Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Mídia privilegia choque de idéias sobre racismo

Por Mauro Malin em 25/02/2006 | comentários

O Estatuto da Igualdade Racial saiu do Senado e espera vaga para tramitar na Câmara dos Deputados. Em janeiro, o articulista da Folha de S. Paulo Demétrio Magnoli escreveu, sob o título “Constituição do racismo”, que sua aprovação fará com que a nação deixe de ser “um contrato entre indivíduos para se tornar uma confederação de ´raças´’. No dia seguinte, a Folha publicou carta do cientista político Bolívar Lamounier em apoio a Magnoli: “Ninguém de bom senso se opõe a providências múltiplas, flexíveis e não-coercitivas que facilitem a superação de preconceitos e garantam o acesso igualitário a oportunidades e compensações. Infelizmente, ao lidar com essas questões, o projetado estatuto inspirou-se nos piores modelos, conceitos e métodos disponíveis. (….) É bem mais provável que enrijeça percepções e preconceitos, fomentando desentendimentos artificiais e, como diz Magnoli, solapando o princípio republicano da igualdade dos cidadãos.”


É a posição que predomina nos editoriais dos principais veículos de comunicação do país: contra as cotas, contra o Estatuto da Igualdade Racial. O secretário de Direitos Humanos do Estado do Rio, Jorge da Silva, defendeu em junho de 2005 uma tese de doutorado chamada “Violência e Identidade Social”. Em certa passagem ele polemiza com João Ubaldo Ribeiro e Ali Kamel, que várias vezes escreveram no Globo artigos contra o sistema de cotas. Na introdução, entretanto, opina que o debate em torno das cotas é menos relevante do que parece. “O que me parece importante realçar a partir da contradição é que ela existe; que posições antagônicas a esse respeito se contrapõem publicamente de forma apaixonada, e que isto não é um dado trivial”, escreve Jorge da Silva. Cita em seguida uma sondagem de opinião com 2.711 pessoas cujo resultado foi o seguinte: 77% dos que se declararam brancos foram contra as cotas, entre os negros e pardos esse número foi de 79% e entre os “outros” (pardos claros, na visão dos entrevistadores), 83% se disseram contra. Jorge da Silva tira daí argumento para sua tese de que existe hoje no Brasil “uma forte tensão etnorracial”.


A guerra religiosa intramuçulmana no Iraque e entre fanáticos de diferentes religiões em muitos outros países, as caricaturas dinamarquesas e a reação a elas, o anti-semitismo na França não deixam dúvidas: conflitos sociais longamente alimentados são uma herança maldita cobrada a cada geração.


Diante dessa realidade, duas atitudes básicas são geralmente adotadas. Uma, que ocupa hoje as manchetes e muito espaço ou tempo dos noticiários, é colocar mais lenha na fogueira. Com objetivos políticos, sempre. Outra é adotar medidas para cortar o suprimento de oxigênio ao fogo. Política antagônica à anterior.


Manifestações ferozes de conflitos mal abafados explodem em muitas cidades brasileiras. Seria trágico privilegiar nelas a conotação racial ou étnica. Mas seria igualmente nefasto fingir que o Brasil não tem esse problema.


A mídia trata mal do assunto. Há radicalização de posições e relativamente pouca reportagem. Neste dossiê se apresentam opiniões que podem ajudar a mapear melhor o debate. Primeiro ponto a esclarecer: o Estatuto da Igualdade Racial é uma proposição inconstitucional?


Célio Borja, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, ex-ministro da Justiça e ex-presidente da Câmara dos Deputados, em princípio não concorda com a idéia de que o Estatuto da Igualdade Racial seja inconstitucional, mas faz uma advertência sensata. Se o critério de favorecimento de determinados grupos sociais, pela cor da pele, ou pela origem étnica, for excludente – só pretos”, “só pardos”, “só brancos”, “só indígenas” – haverá sérios problemas.


A ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial, defende o Estatuto e prevê que muito vai depender da maneira como os dispositivos da nova legislação forem trabalhados e apresentados à opinião pública. Aqui, a mídia será o grande canal dos acertos e dos erros.


