Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Milho na mídia: faz mal ou não faz?

Por Luiz Weis em 24/05/2005 | comentários

O Independent, o jornal mais antitransgênicos do país mais antitransgênicos do mundo, a Inglaterra, soou o alarme domingo.

Sob o título “Ratos alimentados com milho GM a ser vendido na Grã-Bretanha desenvolveram anormalidades no sangue e rins”, e o antetíítulo “Estudo secreto com alimento GM provoca temores envolvendo saúde”, o editor de Ambiente do tabloidizado diário londrino, Geoffrey Lean, escreveu ali uma reportagem de 560 palavras sobre uma pesquisa da Monsanto, a gigante mundial da transgenia.

Há seis anos, Lean lidera a assumida campanha do Independent contra as culturas geneticamente modificadas.

A matéria, transcrita ontem pela Folha e “repercutida” hoje pelo Estado, deixou a multinacional sediada em Saint Louis, Missouri, numa aparente saia-justa, por três motivos.

Primeiro, porque, na versão de Lean, um estudo da empresa com uma variedade milho Bt (MON 863) – cujas raízes resistem à larva da lagarta diabrótica, uma praga perniciosa, mas rara no Brasil – teria comprovado que ratos submetidos a uma dieta exclusiva desse cereal apresentaram alterações sanguíneas e diminuição dos rins, condições ausentes nos ratos alimentados só com milho convencional.

O Independent ouviu médidos que disseram “que as mudanças no sangue poderiam indicar que o sistema imunológico dos ratos foi afetado ou que uma desordem, como um tumor, surgiu e o sistema estava se mobilizando para combatê-lo”.

Segundo, por causa do caráter confidencial do estudo de 1.139 páginas, que o Independent teria conseguido romper. A reportagem deixa no ar a insinuação de que a Monsanto procurou esconder os resultados inquietantes da experiência, sob a alegação de que o texto “contém informações empresariais sigilosas, que poderiam ser usadas pelos competidores para fins comerciais”.

Terceiro, porque Lean sustenta que a pesquisa redime o cientista hungaro radicado na Inglaterrra Arpad Pusztai. Em 1998 ele foi posto no ostracismo pela comunidade acadêmica britânica depois que os seus pares encontraram graves falhas em um estudo de sua autoria que concluiu que batatas transgênicas fizeram mal à saúde dos ratos usados como cobaia.

À época, Lord May, principal conselheiro científico do governo, hoje presidente da mais venerada instituição científica britânica, a Royal Society, acusou Pusztai de ter violado “todos os cânones da retidão científica”.

Lean sustenta que o húngaro foi vítima de um complô arquitetado pela indústria da biotecnologia, o establishment acadêmico do Reino Unido e o governo do primeiro-ministro Tony Blair (o qual então defendia ardorosamente os transgênicos; mais tarde subiu no muro).

No Brasil, depois que a Folha abriu em página inteira o título “Milho transgênico causa alteração em rato”, antecedido de “Estudo da Monsanto é mantido em segredo; companhia alega razões comerciais para não divulgar dados”, e depois que o Estado emendou com “Milho transgênico tem efeito nocivo em roedores”, caiu a ficha na Monsanto.

Ontem, a empresa soltou um release reafirmando a segurança para a saúde e o ambiente do milho MON 863, atestada pela Autoridade Européia de Segurança Alimentar — a CTNBio da União Européia.

Segundo o órgão, “é improvável que haja quaisquer reações adversas na saúde humana e animal e ao meio ambiente no contexto do seu uso proposto”. O parecer da EFSA foi mandado para avaliação final do Conselho de Ministros da UE na quinta-feira passada.

A nota da Monsato cita ainda a Agência Francesa de Segurança Alimentar, para a qual “o consumo humano de grãos e produtos derivados do milho MON 863 não representa qualquer risco nutricional”.

A empresa lembra que a variedade é cultivada desde 2003 nos Estados Unidos (o que não quer dizer grande coisa) e no Canadá, tendo autorização para ser importada e consumida no Japão, Coréia, Taiwan, Filipinas, Rússia e México.

Menos convincente é a sua alegação de que “o estudo não é confidencial e sempre esteve disponível a quem quisesse consultá-lo”. Pode ser. Mas quantos dos potenciais interessados sabiam de sua existência? Ao que parece, a Monsanto, pelo menos nesse caso, não alardeou o trabalho, nem as conclusões que considera positivas.

Hoje à tarde, por fim, a multinacional distribuiu por e-mail à imprensa brasileira as 11 páginas em pdf do resumo da pesquisa. Lendo-as se fica sabendo que a investigação, de 2002, durou 13 semanas, durante as quais foram acompanhados três grupos de roedores: os que só comiam o milho GM, e os dos dois grupos de controle, que comiam o milho tradicional.

O texto informa que todas as cobaias responderam “de forma similar” às diferentes dietas: “Os resultados dos exames de patologia clínica foram similares, com apenas umas poucas exceções. As poucas diferenças estatisticamente significantes eram geralmente de pequena magnitude.”

Mas dois cientistas ingleses, um especializado em biologia celular, outro em genética molecular, ouvidos pelo Independent, viram o resumo com outros olhos. O primeiro disse que o sumário é “causa evidente de preocupação”. O segundo se disse espantado “com o número de diferenças significantes encontradas” no experimento.

Em um jornal mobilizado contra os produtos GM, isso talvez deva ser lido com um grão de sal. A Veja, por exemplo, só costuma publicar as opiniões daqueles cujas palavras servirão para legitimar a posição da revista, definida de antemão.

Pesquisadores brasileiros procurados pelo Estado, diz o jornal, “preferiram não comentar o caso sem ver a íntegra do estudo”. Seria bom que vissem e comentassem, embora a Monsanto não pretenda pedir autorização para plantar ou importar o milho 863 no Brasil porque a praga contra a qual foi concebido dá pouco no território nacional.

É sempre útil conhecer o juízo dos nossos cientistas sobre os temores expressos pelos seus colegas entrevistados por um jornal engajado no combate aos transgênicos.

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