Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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Muito além do jornalismo colar-copiar

Por Luiz Weis em 26/07/2006 | comentários

Na cobertura da “maior investigação da história do Congresso”, como o Globo classifica o desvendamento do escândalo dos sanguessugas, a Folha está vários corpos de luz à frente da concorrência.

A leitura da sua edição de hoje cobre de razão os críticos de mídia que acham pouco, muito pouco, o tipo de jornalismo que antigamente se chamava taquigráfico e hoje talvez mereça ser chamado jornalismo copiar-colar.

No caso dos sanguessugas, isso tem significado obter de policiais, procuradores e políticos os nomes, cifras e fatos e vazados pelo capo Vedoin, o traficante de ambulâncias superfaturadas, em seus 10 dias de torrenciais depoimentos à Justiça Federal, no esquema da delação premiada.

Isso é o mínimo dos mínimos. Até porque nenhuma dessas fontes se recusa a colaborar com o reportariado, desde que não sejam identificadas – afinal, o processo já aberto no Supremo Tribunal contra pelo menos 57 vampiros corre em sigilo de Justiça.

Agora, nenhum jornal, exceto a Folha, foi atrás, por exemplo, de uma história que estava quicando na pequena área – a do alegado envolvimento na maracutaia do então deputado paulista Émerson Kapaz, um dos porta-bandeiras da lisura nos negócios e na política. Atualmente, ele preside o Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial.

Quando o seu nome emergiu semana passada, a mídia se limitou a registrar burocraticamente o seu enérgico desmentido – e deixou pra lá. Garimpando, porém, a repórter Catia Seabra chegou à ex-mulher do empresário e dela extraiu a confissão de que a Planam, a empresa de Vedoin, depositou, sim, dinheiro na conta dela.

Mais importante do que isso, a Folha já conseguiu apurar as acusações contra 75 dos 90 parlamentares e ex-parlamentares que constam das listas incriminadoras.

E mais importante ainda, as repórteres Luciana Constantino e Marta Salomon revelam que em novembro de 2004 a Controladoria Geral da União alertou por escrito o então ministro da Saúde Humberto Costa das fraudes na compra de ambulâncias para municípios, a partir de emendas parlamentares ao Orçamento da União.

Um mês e tanto depois, o ministro criou um grupo de trabalho para checar a advertência. O grupo de trabalho só começou a funcionar em março de 2005. E só em maio passado, quando a Polícia Federal desencadeou a Operação Sanguessuga, a Saúde suspendeu os repasses dos respectivos recursos às prefeituras.

Digo que isso é importante não porque o Ministério era do PT – podem portanto os patrulheiros de sempre ficar sossegados. Mas porque a história mostra como funciona o poder público no Brasil, qualquer que seja o partido no seu controle.

Ou, nas palavras de um jornalista que sabia usá-las, como se move o sossegado corpanzil da burocracia.

Ponto também para a Folha pelo editorial “Infestação”, que cobra da CPI “maior publicidade às acusações e qualificá-las de modo mais preciso”, para o eleitor interessado saber quem, dos que lhe disputam o voto em outubro, fez exatamente o que nessa sórdida operação criminosa.

Se a Folha pode ir além das listas e procedimentos vazados, o que os seus competidores igualmente taludos estão esperando para fazer a sua parte?

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Todos os comentários

  1. Comentou em 28/07/2006 Alexandre Tristão Tristão

    Por Alexandre Tristão
    Estudante de Jornalismo

    PORTAS FECHADAS E MUITA HIPOCRISIA

    Muitos seguimentos da imprensa, hoje em dia, ficam subordinados a políticos e a partidos com intuito de se manterem ativos superando suas dificuldades financeiras. Isto vergonhosamente gera uma dependência nociva ao jornalismo sério devido a grande dependência que esta postura causa.
    Na mídia, rádio, isto ainda é bem pior, pois, para se conseguir obter uma concessão sem que se dependa de influência política, é quase que impossível. Alguns parlamentares manipulam estes acessos justamente para terem maior poder de barganha; poder este, que facilita a manipulação de notícias às populações, filtrando muitas vezes o que eles querem que sejam veiculados pela comunicação de massa; ou seja, muitas vezes só chega aos nossos ouvidos ou olhos o que alguns políticos querem que chegue.
    Não devemos ignorar também a existência de jornalistas que têm a má vontade de apurar informações; Isto também é lamentável

  2. Comentou em 27/07/2006 JADYR VIANA

    Sr. Weis, Por que esse escrúpulo? Um escândalo a mais ou a menos que envolva membros do PT deixou, há muito, de ser novidade. Já nem choca. A tal patrulha petista que o senhor quer evitar faz apenas um trabalho profissional ao desqualificar acusações contra o governo. No fundo, eles não ficam tão indignados quanto pretendem parecer. O que ele querem, todos sabemos, são votos. Já está em curso o contra-ataque cujos argumentos são os de sempre – a corrupção não começou com o PT. Ajudai-nos Senhor!

