Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Mudanças no jornalismo aumentam responsabilidades dos leitores

Por Carlos Castilho em 29/01/2011 | comentários

Um dos principais legados das grandes indústrias da comunicação é o mito de que o jornalista é um personagem indispensável à democracia. Entre outras coisas, este mito justifica o corolário de que sem as empresas jornalísticas também não existe democracia. E aí que está a justificação do poder assumido pelos donos de impérios da comunicação.


A mudança de paradigmas na informação, provocada pela internet e pela informática, mostrou que os jornalistas não são hoje nem mais e nem menos relevantes para a democracia do que os cidadãos comuns. A notícia deixou de ser monopólio dos profissionais e das empresas jornalísticas. Ela chega hoje às pessoas por circuitos que não passam pelas indústrias da comunicação.


Mas isso não quer dizer que o jornalista se tornou descartável e desnecessário. A profissão está tendo que se adaptar ao novo contexto das ferramentas digitais na comunicação.  O jornalista não é mais o certificador de credibilidades, mas o profissional que pode mostrar aos consumidores de informação como chegar à confiar em notícias.


O profissional deixou de ser um oráculo e o interlocutor privilegiado de governantes e empresários para se tornar um tutor de leitores. A função antiga tinha mais glamour e prestígio nos corredores do poder político, mas a nova tem muito mais relevância social, sem falar que está mais próxima da realidade concreta do dia a dia das pessoas.


Não é mais possível ter uma medida única para avaliar a confiabilidade de todas as notícias. O jogo de interesses complicou extraordinariamente a tarefa de separar o joio do trigo no noticiário. O jornalista pode e deve dar aos leitores de um jornal, por exemplo, os elementos para avaliar credibilidades no contexto concreto de cada evento, dado ou indivíduo. 


Também não se pode mais jogar nas costas do jornalista toda a responsabilidade pelo patrulhamento das autoridades e do governo. Hoje o conjunto dos cidadãos numa comunidade tem um poder de produzir e circular informações muito maior do que o dos repórteres e editores. A revolução tecnológica democratizou a informação e isso faz com que os leitores de jornais também tenham responsabilidades informativas.


Uma das funções novas de repórteres e editores, mas que não é tão nova assim, é a da investigação jornalística. Na indústria da notícia, a produção de material voltado para atrair pupilas e vender anúncios atropelou a investigação ao privilegiar a produção em série de informações. Mas agora, na era da avalancha informativa, investigar tornou-se tão essencial quanto saber se algo é confiável ou não.


Os jornalistas são profissionais da informação e para fazerem jus a esta qualificação precisam desenvolver ao máximo a habilidade de identificar causas, consequências, beneficiados e prejudicados em eventos onde existe uma grande convergência de interesses nebulosos.


Ninguém pode substituir o jornalista nessa função, nem mesmo os promotores públicos e os investigadores policiais. Estes se orientam pelas leis enquanto o jornalista tem o interesse público como parâmetro.  Na teoria não haveria conflito entre um e outro, mas na realidade a coisa é um pouco diferente.


Os jornalistas foram colocados diante de uma série de dilemas no contexto criado pelas novas tecnologias. Mas isso aconteceu também com o público e é por isso que há muita gente pedindo a volta dos “bons tempos”, quando a maioria dos leitores achava que a verdade estava nas páginas de um jornal ou no telenoticiário. A realidade se encarregou de desfazer essa ilusão, mas as pessoas resistem a encarar os fatos. É mais cômodo queixar-se dos jornalistas do que enfrentar a necessidade de fazer avaliações e opções.


Há todo um discurso que está sendo reformulado quando se trata do exercício do jornalismo. É um processo mais lento, porque a prática já mudou, mas os valores ainda continuam os mesmos dos tempos em que a única forma de obter informação era pela leitura de um jornal.


É fundamental que os jornalistas contemporâneos entendam este processo para que possam encontrar novos nichos de atividade profissional e consigam buscar a sua sustentabilidade financeira numa profissão que foi a mais afetada, em suas rotinas e valores, pela internet.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/02/2011 alvaro marins

    ‘Tutor de leitores’? Eu, heim!?

  2. Comentou em 01/02/2011 Eduardo Martinez

    Resumindo: jornalismo ao cidadão e cidadania ao jornalista.

