Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Na Colômbia, a dramática associação entre guerrilha e drogas

Por Mauro Malin em 08/03/2007 | comentários

Nesta segunda parte de sua entrevista sobre a Colômbia, Antonio Carlos Peixoto, professor da Uerj, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mostra a situação dramática que se criou no país com a mútua dependência entre guerrilheiros ideológicos e narcotraficantes.


Na primeira parte, Peixoto afirma que a Colômbia é o pais mais violento da América Latina e que o engendramento dessa violência foi um processo muito mais complexo e mais antigo do que dão a entender os relatos jornalísticos correntes.



Clique aqui para ler “Colômbia é violenta desde a independência”.


Este é a quarta de uma série de entrevistas sobre história política de países da América do Sul. As outras foram


As muitas Américas do Sul


Mídia brasileira precisa ver Paraguai além da caricatura


e


Decomposição política da Venezuela antecede Chávez


Eis a segunda parte da entrevista de Antonio Carlos Peixoto sobre a Colômbia.


Farc e narcotráfico se odeiam, mas crescem um no lodo do outro


Antonio Carlos Peixoto – Nos anos 80 haverá o fortalecimento do narcotráfico como poder financeiro, enorme poder corruptor, na Colômbia. E, por outro lado, as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia]. Essa relação entre Farc e narcotráfico é extremamente curiosa, porque eles se odeiam.


O narcotráfico, se pudesse, já teria decepado a cabeça de todos os indivíduos que militam nas Farc e de seus familiares. Eles se odeiam, mas um cresce no lodo do outro. É assim que funciona.


As Farc, de alguma maneira, têm uma tradição marxista. Elas não têm amor e simpatia pelo narcotráfico, trabalham na base de que os fins justificam os meios. Mas isso não quer dizer que cometam o crime pelo crime.


A velha história do comunismo: tem sempre uma razão superior que nós, pobres mortais, não conseguimos entender, porque é próprio de meia dúzia de indivíduos do Comitê Central. No Brasil, era. Mas nas Farc continua existindo.


O narcotráfico precisa delas porque elas controlam os territórios. E os territórios que elas controlam ficam mais ou menos livres da presença aporrinhativa do governo. Onde eles estão, o Exército não está. O Exército pode até entrar, mas vai sair em 24, 48, 72 horas. Os narcotraficantes sabem que ali as plantações deles estão mais ou menos garantidas.


E, por outro lado, as Farc precisam deles porque eles rendem dinheiro.


É uma associação de interesses, um contrato não escrito. E os dois vão ali se equilibrando.


Em 30 anos, não houve governo capaz de quebrar a associação entre Farc e drogas


Trinta e tantos anos passados do começo dessa associação, ainda não houve governo na Colômbia capaz de quebrar isso. Esse é o dado estrutural que vem comandando a vida colombiana.


A partir daí, as mudanças de governo não têm um significado muito grande do ponto de vista da história da Colômbia. Em 1982, um candidato conservador ganha, Belisario Betancur [1982-1986], o mesmo que tinha concorrido em 1970 contra Misael Pastrana e perdido.


Em 1986, os liberais voltam ao poder com Virgilio Barco [1986-90]. Em 1990, entra um liberal com, talvez, uma visão um pouco maior de Estado, [César Augusto] Gaviria [1990-94]. Foi secretário-geral da OEA [Organização dos Estados Americanos] antes de [José Miguel] Insulza.


Apogeu do narcotráfico


É quando realmente o narcotráfico está no seu apogeu. É quando Pablo Escobar aparece, só faltou virar artista de cinema, porque a visibilidade dele era total: andava de um lado para o outro…


Foi deputado, tinha bancada parlamentar, relações com empresários…


A.C.P. – Exatamente. Com o poder de corrupção, eles entraram na Polícia, no Judiciário, no Exército, na imprensa.


O senhor acha que isso é alguma coisa que uma teoria consiga explicar, ou só a história da Colômbia consegue explicar?


A.C.P. – Não, eu não creio que haja uma teoria. É um encadeamento de fatos. Há uma coisa curiosa em relação à Colômbia: ela sempre foi uma economia de contrabando.


