Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Momento da verdade

Por Luiz Weis em 06/07/2009 | comentários

Vem de antes da internet – a rigor, começou com o aparecimento dos canais de notícias 24 horas por dia – a ideia de que a função primária dos jornais impressos se tornou explicar os fatos e não apenas apresentá-los.

Em lugar do clássico “o que, quando, onde e como”, a prioridade, aquilo que faria a diferença entre a imprensa escrita, de um lado, e o rádio e a TV, de outro, seria o “por que”.

Não que os diários de qualidade e as melhores revistas semanais já não estivessem atentos para fornecer o que se passaria a chamar, machucando os tímpanos, “informação contextualizada”.

Mas desde sempre – e muito mais desde o advento da blogosfera – paira uma confusão entre explicar e interpretar. Nada mais corriqueiro do que acusar a imprensa de “editorializar” a informação, a pretexto de lhe dar sentido.

Criou-se uma situação paradoxal. Ao mesmo tempo em que se passou a cobrar dos jornais, cada vez mais insistentemente, que lançassem luzes sobre os acontecimentos, revelando o que poderia estar por trás deles, assim como o seu parentesco com outros eventos, contemporâneos ou passados, manteve-se a exigência tradicional de que os periódicos deixassem que os fatos “falem por si” para os leitores “julgarem por eles mesmos”.

Os mais veementes cobradores do presumível caráter “objetivo” da informação jornalística eram, são – e continuarão a ser enquanto existir jornalismo – todos aqueles protagonistas do noticiário que dizem que a imprensa é injusta com eles ao pôr em perspectiva distorcida as suas ações.

Há um ponto válido, em princípio, nesse tipo de crítica. A multiplicação explosiva dos canais de informação tornou mais difícil para os interessados mentir pura e simplesmente na exposição dos fatos – a não ser que se acredite na teoria consipiratória segundo a qual a a grande imprensa inteira é capaz de se articular, por motivos ideológicos, para mentir em coro contra ou a favor de algo ou alguém, promovendo uma das tais “campanhas midiáticas”.

Assim sendo, a tendência seria o deslocamento do espaço para a falsificação deliberada da descrição dos acontecimentos, a mentira escrachada, para o ato de situá-los, a mentira dissimulada.

Mas isso pressupõe que o aprofundamento da notícia seja algo que se possa fazer arbitrariamente numa redação séria. Na verdade, quando um jornal ou revista procura seguir os padrões estabelecidos do ofício, a atividade de ir além da superfície das coisas requer uma apuração incomparavelmente mais trabalhosa do que o mero registro dos eventos ostensivos.

O tal do contexto não nasce da cabeça do redator mas do chão percorrido pelo repórter. Não é questão de opinião, mas de investigação. Exige, além de pesquisas frequentemente tediosas, que demandam tempo, paciência e conhecimento do assunto, a identificação de fontes que não apenas saibam do que estão falando, mas que falem coisas diferentes a respeito, para o leitor ter diante de si os diversos lados da questão.

Ora, direis, na prática a teoria é outra. Se e quando é, a causa costuma estar antes no mau trabalho do que na má intenção. A incompetência – para resumir numa palavra, quem sabe à falta de melhor, tudo que em geral contribui para o jornalismo deficiente – é muito menos mencionada pelos acusadores da mídia do que seria correto.

É simples para quem não conhece “como se fazem as salsichas” dizer que elas não prestam porque o fabricante quer envenenar os seus consumidores. Para continuar com a analogia, ingredientes mal escolhidos, desleixo no preparo, salsicheiros destreinados e assoberbados, escasso controle de qualidade do processo e do produto são de longe motivos mais comuns do que o interesse em enganar para a indústria soltar na praça mercadoria estragada.

E esses motivos contam tanto mais quanto mais especial o embutido. As chances de fazer um serviço de segunda variam na razão direta da complexidade da tarefa. É preciso que pauteiros, repórteres e editores sejam muito pernas-de-pau para errar quando se trata de transmitir ao público as realidades evidentes. Mas, quando se trata de garimpar os seus nexos subterrâneos, até mesmo os seus colegas mais preparados entregam bolas quadradas.

À medida que a imprensa de papel, correndo atrás do prejuízo, se põe a competir com a blogosfera valorizando a explicação dos acontecimentos – terreno que tem tudo para lhe ser favorável, tendo em vista, de um lado, a sua estrutura e, de outro, a propensão dos adversários para a chutometria –, ela enfrenta o seu momento da verdade (sem jogo de palavras).

O desafio do jornalismo tradicional, portanto, é se fazer indispensável não porque seja o primeiro com as últimas, o que é página virada na sua história, mas porque seja capaz de dizer, convincentemente, o que elas significam.

A captura da informação exclusiva – esse superpoderoso estimulante que corre na veia das redações – deve cada vez menos dar conta do recado. O destino da imprensa organizada depende da sua aptidão para persuadir as novas gerações de potenciais leitores de que, no dia a dia, ela é imbatível em destrinchar o funcionamento do mundo.

Se a indústria da notícia não se transformar em indústria da notícia explicada, a sua ausência, como se diz, preencherá uma lacuna.

O pior é quando jornais e revistas parecem achar que fizeram a sua parte concentrando-se no varejo e entregando o atacado – os seus porquês – a articulistas. Cobrem, por exemplo, os casos mais espetaculares da barbárie no trânsito das grandes cidades brasileiras, mas raramente investem em reportagens de fôlego sobre essa rotina alarmante.

O equivalente a isso, mas não o substituto disso, saiu no caderno Aliás do Estado de domingo, 5, sob a forma de uma perturbadora pensata do sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da USP.