  3. Comentou em 01/02/2011 jaime collier coeli

    Sempre que presencio o debate sobre formação (por conseguinte, os formadores) da opinião publica recordo que, se digo que a verdade não existe como garantir que é verdade? Não direi, portanto, que a verdade não existe, mas lembrarei que a verdade que circula numa época, numa região, em uma lingua, está fortemente atada aos usos e costumes. Não é bem que ela não exista ou seja ‘relativa’. Ao contrário, comumente é absoluta, como se pode observar nos acontecimentos do dia no Egito. Não é diferente no jornalismo que – da mesma maneira que as diversas policias, os politicos, os empresarios, as garotas de programas e o vendedor ambulante – estão inseridos num sistema de procedimentos qe lhes dá absoluta certeza de que estão do lado do ‘bem’. Vale mais o capital humano do que qualquer outro capital. Se inTernet e o que mais valha vai modificar usos e costumes, ótimo. Mas a cultura (e não apenas no sentido antropologico) é que vai estabelecer a qualidade, não só do jornalismo.

  4. Comentou em 01/02/2011 Emerson Mathias

    E que tipo de democracia se espera de uma sociedade tutelada? Jornalistas tutelando leitores cada vez menos autonomos e despolitizados, medicos tutelando pacientes com cronicamente doentes, advogados tutelando clientes em interminaveis litigios, empresas tutelando clientes com serviços insatisfatorios, governos tutelando empresas prestadoras de serviços através de agencias reguladoras que privatizam a essencia da ‘res publica’. Deve-se questionar essa linha de raciocinio que visa explorar ‘nichos de mercado’ quando se trata de bens publicos (e o jornalismo lida com bens de natureza publica). Essa privatização do discurso publico é endemica e o jornalismo acusa o golpe que sofreu após anos de ‘choques de gestão’ nas redações e editorias. É cada vez mais raro um grande jornalista emitir sua opinião em causas publicas, como faz o Alberto Dines. Como fazia magistralmente o Paulo Francis. Os jornalistas contemporaneos precisam parar de contemporizar com essa mediocridade e resgatar a essencia da vida publica e politica que outrora deu ensejo ao jornalismo como um dos pilares da vida democratica. Parece-me que esse ‘processo’ que está descrito no artigo acima não existe de fato, mas refere-se a um discurso que visa normatizar a pratica jornalistica. Mas jornalismo normativo é ainda jornalismo? Ou seria mero recorte panfletario da realidade? Então, que não se chame mais jornalismo…

  5. Comentou em 01/02/2011 Ismael M. Santos

    Caro castilhos, a questão é muito mais séria do que o exposto. As pessoas estao cada vez mais desinteressadas de noticias, o proprio show da noticia e toda tecnologia empregada para veiculá-la tornou cansativo. O maior portal de acesso à noticias no Brasil é o JN e o publico feminino ao assistí-lo está interessado no corte de cabelo da apresentadora ou na roupa que está usando naquele dia! Tentar dar ao jornalista a credibilidade pelo jornalismo-investigativo é de total inutilidade, porque a partir de uma matéria investigativa deveria vir o esclarecimento do que há errado e em seguida a punição dos envolvidos. No entanto o público sabe que essa ´ação da justiça´ não acontece. De que vale uma matéria investigativa sobre os 59 deputados com processos na câmara que tomam posse nesta semana se todos sabem que nunca serão punidos ? Qual a utilidade do jornalista em mostrar causas, consequencias, beneficiados, prejudicados se tudo fica por isso mesmo? e a noticia veículada é linda, a roupa dos apresentadores é quase destaque de moda !

  6. Comentou em 31/01/2011 Valmir Gôngora

    Interessante a conclusão de que ‘o profissional deixou de ser um oráculo e o interlocutor privilegiado de governantes e empresários para se tornar um tutor de leitores’. É isso mesmo. Sempre de governos e empresários, jamais de não empresários e não governantes.
    Bom que, com novos meios, a verdade deixou ser aquela contada pelos grandes grupos. Creio que leitores de diversas fontes podem dispensar candidatos a tutores.

