Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Mistério: quem são os ‘juristas’ que interpelam o presidente do Supremo?

Por Alceu Nader em 02/02/2006 | comentários

A charada dos jornais de hoje esconde-se detrás de dois fenômenos. Um é a indisposição dos jornais em aprofundar a investigação sobre a chamada ‘lista de Furnas’. O outro projeta o presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, que ontem voltou a impedir quebra de sigilos solicitado pelos senadores da CPI dos Bingos.

A imprensa não checou a veracidade do documento, mas traz dois integrantes da lista – o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o prefeito de São Paulo, José Serra – desqualificando o papel como cópia grosseira e irresponsável do chamado ‘Dossiê Cayman’, divulgado pela imprensa durante o governo Fernando Henrique Cardoso, no qual vários dirigentes do PSDB eram titulares de uma conta-corrente no paraíso fiscal do Caribe. O curioso da iniciativa de invalidar a lista com 156 nomes de políticos que recebiam em Furnas dinheiro deixado por empresas privadas – bancos, siderúrgicas, fundos de pensão, entre outras – é que vários sites da Internet publicam, junto com a lista, laudo, feito sobre cópia do papel timbrado de Furnas, assinado pelo perito Ricardo Molina, da Unicamp, de 28 de outubro do ano passado. Nele se lê: ‘é possível, dentro das ressalvas apontadas, que o documento questionado não apresenta indícios de manipulação fraudulenta’. A ‘ressalva’, no caso, é o fato de a lista estar numa cópia. Nenhum dos jornais de hoje identifica a existência desse laudo.

O outro fenômeno está na tentativa de azedar ainda mais as relações entre Jobim e o Congresso. Para desandar ainda mais o caldo, o presidente do Supremo voltou a impedir ontem quebra de sigilo solicitado pelos senadores da CPI dos Bingos, desta vez do empresário de Ribeirão Preto, Roberto Carlos Kurzweill, proprietário do automóvel que teria transportado os supostos US$ 3 milhões que o governo de Cuba mandou para a campanha do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. O Estado de S.Paulo é o que mais atiça as partes. Hoje, o jornal pendura em sua manchete principal que ‘Jobim critica ‘patrulha’ e é interpelado por juristas‘. Ao se procurar a reportagem da interpelação, porém, não se encontra qualquer nome. Nem dos ‘juristas’, nem dos ‘representantes da imprensa e da Igreja Católica’.

Se se confirmar a veracidade da lista – trabalho que depende exclusivamente da Polícia Federal – a discussão gerada pelos leitores no Contrapauta no comentário (quase desabafo) sobre a decisão de Jobim de proibir a quebra de sigilos bancário, fiscal e telefônico de Paulo Okamoto, ex-tesoureiro do PT, amigo do presidente da República e atual presidente do Sebrae, ganha ainda mais sentido e gravidade. O pessimismo salta dos comentários dos leitores: tanto a Justiça como a Imprensa – que dirá o Legislativo e o Executivo? –, não são íntegros para decidir ou informar o cidadão. Não há por onde escapar.

Não é bem assim. O leitor não deve desanimar, achando que a bandalheira é generalizada e que todos somos espertos e os outros trouxas. Há ainda gente digna de crédito entre os políticos. Quanto aos jornais, continua sendo indispensável a leitura de mais de um jornal ou revista para se aproximar da verdade.

O fastio demonstrado pelos leitores do blog certamente nasceu com as seguidas decepções dos últimos meses e cresceu com a dolorosa constatação de que as fraquezas morais são extensivas a todos os partidos políticos. Todos têm os pés na lama. A imprensa também tem sua quota de responsabilidade sobre essa desesperança. Primeiro, porque cobriu maciçamente a crise utilizando-se de uma profusão de dossiês e gravações clandestinas. Segundo, porque amplificou a crise e fechou o foco quase que exclusivamente sobre o PT e seus aliados, quando nomes da oposição também apareceram bebendo no valerioduto. Terceiro, como mostram os jornais de hoje no noticiário sobre a lista de Furnas entregue pelo ex-deputado Roberto Jefferson à Polícia Federal, continua vigente a falta de bom-senso na concessão de dois pesos e duas medidas – dependendo de onde a lama alcança.

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