Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Montón de perros olvidados

Por Luiz Weis em 13/12/2008 | comentários

A Folha parece surpresa com o fato de a esmagadora maioria dos brasileiros – 82% – não fazer a mais remota idéia do que foi o AI-5, editado 40 anos atrás neste 13 de dezembro.


 


É pior do que isso: segundo pesquisa do Datafolha, mesmo na minoria dos que já ouviram falar no Ato, só um em cada 10 entrevistados acertou o ano em foi baixado.


 


A taxa de ignorância, naturalmente, varia na razão inversa da idade e do grau de instrução/renda.


 


Se isso serve de consolo, o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, ouvido pelo jornal, lembra que a maioria dos jovens alemães não sabe quem foi Hitler.


 


Sim, os povos que não conhecem a sua história estão fadados a repetí-la etc e tal, mas a amarga realidade é que as pessoas podem perfeitamente bem levar as suas vidas indiferentes ao passado – esse montón de perros olvidados de que falava o poeta espanhol Federico García Lorca.


 


Se as chamadas “agências de socialização” de uma sociedade – a escola, a família e a imprensa – não tomam para si a tarefa de trazer a valor presente a história do país – esperar o quê?


 


Por imprensa, no caso, entenda-se a mídia de massa por excelência, a TV. E no que depender dela, já se sabe.


 


Um experimento imaginário: perguntem hoje a quantos brasileiros se queiram sobre o que gostariam de estar mais bem informados – o AI-5 ou a morte do ex-marido da atriz Suzana Vieira. Alguém tem dúvida do resultado?


 


Além da ditadura do entretenimento, também conhecida como indústria cultural, que bane a política do cotidiano, outro fator de peso é que, no passado, pelo menos para as elites, o passado contava mais, porque a linha de continuidade entre a véspera e o dia seguinte era incomparavelmente mais firme. Com a aceleração vertiginosa e a fragmentação do tempo da história, e do ciclo da notícia, o prazo de validade do que se considera “atual” tende a ser cada vez menor.


 


Isso acentua a distribuição desigual da informação nas sociedades: no torvelinho, a chance de as parcelas mais bem informadas aumentarem ainda o seu patrimônio informativo é muitíssimo maior do que a chance dos desinformados encurtarem a sua distância em relação aos primeiros. Não por falta de oferta, mas por falta de incentivos à busca de conhecimentos que não digam respeito às bases materiais da existência de cada qual.


 


Para ficar no exemplo do dia: leitores costumeiros de jornais não só tendem a saber mais do que os não-leitores o que foi e significou o AI-5, como ainda, pelo aniversário, receberam alentados suprimentos adicionais de informações e análises sobre o assunto, até com notícias novas.


 


É assim que se alarga o hiato do conhecimento na sociedade. A desigualdade não é compensada necessariamente pelo fato de estar “tudo lá”, na web. A curiosidade dos internautas é seletiva – o que é apenas humano. E, salvo prova em contrário, não é de imaginar que tenha havido nestes dias uma corrida a sites e blogues atrás de informações sobre a ditadura militar brasileira.


 


As coisas são como são.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/12/2008 Tania Lenina Mendes

    As postagens do ‘ poeta’ do Gama e do advogado de Maceió são a demonstração mais cabal do que o brilhante artigo do Weiss coloca:
    haja alienação, desinformação, deseducação, falta de leitura, ausência total de perspectiva histórica, Um , o de Maceió é Junior, outro, do Gama, diz que nem era nascido em 68. Sinto pena dessa gente criada ao deusdará. E acho que a humanidade não está dando mesmo certo. Weiss, aquele abraço, adoro seus artigos e leio todos.

  2. Comentou em 15/12/2008 Paula T. Reis

    Só para completar, lembro a todos aqui do Romeu Tuma – que anda por aí, recebendo milhões de votos de brasileiros. Será que alguém se lembra da ‘colaboração’ dele nos anos da ditadura militar? Para refrescar a memória: ‘ele foi acusado de estar envolvido na morte do jornalista Vladimir Herzog e ter participado da caça às bruxas no Departamento de Jornalismo da TV Cultura do qual Herzog fazia parte.’ No site dele peguei esta informação: ‘Nas eleições de outubro de 2002, recebeu 7.278.185 votos e novo mandato com vigência até 2011.’ Eu pergunto: quem vota nele? E se acaso a história se repetir?