O senador Rodolpho Tourinho, do PFL da Bahia, ministro das Minas e Energia no governo Fernando Henrique Cardoso, foi o último relator do Estatuto da Igualdade Racial na Câmara Alta. Tourinho subscreveu a proposta feita originalmente pelo então deputado e hoje senador Paulo Paim, do PT gaúcho. “Muitos dos que são contra o Estatuto da Igualdade Racial alegam que não há discriminação racial e que aliás é esse Estatuto de alguma forma que poderia promover a discriminação. Isso no meu entendimento é uma farsa que não pode ser levada a sério”, diz o senador.


O antropólogo Roberto DaMatta entra na discussão com a humildade da dúvida intelectual que é certeza de uma reflexão inteligente. Mas tem posição clara: “É melhor ter um sistema de cotas escrito por mim, por você, por outras pessoas, do que ter um sistema implantado no coração que nunca foi discutido por ninguém, o sistema tradicional de lidar com as chamadas pessoas de cor no Brasil – assumir que são pessoas boas até que eles digam alguma coisa, e aí nós ou mandamos prender ou falamos que são antipáticos e revoltados”.


Leia nos posts abaixo as entrevistas.


Célio Borja pede visão de estadista 


Ministra espera colaboração da mídia


Para senador, reação a Estatuto da Igualdade é forma de fugir do problema


DaMatta adverte que raça não é assunto simples e indolor

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/07/2006 Roberto Rodrigues

    Viva! Isto é só o começo. Vai ser aprovado sim! e a elite vai ter que segurar sua onda e respeitar cada negro(a) que estiver sentado ao seu lado nas universidades. Vai ter que conhecer, ver e olhar para pelo menos um por dia. Já que não existem negros dentro dos seus condominios fechados. A conta ainda esta muito negativa para nós. Perto dos incentivos que foram dados aos milhares de Europeus que vieram para o Brasil construir furtuna, fugidos dos seus paises de origem, onde foram covardes e correram da guerra e vieram para cá cultivar o racismo presente hoje ainda na europa. Trazidos por eles… isto ainda é pouco, queremos muito mais!

  2. Comentou em 03/04/2006 Roberto Sabino Sabino

    É necessário a sociedade brasileira, reconhecer como trata o povo Negro. Reconhecer que lhe reserva 99% de cota nas favelas; 99% da população carcerária; 99% dos internos na FEBEM. Estatuto, cotas, são meios de elevar este povo a condição de cidadão, deixando finalmente de serem usados como ‘boi de manobra’, para a mantença das elites no Poder.

  3. Comentou em 07/03/2006 Lelê Teles

    DEFICIENTES CÍVICOS quando foi implantado o sistema de cotas, reservando vagas em concursos públicos para deficientes físicos, ninguém contestou. Quando o sistema resolveu abranger negros e pardos a sociedade inteira chiou; isso não é sintomático? Em tempo, a USP foi erigida para acomodar os filhos da elite que iam estudar em Coimbra e em Londres, a universidade, onde se ministrava aulas em italiano e em francês foi pensada para os filhos brancos da elite, a universidade já nasceu com sistema de cotas, cotas para os brancos ricos. Até hoje é reduto do pessoal dos Jardins. Se o estado não intervém, podemos classificar estas pessoas renegadas tanto em empregos (que exigem boa apraência) quanto em universidades (que exigem estudo em escolas particulares, portanto dinheiro)é colocá-los na condição de deficientes cívicos! Cotas já!

  4. Comentou em 02/03/2006 jorge carvalho pinto

    sou contra o estabelecimento de cotas, sejam por raça, sejam PRINCIPALMENTE por origem escolar (de escolas públicas/particulares). Isso enseja distorções MARCANTES e obscurece o real motivo dos oriundos de escolas públicas não estarem em condições de competir de maneira mais ‘limpa’: A ESCOLA PÚBLICA VIROU UMA PORCARIA. E já não é de hoje. Então, ao invés de limpar o lixo e higienizar a escola, procura-se emporcalhar o resto.
    Mais: amanhã ou depois, consultado por um médico/dentista negro, o meu pensamento será: ‘pôxa.. passou por cota ou por merecimento?’

