Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Mídia ignora o melhor de uma pesquisa

Por Luiz Weis em 16/10/2007 | comentários

Qualquer foca há de saber que nem tudo que é apurado merece ser publicado.

Mesmo veteranos editores, porém, parecem ignorar que se esse princípio se aplica a uma reportagem, aplica-se também a uma pesquisa de opinião.

Mas, pavlovianamente, continuam dando espaço a resultados de levantamentos que, ou não trazem nada de novo – a aprovação ao presidente Lula – ou não querem dizer rigorosamente nada, como as abstratas simulações eleitorais para 2010 a partir de listas que não somam 2 com 2.

É o caso dos números da mais recente pesquisa do instituto Sensus para a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), hoje nos jornais.

O pior é que, além de gastar tinta e papel de forma desproporcional à importância dessas quase-notícias, a imprensa não garimpa o que pode haver de original no meio da numeralha.

Uma exceção é a colunista Dora Kramer, do Estado, que descobriu dois filões na sondagem CNT/Sensus. Um, a preferência da maioria absoluta dos entrevistados (59%) pelo voto facultativo. Outro, a concordância também da maioria (54%) com a tese acolhida pelo Supremo Tribunal Federal de que os mandatos de deputados e vereadores não lhes pertence, mas aos partidos pelos quais se elegeram.

Há uma diferença entre os dois destaques, que não escapou à colunista. A questão da propriedade do mandato, leia-se, da fidelidade partidária, está na crista da onda. Já a substituição do voto obrigatório pelo facultativo não passa nem longe da presente agenda política nacional.

Nas palavras de Dora:

‘O montante de pessoas favoráveis ao voto facultativo, praticamente igual ao daqueles que iriam votar se não fosse obrigatório, é inversamente proporcional ao interesse dos políticos em discutir o assunto. […] O apoio ao voto facultativo aparece de forma espontânea, sem que existam campanhas a respeito, nem um único político levantando a lebre para a discussão.’

Esse o lado melhor das pesquisas que tende a passar batido pela imprensa que segue o caminho do óbvio: as perguntas que não se prendem estreitamente ao agora e aqui e cujos resultados podem ser mais reveladores do que os obtidos nos outros quesitos.

É claro que o tema do voto obrigatório não vive no vácuo. Quem teve a idéia de incluí-lo no questionário presumiu, com razão, ao que se vê, que valeria a pena sondar de outro ângulo o conhecido desencanto em massa com os políticos – depois da fieira de escândalos na Câmara e o affair Renan no Senado.

Não deu outra. E não é que os brasileiros não queiram votar. Livres para fazer outra coisa no dia E, muitos ainda assim compareceriam para escolher os titulares do Executivo – presidentes, governadores, prefeitos.

A mídia, a propósito, nunca, ou quase, discutiu direito esse dilema. Fica, de hábito, na dicotomia ‘o voto é um direito’ vs ‘o voto é um dever’ – o que não leva a parte alguma. A grande questão irrespondida é se a democracia fica mais, digamos, ‘democrática’, com uma regra ou a outra.

Talvez seja até impossível dar uma resposta cabal a isso – como se a obrigatoriedade ou não do voto fosse a única variável capaz de contribuir para o aprofundamento ou o estreitamento da ordem democrática.

Em todo caso, trata-se de um dos tais assuntos que, bem abordados, permitem ao público enxergar de mais perto o modus operandi desse sistema que, já se disse, é o pior do mundo, à exceção de todos os outros.

E por falar em exceção: o voto é facultativo na grande maioria das democracias, principalmente nos países mais avançados.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/10/2007 Luiz Baruck

    Por mais que possa parecer paradoxal um voto obrigatório, acho-o positivo, principalmente num país como o Brasil, com breve experiência democrática e de população tão numerosa e heterogênea. Num país onde a tradição tende mais para a instabilidade autoritária do que para o rito democrático, o voto facultativo sempre abriria a brecha para movimentos golpistas que evocariam a ilegitimidade do mandato em um momento de crise. Seria batata.

    Além do mais, o voto obrigatório no país é meramente simbólico. Todos temos os recursos da justificação, da anulação ou simplesmente da ausência ao pleito, já que a pena é irrisória.

  2. Comentou em 18/10/2007 Lau Mendes

    E a fraude Sr. Weis ? Nos EUA tem sido rotina na mídia quando fala em eleições presidenciais;não que a obrigatoriedade tenha o poder de eliminar qualquer fraude mas tenho a convicção que as tornam menos freqüentes. De outro lado na Itália,Bélgica….democracia e voto obrigatório não parecem ser antagônicos e sim uma divisão de responsabilidades ,como direitos e obrigações e vice-versa. Mas com certeza foi bobagem a divulgação de tendências futuras “muito futuras” desprezando um dado significativo. Pena que este tipo de interesse “pesquisatório” geralmente tem interesses não muito claros. Talvez algum político de oposição mais animado.

  3. Comentou em 18/10/2007 Paulo Bandarra

    Brasileiro não vota em partidos, mas nas pessoas. Até partidos sabem disso ao escalarem pessoas públicas fora da política para faturarem votos. A fidelidade discutida deveria ser dos partidos com suas promessas de campanha e com seu programa defendido. Só lembrando que nós não estamos entre o rol de países mais adiantados! Abraços

  4. Comentou em 18/10/2007 Fábio de Oliveira Ribeiro

    ‘Quando projetamos todas nossas esperanças no FUTURO é porque desejamos esquecer o PASSADO ou não queremos lidar com os problemas do PRESENTE.’ Não sei quem foi o cara que disse isto, mas ele conseguiu sintetizar a PATOLOGIA SOCIAL que começa a dominar o país. Deste jeito a vaca vai para o brejo mais cedo. Qual a razão de discutir a matemática política para 2010, se até muitos políticos e eleitores estão mortos. A maioria da população não sabe nem o que vai vestir e comer daqui a 10 dias e não tem razões para fazer projetos para daqui há alguns anos. Daqui a 10 meses mais gente terá sido baleada nas favelas do Rio do que os donos de institutos de pesquisas e caciques dos partidos juntos. Mas as preocupação destes não são as mesmas da maioria da população. Este abismo entre as necessidades da maioria e os desejos de poucos ainda vai provocar uma tragédia.

  5. Comentou em 18/10/2007 Eduardo Mariano Neto

    Ainda que o debate não exista na mídia, muito menos nas câmaras onde se discutem e fazem leis, a não obrigatoriedade do voto é algo que eu e muita gente sempre levantamos junto às pessoas, em especial na zona eleitoral na época da eleição, onde parece que o povo está mais sensível a este debate. Acredito que mudanças ainda devem fomentadas ´na base´, e por nós, cidadãos, que temos o dever de discutir mais do que novela da globo e futebol, mesmo que eu até prefira discutir o último.

  6. Comentou em 18/10/2007 Maria Izabel L. Silva Silva

    Prezado Weis. O melhor da pesquisa é mesmo os 65% do presidente Lula contra os trinta e poucos por cento do José Serra. Sorry!!!

  7. Comentou em 17/10/2007 Ivan Bispo

    Não seria a hora de pensarmos numa constituinte exclusiva para a reforma política?

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