Produção alta, fora da lista das exportações


Veja-se o seguinte: a Colômbia é o maior produtor mundial de esmeraldas. As esmeraldas colombianas são reputadas como la crème de la crème. E, entretanto, a rubrica esmeraldas nas exportações colombianas é uma brincadeira.


Pierre Gilhodès é um cientista social que trabalhava na Sciences Po [Fontation nationale des sciences politiques], especialista em Colômbia. Ele hoje mora na Colômbia. Gilhodès uma vez me apresentou um sujeito, não era contrabandista, não tinha nada na ficha policial dele que o desabonasse. Eu perguntei onde é que ele estava hospedado. Ele estava hospedado em um daqueles hotéis muito caros da Place Vendôme.


E eu brinquei com ele: “Você está com dinheiro!” Ele me disse o seguinte: “Eu não carrego dinheiro, nem cartão de crédito”. Apontou o bolsinho de cima, do paletó, menor, e disse: “Meu dinheiro está aqui”. “Mas como?” Gilhodès começou a rir, ele tirou um lenço um pouquinho amassado de dentro do bolso, abriu o lenço e ali tinha umas cinco, seis esmeraldas brutas.


Uma esmeralda bruta para viver um mês em Paris como nababo


Ele disse: “Eu fico perto da Place Vendôme porque ali estão os melhores joalheiros de Paris. Eles já me conhecem. Eu entro, vendo uma esmeralda e com isso vivo nababescamente em Paris durante um mês. Se eu quiser ficar mais tempo, vendo outra esmeralda”.


Faço um parêntese. Gilhodès me levou também a um hotelzinho, acho que na parte alta do Boulevard Saint- Michel, já quase chegando naquela confluência do Jardim de Luxembourg. Ali, conversamos com um ministro da Corte Suprema de Justiça da Colômbia. Isso foi um pouco antes de eu voltar para o Brasil, em 1982.


Ele foi jurado de morte pelo narcotráfico. Me disse: “Mandei minha família para Miami, mas eu, pessoalmente, não gosto dos EUA. Preferi ficar aqui em Paris, fico mais ou menos tranqüilo”.


Esse não tinha esmeralda e nem era homem de grande ostentação. É claro que, morando em Paris, continuava recebendo o salário dele do governo colombiano. Devia ter um salário alto: ministro de Corte Suprema de Justiça ganha bem em qualquer lugar do mundo. Mas não como no Brasil, três vezes o que ganha o presidente da República…


Volto à tradição de contrabando que marca a história da Colômbia.


Esmeraldas, ouro, marijuana… cocaína


Ouro: a Colômbia é uma grande produtora de ouro, certamente menos que o Brasil, também não é uma das grandes do mundo, não chega a se comparar com a África do Sul e com alguns países africanos, mas tem bastante ouro. Esse ouro sai no contrabando, sempre saiu no contrabando.


Eles tinham uma tradição de exportação de marijuana. É um país aberto para dois oceanos, para o Atlântico, Caribe, no norte, e para o Pacífico, no sul, abaixo do Panamá.


Do ponto de vista do território, a Colômbia vai da faixa litorânea às terras andinas e, depois, caindo para a Floresta Amazônica, onde, obviamente, o povoamento é escasso. E, de outro lado, os llanos, zona plana onde a Colômbia e a Venezuela fazem fronteira.


É uma população relativamente bem distribuída, tem um grande claro na Amazônia. País de população grande para os países daqui, terceira da América Latina, mais que a Argentina, 43,6 milhões de habitantes.


O café é uma economia altamente formalizada. A Federación [Nacional] de los Cafeteros de Colombia é uma força, historicamente sempre foi uma potência. E, ao lado disso, vários segmentos de uma economia informal, e que se realizava no mercado por meio do ilícito: esmeraldas, ouro, * marijuana, a cocaína foi mais uma delas.


Eu acho que um grande fator explicativo da história da Colômbia é a tradição de violência porque ela explode não só no plano federal, mas no plano local em três, quatro lugares ao mesmo tempo, sem que o governo tenha condição de fazer alguma coisa, porque são conservadores e liberais brigando. Isso não é diferente do que acontece no Brasil, quer dizer, baixa capacidade do Estado de controle sobre seu próprio território.


