08/07/2006 taciana oliveira

    México, Colômbia, Chile e agora Peru. E quem mais virá? Pela vontade de parte dos nossos com’patriotas’ e de nossa imprensa, nós deveríamos segui-los. Pois, não ficam criticando o governo por preferir a opção de se unir ao Mercosul e de procurar parceiros comerciais fora do eixo de influência dos EUA?

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