    Amplia-se a discriminação, ao invés de elimina-la.

  5. Comentou em 01/03/2006 Odracir Silva

    Acho q a discussao ee valida e tem q ser com choque de ideias mesmo. O assunto nao estaa maduro para o governo tentar impor o assunto, se estivesse saberiamos quem estaa a favor do que. Ainda nao tenho uma opiniao realmente formada, e duvido q muita gente o tenha. A priori, acredito que o sistemas de cotas ee bom, mas nao deveria ser relegado a uma raca em particular. Acho q deveria ser para os excluidos do bolo social seja eles brancos, pretos, pardos, indios, e atee os asiaticos (se houver algum…). Deveria ser mais um fator economico do que de raca. Usar o modelo estadudinense no Brasil ee burrice pois como jaa foi escrito no post vai fazer uma confederacao de racas… alias, como isso pode ser praticado no Brasil, com tantos pardos????? talvez os pardos soo devam receber meia-bolsa???? sei la…

  6. Comentou em 01/03/2006 Conrado Giacomini

    O Paulo Paim, autor do famigerado Estatuto, é muito mais brincalhão que o Millôr.

  7. Comentou em 28/02/2006 Conrado Giacomini

    ‘Sou favorável ao sistema de cotas para afro-descendentes desde que haja um sistema de cotas para anões num time de basquete’ (Millôr Fernandes)

  8. Comentou em 27/02/2006 Thomaz Magalhães

    A coisa se chama Estatuto da Igualdade Racial e começa por determinar quais raças merecem distinção. É racista. Se não o quer ser, tem que se limitar ao conceito de igualdade raças, e não às raças e suas peculiaridades. Qualquer raça pode, qualquer raça não pode isso ou aquilo. E não essa coisa de a raçã negra tem cota pra isso, a vermelha pra aquilo e assim por diante. Distinguir direitos para essa ou aquela raça é racismo.

  9. Comentou em 26/02/2006 Celso Chino

    É incrível a dificuldade do pessoal de esquerda/politicamente correto em discutir um assunto sem logo pedir soluções mágicas ou violentas. Revoluções não mudam os países,quando elas ocorrem são apenas o início do processo de mudança mais profunda, e os revolucionários são quase sempre péssimos governantes e tirânicos, sendo os ricos os únicos que se salvam (eles tomam o avão e voam para a Europa ou os EUA). Não se muda a mentalidade de um povo NA MARRA, isto não se sustenta a longo prazo…E o Ministro Palocci não fala em crescimento sustentável? O mesmo vale para as mudanças em outras áreas.Não se eliminam 500 anos de distorções e opressão por decreto, apenas com voluntarismo.

  10. Comentou em 26/02/2006 Celso Chino

    CUIDADO COM AS PANaCÉIAS! Sejamos sensatos, se lerem o que pensam sobre o tema Célio Borja, Rodolpho Tourinho e Da Matta fica claro não haver consenso nem entre a elite pensante. É razoável se aprovar às vésperas das eleições um projeto que pode criar mais distorções que encaminhar a resolução do problema da desigualdade de oportunidades? No Brasil quando há um problema sério logo vem a resposta: Vamos criar uma nova lei!… mas leis não mudam mentalidades profundamente arraigadas (este o maior problema), como se viu nos EUA, onde uma penca de leis pró igualdade racial pouco mudou a mentalidade racista de brancos e negros e de ambos contra os estrangeiros. Tentar mudar uma realidade tão complexa por meio de uma lei é, de novo, tentar mudar a sociedade de cima para baixo. Nisto todos os nossos políticos (salvo exceções individuais) são iguais, vão SALVAR A PÁTRIA.