Existem grupos ilícitos ligados a cada um desses partidos. Esta é a questão: a incapacidade de conservadores e liberais de se colocar de acordo em vários momentos, podiam não ter se colocado sempre, mas em vários momentos teria sido, talvez, possível. Eu não sei, só um grande especialista da história da Colômbia poderia dizer isso a você: “Ah, em 1924 houve um chance…”, “Em mil novecentos e não sei das quantas houve outra…”


Este é o dado: a violência na Colômbia sempre foi uma coisa brutal. Sem dúvida alguma, ao longo da história, é o país mais violento da América Latina.


Quando os anos 90 irrompem, Gaviria no poder, o narcotráfico chegou ao seu ponto máximo de florescimento e de um ilícito que convivia amistosamente com todos os escalões da vida colombiana.


Você não conhece um livro do García Márquez sobre esse momento?


Notícias de um seqüestro.


A.C.P. – É esse. Maruja Pachón foi uma das seqüestradas. Esposa de um sujeito que eu conheci em tempo idos, Alberto Villamizar. Na minha militância comunista, em encontros de juventude latino-americana, eu cruzei com ele umas três vezes: em Cuba, em primeiro lugar; em Santiago do Chile, em um encontro de juventude também; e ele veio aqui ao Seminário Estudantil do Mundo Subdesenvolvido.


Quando foi isso?


A.C.P. – Em 1963, em Salvador. Ele era o presidente da Juventude Liberal, que não tinha, obviamente, os vícios infames do Partido Liberal. Era uma gente mais idealista, mais esperançosa, queria uma Colômbia diferente, uma Colômbia melhor. Ele continuou fazendo trajetória no Partido Liberal. E, depois que acabou esse seqüestro e a mulher voltou para o lar, pelo que eu li no livro, ele foi mandado para ser embaixador em Haia, na Holanda.


Samper, preferido pelos narcos, elege-se presidente


Em 1994 o narcotráfico desorganiza a sucessão presidencial. O candidato do Partido Liberal tinha posições extremamente firmes contra o narcotráfico, Luis Carlos Galán, que era ministro da Justiça, foi assassinado durante a campanha eleitoral.


O resultado é que em 1994 foi eleito o candidato que o narcotráfico queria, [Ernesto] Samper [1994-1998]. E de 1994 a 1998 o narcotráfico, novamente, está de bola cheia.


Nos anos 90, os Estados Unidos resolvem intervir de forma mais dura com relação a isso. Foi Bill Clinton, que chega ao poder em 1992. O Plano Colômbia não surgiu no marco zero. Há uma preocupação especial dos Estados Unidos nos anos 90 em relação à Colômbia, e nas duas frentes: narcotráfico e Farc.


Há cenas ridículas: o embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, semanalmente, convocava a imprensa colombiana e os correspondentes estrangeiros ali baseados e acusava frontalmente o presidente da Colômbia, Samper, de relações com o narcotráfico.


Salinas de Gortari sai da presidência do México e foge


Samper foi proibido de entrar nos Estados Unidos.


A.C.P. – Foi proibido. Essa é uma época terrível na América Latina. Em 1988, no México, é eleito presidente [Carlos] Salinas de Gortari. Quando termina o governo, em 1994, justamente no ano em que estão sendo cometidas essas atrocidades na Colômbia, Salinas de Gortari sai do governo inteiramente enlameado com a questão do narcotráfico, porque os mexicanos já tinham começado a entrar nisso.


O irmão de Salinas de Gortari é assassinado pelo narcotráfico mexicano, Salinas é obrigado a pedir asilo no Canadá, porque no México parece que não sobreviveria, nos Estados Unidos foi proibido de entrar pelo Clinton, e estima-se que na hora em que ele saiu da presidência a fortuna pessoal dele, amealhada com o dinheiro do tráfico, era algo em torno de 300 milhões de dólares.


É contra esse quadro que Clinton vai reagir. Ele diz: “Não é possível, estão inundando o país de cocaína, vivem como nababos na Colômbia, ou fazendo cruzeiros luxuosíssimos pelo Caribe, pelo Atlântico, vão para a Europa, e nós não estamos fazendo nada”.