Eis o artigo, uma pauta pronta, intitulado “Uma sociedade sob as rodas”:

Dados do Ministério da Saúde de 2003, divulgados num estudo da Fundação Seade, indicam que a taxa de mortalidade por atropelamento no Brasil era de 5,6 óbitos por 100 mil habitantes, quase três vezes mais do que nos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá. São países mais adaptados, regulamentados e punitivos no que se refere ao uso violento de veículos. A taxa média relativa à mortalidade masculina em atropelamentos no Brasil mais que dobrava: 9 por 100 mil. Em vários Estados a taxa subia para 12 por 100 mil. Quanto às mulheres, a taxa é de 5 óbitos por 100 mil habitantes.

A legislação mais realista e dura, de 1997, e o novo Código Nacional de Trânsito, de 1998, produziram um declínio significativo na mortalidade por atropelamento. Em São Paulo, essas ocorrências caíram pela metade, entre 1996 e 2005, de 12 mortes por 100 mil habitantes para 5,1 mortes por 100 mil. O estudo mostra também que a curva estatística das mortes por atropelamento cresce regularmente até os 40 anos de idade das vítimas, estabiliza nesse nível até os 55 anos e volta a crescer, verticalmente, daí em diante, para homens e mulheres.

Idosos são as grandes vítimas de atropelamentos, que constituem também a terceira causa da morte de crianças. No caso dos idosos, as hipóteses mais prováveis para maior exposição à morte por atropelamento são as notórias: diminuição da visão, da audição e da capacidade motora. Nessa perspectiva, corremos o sério risco de concluir que a culpa é da vítima.

A maior exposição de crianças e idosos ao risco de morte por atropelamento sugere, na verdade, que esta sociedade não está preparada para assegurar lugar e vida a multidões de desvalidos por idade. É velha e infeliz característica da sociedade brasileira considerar cidadãos unicamente os que estão em idade produtiva, o chamado vigor da idade. Os semáforos abrem para pedestres que podem atravessar a rua na velocidade conveniente para o carro. As faixas de pedestres não servem para protegê-los. O único verdadeiro cidadão deste país é o automóvel, cheio de direitos. Aqui, o carro desempenha praticamente a mesma função que o revólver desempenhou no oeste americano no século 19, quando cada um fazia valer a sua lei.

No trânsito, diariamente, testemunhamos a agressividade de motoristas que fazem suas próprias regras de trânsito e tornam-se violentos, simplesmente porque estão dentro de um carro. A lei pune os alcoolizados, mas não pune os que estão bêbados de poder na direção. Cometem abusos de toda ordem, não raro com inocentes vítimas fatais. Para não falar nos mutilados, que carregarão para o resto da vida as sequelas da irresponsabilidade alheia, das famílias órfãs, pais e filhos.

A facilidade com que se paga fiança após um morticínio para sair leve e lampeiro e aguardar julgamento em liberdade deveria ser reexaminada à luz da experiência positiva da legislação mais dura de 1997 e 1998, que reduziu pela metade as ocorrências fatais. Esse tipo de delinquente potencial não sente no coração os sofrimentos que causa, mas sente-o no bolso e nas grades. Logo, é no bolso e na privação imediata de liberdade que, nos casos de comprovado dolo, deveria incidir a política de redução do número de mortes por atropelamento. Enquanto se achar que morrer ou ficar mutilado num acidente de trânsito é uma fatalidade, ficaremos no marco da barbárie.

É evidente que há uma imprudência de pedestres que concorre para os acidentes. Andar pela rua e não pela calçada, à noite, com roupas escuras é pedir para ser atropelado. Uma campanha educativa nos reeducaria para o fato de que o mundo já não é dos pedestres e que eles também têm de estar informados sobre regras e perigos de trânsito. Aliás, não é preciso estar na rua para ser atropelado. Ainda nestes dias pessoas foram atropeladas na calçada e há os que são atropelados dentro de casa! É verdade que pedestres são obrigados a caminhar pelas ruas, especialmente velhos e crianças, porque as calçadas convertidas em rampas de acesso a garagens têm degraus que podem chegar a meio metro de altura, tornando-as inúteis.

Nos atropelamentos mais graves, sobretudo envolvendo ônibus e caminhões, é comum o argumento de que foi falha de freios. Falha de freios é falta de revisão e cuidado, responsabilidade do motorista, mas também do dono.

Atropelamentos ocorridos em diferentes lugares do Brasil durante o mês de junho podem ser vistos numa perspectiva que acrescenta indicações aos fatores dessas ocorrências letais. Em Pilar, na região metropolitana de Maceió, no dia de São Pedro, um ônibus arrastou cinco caminhões que transportavam festeiros na caçamba, atropelou e matou 6 cavalos, também de festeiros, atropelou um grande número de pedestres de um cortejo junino e deixou 5 mortos e 77 feridos. Na Rua da Feira, em Bangu (RJ), na véspera de São Pedro, um comerciante, conhecido no bairro por ser contumaz na bebida e dirigir em alta velocidade, com a carteira vencida, atropelou os participantes de outra festa junina, derrubou um muro e um poste e matou 5 pessoas. Tentou fugir sem prestar socorro. Foi agarrado e quase linchado pelas testemunhas. Pagou R$ 800 de fiança e foi para casa.

Esses dois casos, como muitos outros, demonstram que existe no Brasil uma guerra de culturas, com vítimas fatais. No uso civilizado da rua em ocasiões festivas da tradição, o verdadeiro cidadão recupera seus direitos sobre o espaço público. Mas motoristas irresponsáveis avançam sobre eles armados com seus veículos e sua cachaça para impor-lhes a nova ordem da máquina mortal. Somos um país anômalo. Chegamos à modernidade do veículo automotor sem termos chegado à civilidade da competência profissional para ter o direito de usá-lo.

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