  11. Comentou em 26/02/2006 Celso Chino

    Há racismo no Brasil?… Sem dúvida! O problema é como enfrentá-lo. Nos EUA o sistema de cotas teve lá o seu papel na integração dos negros numa sociedade ultra-racista (agora o problema são os OUTROS, de povos imigrantes), mas não mudou em quase nada o racismo arraigado de brancos e negros (sim, srs., há racismo negro também, não é privilégio dos branquelas). Vamos copiar o sistema americano, bombardeado lá duramente, sem discutirmos seriamente aquela experiência (e a de outros países), seus prós e contras? Isto é típico do Brasil, um país culturalmente imaturo, onde ou se discute à exaustão um tema e não se toma nenhuma providência (Exemplos:as reformas política e da nossa falida/falsa federação), ou se aprova uma LEI milagrosa de afogadilho. Célio Borja foi ponderado nas suas colocações e indicou a complexidade do tema, Rodolpho Tourinho extrapolou o problema agudo da Bahia para todo o país (e temos vários Brasis no Brasil), DaMatta acha que a aprovação das cotas vai abrir discussão sobre o problema do racismo no país. O que fica claro é não haver consenso nem entre as elites à respeito do problema e sobre como enfrentá-lo, é temerário portanto aprovar-se agora, às vésperas das eleições, um projeto que pode criar terríveis distorções e novos ‘direitos’ (o Brasil é o país dos direitos sem deveres. É o paraíso terrestre!) que se tornarão pétreos.

  12. Comentou em 26/02/2006 Humberto Miranda do Nascimento

    Eu sempre achei estranha a opinião de muitos articulista sobre a implantação do sistema de cotas para índio e negrodescendentes nas universidades públicas do Brasil. Afinal, nunca houve uma opinião que reconhecesse o fato do Brasil ter sido uma colônia e por isso ter herdado um leque de desigualdades que se manteve por anos, através de instituições que reforçaram, mesmo num país com valores republicanos, aquele legado. Hoje sabemos que não é só porque o Brasil foi colonizado que o legado se manteve, mas porque nossa elite se diferencia assim, com a invisibilidade daqueles que mais sofrem as consequências dessa desigualdade. Escondem aquilo que, em última análise, é o que torna alguns brasileiros melhores que muitos outros. Revelar isso é tirar da alcova da cumplicidade branca com a miséria as culpas que norteiam a pena pelos pobres e miseráveis. Expiar culpas dando esmolas é mais fácil de aceitar. Incrível como algumas pessoas cultas e privilegiadas acham que nossos problemas se agravarão com o tal estatuto. É prova de que eles sentem que seu mundo seguro está sob ameaça. Acho que a ameaça é somente uma: não é como eles pensam, nós pensamos também. Num mundo verdadeiramente democrático, nossas diferenças não precisam justificar-se sempre pelas desigualdades. É preciso evoluir, sendo diferente e igual. Eis o recado das cotas: democratizar de fato a classe média. Humberto;

  13. Comentou em 26/02/2006 Marinilda Carvalho

    Post espetacular. Chega de fingimento, que significa continuidade da opressão. Na 12ª Conferência Nacional de Saúde, em 2003, entrevistei Maria do Carmo Sales Monteiro, da Rede Feminista de Saúde-SP. Ela disse: ‘Todos estamos imbuídos da política racista mais eficiente do planeta, que é a brasileira. É tão eficiente que o negro fica invisível, e nem vê a si próprio. Sempre que se tentam inserir propostas relacionadas a negros e índios cria-se um clima. E olhe que se trata de lideranças da área de saúde, formadores de opinião, gente que faz as leis, que está nos governos. É por isso que é tão difícil mudar.’ Fica explicado o resultado dessas pesquisas sobre cotas, rejeitadas até entre os negros. É psicologicamente compreensível, o oprimido não quer demonstrar que precisa de ‘favores’. Daí nossas políticas racistas serem tão bem-sucedidas. Acho o Estatuto espetacular. Espetacular o comentário do senador. Tem que botar tudo no papel mesmo, tintim por tintim. Pau na moleira do racismo! É o único jeito de virarmos, dentro de uns 100 anos, quem sabe, uma nação.

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