  7. Comentou em 31/01/2011 Ney José Pereira

    Observação: E o sinecurista e abstrato conselheiro acácio, porém alcândor, pois folháctico Clóvis Rossi se vangloriou do tal William Rhodes (citibank) ter lhe pedido uma cópia de um seu ‘artigo’!. Que promiscuidade!. Alô, dona ombudswoman Singer!. E olha que o tal Clóvis Rossi é antiamericano (ele é europeizado) e também é contrário ao… capitalismo!. Contrário ao capitalismo dos outros. Mas, muito favorável aos Frias capitalistas!.

  8. Comentou em 31/01/2011 Ney José Pereira

    Prova da obsolescência dos tais ‘jornalistas’: O conselheiro acácio da Folha de Notícias Populares de S. Paulo viaja a Davos (Suíça) no papel de babá de sua patroazinha Maria Cristina Caçulinha Frias de Oliveira para bajular o papai dela (Octavio Frias de Oliveira) com aquelas laudações de sempre… ‘o velho sábio que habitou aquela Folha e blá-blá-blá…’. E para dizer que ‘almoçou’ com um tal Rhodes do tal Citi (banco, (obviamente). E para citar (novamente) um tal Moisés Naím. O seu Octavio para economizar se vangloriava ao dizer que na sua ‘empresa’ não havia 4 (funcionários) onde deveria haver 2 (funcionários). Mas, em se tratando do bajulador-mor (sem acento, né) do póstumo patrão e da filhinha caçulinha do póstumo papai foram enviados pela Folha de Notícias Populares de S. Paulo a Davos na Suiça 2 (dois) repórteres (especiais) em vez de 1 (um) ‘repórter especial’. A caçulinha fez o papel de colunistinha social da economia global (pessoal, né -das ‘celebridades’- e o acácio conselheiro reproduziu tudo o que escrevera no então último (ano passado) ‘Fórum Econômico Global’. E os jornalistinhas da Folha de Notícias Populares de S. Paulo estão ‘escrevendo’ que o Egito é o principal aliado dos Estados Unidos da América no Oriente Médio!. Ora, o principal aliado dos states no Oriente Médio é Israel. Aliás, o Egito nem é situado no Oriente Médio. O Egito é um país a.fri.ca.no!!!.

  9. Comentou em 30/01/2011 Marcelo Silvestre

    O texto do autor nos faz refletir sobre os problemas do analfabetismo
    funcional e do analfabetismo digital. Apenas através da educação o
    cidadão pode ser realmente livre, não dependente de notícias
    mastigadinhas – e manipuladas. Por enquanto a maior parte da
    população for ignorante a indústria da informação continuará a ter
    muito poder. Só um país com educação pública de qualidade pode ser
    considerado uma democracia plena.

  10. Comentou em 30/01/2011 helio araujo

    Me engana que eu gosto.

  11. Comentou em 30/01/2011 Wagner @futuroRP Oliveira

    Excelente artigo que nos faz refletir acerca da máxima de que o Jornalismo é o 4º Poder. A internet e a mídia social revolucionou a sociedade, e, por conta disso, o Jornalismo também teve sua função afetada. Cabe a nós, divulgadores das informações, saber como nos colocarmos diante disso, discutindo ainda mais a questão da objetividade da notícia.

  12. Comentou em 30/01/2011 Eraldo Nazário

    A notícia tem seu preço pra quem divulga e pra quem lê…
    Quando a informação é pautada na ética e na verdade todos ganham….

  13. Comentou em 30/01/2011 Elcio Machado

    Poizé. Vindo de um ex-editor de telejornais e ex-chefe de escritório (Londres) da TV Globo, o dito não é pouco. Mas fica parecendo um pouco de dito pelo benedito. Não se trata de apenas atribuir ao leitor mais responsabilidade, tirando o jornalista da reta, colocando este numa posição meramente reativa. O fenômeno internet atribui também ao jornalista mais responsabilidade, acrescida às outras anteriores, tanto quanto ao leitor. O nó da questão continua sendo a liberdade de informação e expressão, aquela que o subserviente jornalista global — e folhal e estadãozal e tantos outros — não tem. Não que a redação precise ser casa-de-mãe-joana, mas deve ser, e esta sempre foi responsabilidade esquecida pelas empresas que pagam os salários dos jornalistas, um local de veiculação de informações, todas, e as mais completas, antes de tudo.

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