  3. Comentou em 26/07/2006 Antonio Castro Ribeiro

    Toda essa onda de investigação da policia federal tem se dado no governo Lula, algumas pessoas ainda acham que é o Lula o ladrão, é absurdo. O problema sempre existiu e ninguém teve a coragem de cortar a própria carne, nem um dos escândalos do governo FHC foi investigado pela PF os de SãoPaulo muito menos. Imaginem que mais de 200 bilhões foram surrupiado dos cofres do estado de São Paulo, veja como: O estado devia há 9 anos atrás 39 Bi. vendeu as estatais (Congás, Eletropaulo, Telesp, Banespa e outros) por 29Bi, pagou 4 Bi ao ano como juros da dívida com o governo federal e a dívida do estado hoje é de 170Bi, mais do dobro do PIB do estado e ninguém fala disso. Não falam da calha do Tiête em mais de 100% de superfaturamento, Rodo-anel 75% superfaturado. Veja o que são as coisa, essa semana foi divulgado no site Consultor Jurídico o pedido de desculpas do irmão do Celso Daniel a José Dirceu, ele afirma que José Dirceu não tinha, de fato, culpa no assassinato do seu irmão. A imprensa vai noticiar isto ou vai cruzar os braços diante do crime que cometeu? Quem a julgará?

  4. Comentou em 26/07/2006 Ivan Moraes

    Nao sei o que ‘profissao arretada’ significa mas o que Maria Isabel disse foi que ela prefere **ouvir os politicos envolvidos** porque ‘Por mais herético que seja, prefiro a palavra deles. Hoje, para mim, palavra de politico vale mais do que a de jornalistas da grande imprensa marrom.’ Quem apontou aa ‘heresia’ com holofote e raio laser, portanto, foi ela.

  5. Comentou em 26/07/2006 Marlene Guimarães

    Hei, gente, pera lá! Estou meio confusa, sem entender uma coisa: Não foi o PPS, o PFL e o PSDB que se reuniram e decidiram que a estratégia eleitoral devia ser uma só: o tempo todo, sem parar nunca, falar só sobre corrupção, corrupção, corrupção? Não foi o César Maia (PFL-RJ) que chegou a dizer que, não sendo assim, a eleição estaria perdida, pois não daria de jeito nenhum para ganhá-la comparando-se o desempenho econômico do governo Lula com o do PSDB(FHC) e do seu candidato atual: Alckmin?
    Então se a pauta para o PSDB/PFL/PPS é unicamente essa, quais outras pautas prioritárias poderiam ter os grandes meios de comunicação?
    Então, que é que vocês acham das medidas que modificaram o câmbio hoje? Já leram o livro do Mercadante (Brasil – primeiro tempo – análise comparativa do governo Lula?) que compara os dois governos? Qual a avaliação de vocês?
    Então, se ninguém quiser falar sobre essas coisas, então tá então!

  6. Comentou em 26/07/2006 José de Souza Castro

    Caramba! Essa informação do policial militar Simões é realmente interessante. Não me lembro de ter lido nada a respeito na imprensa. Aliás, até onde sei, falta um bom perfil do pai da mocinha assassinado, nos jornais. Ninguém tem esse triste fim determinado por uma filha adolescente à toa. Disse à toa, não a-toa, pois não conheço do caráter da mocinha e nem do modus vivendi dela. Luiz Weis tem razão: nunca vi tanta coisa quicando por aí e passando despercebida dos pauteiros. Acorda, gente!