  3. Comentou em 15/12/2008 Raphael Bezerra

    Agora quero ver se esse ‘Observatório’ aqui observa alguma coisa mesmo. E quero ver quais vão ser os artigos a respeito da escolha dos reporteres que vão participar do Roda Vida, do dia 15/12, com o Min. Gilmar Mendes.
    A escolha foi ridicula e totalmente parcial.

  4. Comentou em 14/12/2008 Carlos N Mendes

    ‘Se isso serve de consolo, o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, ouvido pelo jornal, lembra que a maioria dos jovens alemães não sabe quem foi Hitler.’ Não serve de consolo, não. Muito pelo contrário.

  5. Comentou em 14/12/2008 Montezuma Cruz

    Não há dúvida: um pouco da história pátria é superior à banalidade – aqui exemplificada com a a morte do marido da Suzana. Acredito que a edição do AI-5 e suas implicações na ‘legalização’ do regime militar deve, sim, ser tema de um cidadão brasileiro capaz, consciente e vivo. Nesse universo de futricas de fundo de quintal, para o qual contribuem alguns programas televisivos ou jornais sem memória, há bons remédios a ingerir. Arrisquemos. Porque o desinteresse pela história, tristemente, pode nos tirar uma grande oportunidade de evoluir neste Planeta. A vida é breve.

  6. Comentou em 14/12/2008 Marcia C

    A quem interessa um povo bem informado? Não ao Estado, cujos governos precisam das massas alienadas para que seus impostos continuem, ano a ano, desembocando sabe-se lá aonde. Aliás, não sabemos para que lugar o dinheiro vai, mas sabemos para onde ele não vai, vide a saúde e a [má] qualidade do ensino público fundamental. À Mídia tb não interessa que o brasileiro reconheça sua memória. A ela interessa o ‘agora’ e os trocados que o alienado tem para consumi-lo. Espectadores com poder de crítica não comprarão as porcarias que o mercado oferece. Massa crítica – que, para se formar, tem sim de olhar pra trás para que os fatos danosos não se repitam e a vitime – pensa antes de assistir [e enriquecer] qualquer bobo da corte: o bobo da corte que tá lá no topo da pirâmide, ampliando a má distribuição de renda que tanto os interessa, enquanto nós… ‘sifu’, não é assim que se diz???

  7. Comentou em 14/12/2008 Felipe Faria

    E alguem lembra a popularidade do governo após o AI 5?

  8. Comentou em 14/12/2008 Sergio Schalcher

    E os AI-5s atuais?
    1)Roda Viva,contrariando sua história, elenca entrevistadores amestrados para gilmar dantas

    2)Respondendo a uma ‘invasão’ de e-mails questionando a pouca pluralidade dos entrevistadores de gilmar dantas no próximo roda-viva, o ombudsman da tv cultura coloca-se, por ser jornalista, como um guardião da liberdade de informação frente ao poder maléfico da internet

  9. Comentou em 14/12/2008 alfredp sampaio

    Gostei do titulo. Qual seria a tradução? Um punhado de cachorros esquecidos? Quem seriam os cachorros na opinião do Sr. Weiz? Quem não se lembro do AI 05? Ou …. Eu não era nem nascido. Por que haveria de lembrar ou ter curiosidade? Não há nada mais ugly quando ao final da leitura de qualquer artigo, o próprio autor o trmina, como o sr. weiz terminou: as coisas são como são. A vida é um sopro segundo o grande Oscar Niemayer. Ponto Final. Se o Sr. Weiz está com raiva até hoje, inclusive com aqueles que não se lembram do AI05, passados 40 anos, fazer o quê. Se eu fosse mau educado como ele iria escrever….e nós com isso.
    AS

  10. Comentou em 14/12/2008 Roberto Só Tavartes Só Tavartes

    50% dos entrevistados não estavam vivos em 1968.
    30% apoiaram o golpe e o AI-5 e hoje não querem lembrar o que apoiaram no passado.
    20% são os desavisados de sempre, não sabem nem que o São Paulo é campeão Brasileiro