  7. Comentou em 26/07/2006 Glauco Silva

    Hoje começaram a dar luz da origem do esquema dos sanguessugas,como todos desconfiavam, começou no governo passado,além do Vedoim que disse ironicamente que torceu pro Serra vencer as eleições presidenciais de 2002 porque na gestão dele a frente do ministerio da saúde nunca atrasava o pagamento das ambulancias.A CGU demonstrou por meio de numeros frios que o esquema começou desde 1998 e que em 2002 ela arrecadou a maior parte dos seus recursos.Outro dado apresentado foi o dos numeros das prefeituras envolvidas por partidos,segundo o ministro foram: 128 do PSDB, 107 do PFL, 106 do PMDB e 19 do PT.Agora podemos começar a saber à verdade.Só falta os resposaveis serem punidos exemplarmente.Um abraço a todos.

  8. Comentou em 26/07/2006 Marcos Simões

    Boa pergunta feita pelo Adriano. Vou mais além. Por que tanto silêncio sobre o caso Banestado? Estima-se que 250 bilhões de dólares voaram nos aviões Franco CC5 ao paraísos fiscais, via EUA. O caso permenece inconcluso dormitando no MPF e a lista de ‘beneficiados’ continua escondida sob o falacioso segredo de justiça. E sobre o superfaturamento de obras de Manfred Richthofen? Segundo o ex-apresentador Boris Casoy do então Jornal da Record, a vítima Manfred (assassindado junto com a esposa pela filha Suzane e dois comparsas), como funcionário do DERSA, teria desviado R$ 4 milhões das obras do Rodoanel. O ex-tutor e advogado(?) de Suzane, Barni (aquele que não saía de perto da, agora, condenada. Teria medo que ela falasse o que não deveria?) seria o chefe de Manfred na respectiva empresa. A imprensa não conseguiu apurar nada mesmo com a deixa do telejornal? Essa imprensa está muito alheia ou existe alguma outra razão impedindo que esses roubos contra a sociedade sejam veiculados e esclarecidos à população? O que temem os grandes veículos de informação? A quem interessa o absluto silêncio? O povo brasileiro não merece!

  9. Comentou em 26/07/2006 Maria José Pila d´Aloia

    Ontem escrevi que os contratos tinham começado em 2002. Estava errada foi bem antes, até agora pela informação acima, nos idos de 2000, esperamos que verifiquem tudo, só assim nós leitores atentos ficaremos sabendo até onde vai a gana desses políticos pelo suado dinheiro de nossos impostos. A imprensa tem que começar já uma campanha para acabar com a impunidade, porque muitos nem se candidatariam.

  10. Comentou em 26/07/2006 Cesar Pereira

    Há muito tempo não lia uma frase de tão grande significado como a da professora (eta profissãozinha arretada…) Maria Izabel, de Aracaju: ‘…Hoje, para mim, palavra de político vale mais do que a de jornalistas da grande imprensa marrom’. Parabéns, Maria Izabel. Esta noite, Luiz Weis, ao colocar a cabeça no travesseiro, talvez você possa repensar as análises que o blog, pelas suas mal-traçadas linhas, dedicam às questões das ‘crises’ e ‘escândalos’…

  11. Comentou em 26/07/2006 Pedro Franchi

    O comentário estaria perfeito se também questionasse por que os jornalistas não voltam um pouco atrás no tempo e incluim uma investigação de por que estas coisas não foram descobertas no período José Serra, haja vista, que no seu período as irregularidades já ocorriam. Porque ?

  12. Comentou em 26/07/2006 Hélcio Lunes

    Não adianta, com esse desgoverno não tem jeito! Cada enchadada vem um monte de minhoca gorda. Supostamente é claro ‘pelo que foi apurado pela polícia federal em interrogatorios, O PROPRIETARIO DA PLANAM ENVOLVE DOIS MINISTROS DO GOVERNO LULA’ é isso que a Folha deu o que foi apurado. Humberto Costa recebeu por mais de 2 horas os donos da PLANAM e os oito MIlhões foram liberados em 4 parcelas. Qual a dúvida, qual a impropriedade jornalistica da folha? Na verdade as minhocas vão continuar a aparecer pois afinal é o governo do PT, eo PT a gente conhece!

  13. Comentou em 26/07/2006 José Carlos dos Santos

    Caro Weis agora você não vai defender o sacro-santo sigilo, comom defendeu na época do ‘pobre caseiro’, não irá se revoltar com a violação do direito que esses parlamentares teriam direito já que o processo corre em segredo de justiça.

  14. Comentou em 26/07/2006 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    Caro Weis. Não vale a pena acompanhar o escandalo das ambulancias pelas matérias da grande imprensa marrom. Diante da cobertura dos ‘escandalos’ anteriores, pautada pela falta de ética e por manipulação descarada, fica dificil separar alhos de bugalhos. Muita gente pode ter seu nome jogado na lama, por jornalistas inescrupulosos, que atiram primeiro e perguntam depois. Eu prefiro esperar pelo pronunciamento dos politicos supostamente envolvidos. Por mais herético que seja, prefiro a palavra deles. Hoje, para mim, palavra de politico vale mais do que a de jornalistas da grande imprensa marrom.

  15. Comentou em 26/07/2006 MARCOS APARECIDO DO NASCIMENTO

    Fica no ar uma pergunta.Se o ministério da saúde como menciona o texto ,era do PT,de quem era a policia FEDERAL?

  16. Comentou em 26/07/2006 Priscila Mayrynk

    só para lembrar: dos 57 peimeiros nomes envolvidos no escandalo, nenhum pertence ao PT.

  17. Comentou em 26/07/2006 Ricardo Brás

    A Folha – como os demais jornais – tem derrapado na hora de usar o verbo ‘envolver’. Assim, Humberto Costa virou ‘envolvido’ no escândalo porque Cirilo, do PT, fez gestões para que o MS liberasse o pagamento devido à Planam, no tempo em que o pernambucano petista era ministro. Faltou apurar se houve pagamento, se era legal efetuar tais pagamentos, se os tais pagamentos se referiam a despesas contratadas na gestão da dupla tucana Serra/Barjas etc. Da forma como têm tratado o caso, a Folha enlamea a imagem do ex-ministro de modo covarde, além de fazer o jogo daqueles que realmente têm a temer com o aprofundamento das investigações – falo aqui de PFL e PSDB.

  18. Comentou em 26/07/2006 Adriano Soares de Assis

    Gostei muito do que a Folha apurou mas, gostaria de perguntar ao Sr. Luiz Weis e também a chamada grande imprensa, principalmente a de São Paulo, porque não apuraram nada, nem uma notinha sequer foi dada a respeito da lista do Sr. Dimas Toledo, diretor de Furnas. Sigam o exemplo de ‘Caros Amigos’. Eles publicaram a lista completa, inclusive das empresas que ‘doaram’ dinheiro para os candidatos. É bom também que se diga que todos são de partidos da oposição ao atual governo. Será ótimo para o Brasil saber o nome de cada um deles.

  19. Comentou em 26/07/2006 Pablo Arruti

    Bom comentário do Fábio de Porto Alegre. É essencial que a Folha ou qualquer outro meio de comunicção brasileiro perceba que este é um momento ótimo para começar a mudar o custume de só correr atrás de más noticias. Espero que se divulgue os inocentes comprovados com a mesma intensidade dos culpados.
    De qualquer forma, ADOREI este escandalo! Depois dessa maldita copa, que relegou qualquer discussão politica a segundo plano, volta a tona uma bomba bonita, que pode ajudar a não reeleger alguns escrotos inveterados.

  20. Comentou em 26/07/2006 Vera Borda

    A senadora Heloís Helena xingou ontem os jornalistas que leh pediam explicações sobre as infelizes frases que ela tem dito nos últimos dias, e xungou-os de ignorantes e gentalha de má-fé, e ninguém neste Observatório da Imprensa se pronuncia a respeito? Não vão defender a honra dos coleguinhas?

  21. Comentou em 26/07/2006 Fábio Carvalho

    Prezado Weis, ‘Estes novos denunciados não estão sendo investigados. Por isso, a notificação é necessária, até para que eles possam se defender em algum fórum e comecem a ser investigados’, afirmou o vice-presidente da CPI, deputado federal Raul Jungmann (PPS/PE), em entrevista à Agência Brasil. A Folha precisa ir bem além de Kapaz, é também seu dever inocentar quem o jornal trata como acusado há mais de dois meses em sua grande área de cobertura. Como sustenta seu editorial, ‘(…) as listas já divulgadas com fotos e nomes dos acusados são um começo, mas não bastam para dar a medida do envolvimento dos congressistas no esquema nem para esclarecer detalhes operacionais dos delitos, que envolvem, entre outros, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e crime contra a Lei de Licitações’. Se bobear, com a sede de sangue da imprensa, toda eventual inocência provada será tratada como pizza. Dificilmente, merecerá manchetes e abres de página dignos. Oxalá haja responsabilidade.

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