  11. Comentou em 14/12/2008 j batista

    DitaduraxLibertinagens- Reza o inciso IV do artigo 3º da Constituição Federal que:Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:IV — promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.Hoje, tenho eu a impressão de que o cidadão comum e branco é agressivamente discriminado pelas autoridades e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que sejam índios, afro-descendentes, homossexuais ou se auto-declarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos. Saímos de uma ditadura para um sistema de libertinagens. A diretriz primeira de que todos são iguais perante a lei, é ignorada, assim como os valores morais,éticos e do patriotismo da maioria,a Constituição sendo manipulada de acordo com interesses e privilégios de “alguns”, sendo uma afronta a Nação Brasileira. Leis sendo escudo para distribuição de privilégios e impunidades,favorecendo aqueles que possuem poder econômico para pagar bons advogados, tudo levando ao câncer social e ao enfraquecimento da Nação, uma das causas do aumento da violência. A Nação sofre com uma educação deficiente, sendo incapaz de competir com a mídia corrupta, bem como nossos cidadãos frustrados por aqueles a quem depositou seus votos de confiança, gerando nos cidadãos: impotência,medo, indiferença e revolta a tudo que

  12. Comentou em 14/12/2008 dante caleffi

    O historiador/cientista político,o que quer que isso signifique, citado,é regularmente convidado pelas ‘Organizações Globo’,para retocar a história e opinar sobre o presente,nos moldes do agrado da plateia conservadora e neoliberal. Contribui com a amnésia política,que constata,claro,sem espanto, e que se confirma nas participações de leitores em jornais,blogs e outros meios de manifestação democrática.
    ‘O Globo’,numa sequência de reportagens,procurou dar sua versão, e deturpar a participação de instituições tradicionalmente democráticas.Contudo ,não ousou a mencionar a UNE,combativa e combatida,principal alvo da violência do regime,fonte histórica de formação de líderes políticos.Passa ao largo,como beneficiária ,do regime, que lhe aquinhoou com o império que possui.

  13. Comentou em 14/12/2008 Lucia Abreu

    Pois é… a midia de massa, a TV, pretende isso mesmo: que se olvide ‘los perros’, até porque estão incluídos entre eles.
    Muito mais conveniente não olhar para o passado comprometedor e fingir que tudo começou agora e que seria de fácil resolução dentro de parâmetros democráticos corrigir o que foi gestado durante regimes autoritários, para perdurar mesmo após sua queda.
    O diferencial da democracia é poder discutir, denunciar os abusos, ainda que nem sempre corrigidos.
    Após tantas denúncias de abusos na democracia referencial dos EUA, eles reincidem frequentemente.
    Em ditaduras como a cubana e a brasileira, sequer há condições de crítica.
    A indústria do entretenimento não é apenas uma forma ‘democrática’ de dirigir o pensamento para os interesses de uns poucos, que se arvoram de defensores do interesse do Brasil? Não é, em si, um forma de ditadura sutil?
    Mas não podemos desprezar a cultura popular. Podem não ter o conhecimento formal que têm as minorias privilegiadas nas quais me incluo, mas têm o conhecimento empírico.
    O grande perigo dessa falta de conhecimento formal é a direção do descontentamento. Pode resultar em uma ditadura latino-americana, que manteve e incrementou o poder de poucos, ou em uma ditadura à cubana que derrubou um crápula, beneficiou a maioria, mas se corrompeu no gosto de Fidel pelo poder.
    Para a matriz o q convém? A única q tivemos.

  14. Comentou em 14/12/2008 newton sampaio almeida junior

    Que tal falarmos da democrata CUBA que é um assunto mais atual. Que tal falarmos do aparelhamento do Estado pelo PT. Que tal falarmos do financiamento de campanha feito pela PETROBRAS através de ONGS. Que tal falarmos das indenizações milionários para os anistiadose SEM PAGAR IMPOSTO. Isso sim é importante para o BRASIL o resto é dirigir olhando para o retrovisor.

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