É realmente um absurdo que os dois governos de Reagan e o governo do pai desse maluco que se encontra agora na Casa Branca não tenham feito mais. Eles aumentaram os controles, aumentaram o efetivo da Drug Enforcement Administration (DEA), deram mais verba. Mas a diferença é que Clinton atacou nas zonas de produção.


Clinton foi lá, ao contrário dos outros. Bush filho já herdou uma política antidrogas firmada. Os acordos segundo os quais narcotraficantes condenados nos Estados Unidos são extraditados é herança de Clinton. De qualquer modo, no que se refere ao Bush, é o aprofundamento de uma política que já vinha sendo seguida. “Nós vamos pegar esses desgraçados lá no país deles”.


Os seqüestros relatados por García Márquez no livro são uma tentativa de pressionar o Congresso colombiano para não aprovar esse acordo de extradição. Mas acabaram aprovando e hoje extraditam.


A.C.P. – É no meio dos anos 80 que começa a haver um endurecimento, uma pressão para que as Farc sejam declaradas uma organização terrorista, porque o governo Clinton é o primeiro que vai enfrentar também o terrorismo de cara. Não há um World Trade Center no governo do Clinton, mas há ali episódios complicados.


Houve o primeiro atentado contra o World Trade Center, em fevereiro de 1993, uma bomba explodiu na garagem, matou seis pessoas e feriu mais de mil. Naquele dia, quando li a notícia, pensei: “Acabou o mundo em que vivemos até hoje. Agora vem outro”. Só não sabia que ia acontecer no mesmo lugar, daquele jeito, com os aviões, oito anos e meio depois.


A.C.P. – O governo do Clinton resolve enfrentar a questão do terrorismo. Felizmente não se enterrou numa intervenção. Houve aquele episódio desastroso do envio de tropas americanas à Somália, eles tiveram que sair correndo [as tropas haviam sido enviadas em 1992, no governo de Bush pai; o episódio em que soldados americanos morreram foi em 1993, já no governo Clinton].


No governo Clinton os Estados Unidos tiveram um atentado terrorista de direita, em Oklahoma. Foi em 1995. Tinha uma creche no prédio, foi uma crueldade total, os integrantes das chamadas milícias americanas são desvairados. O governo americano aparentemente conseguiu controlar essas milícias.


A.C.P. – Clinton é o primeiro governo que se dispõe a enfrentar de cara a questão do terrorismo e também o narcotráfico, vendo que na Colômbia as duas coisas estão associadas. E piorando com os grupos de autodefesa, os paramilitares, que começam a se formar nos anos 80.


Os paramilitares são a versão pela direita das Farc, em territórios que as Farc não controlavam. Ali se organizam os paramilitares, com o mesmo esquema de vinculação ao narcotráfico: “Paguem e vocês terão proteção”.


E a mesma relação de ódio visceral, de ambas as partes.


A.C.P. – Exatamente. Ali nos grupos unidos [AUC, Autodefesas Unidas da Colômbia] existe gente que também não gosta do narcotráfico, mas que foi para lá porque é uma maneira de ganhar dinheiro. Na preparação das eleições de 1998, os Estados Unidos já têm, portanto, uma presença grande na Colômbia. Eles preferem uma vitória conservadora, quer dizer, é como se o Partido Liberal tivesse esgotado a confiança deles. São três governos liberais sucessivos: Virgilio Barco, em 1986; Gaviria, em 1990; e Samper, em 1994; e o narcotráfico só fez florescer e aumentar sua força.


Com Andrés Pastrana, as Farc deitaram e rolaram


É claro que os analistas do Departamento de Estado devem estar dizendo: “O que é isso? Vamos acabar com essa esculhambação”. Troca a guarda. E é então que surge Andrés Pastrana.


Andrés Pastrana definiu a seguinte estratégia: “Nós não vamos atacar vocês nos seus territórios, mas não saiam dos seus territórios”. É como se houvesse uma trégua explícita, não foi implícita, foi combinado e anunciado como política de governo: “Vocês não saem, nós não entramos. E a partir daí vamos começar as negociações de paz”.


É claro que, em cima disso, as Farc deitaram e rolaram, porque não iam ser atacadas. Se elas se deslocavam para fora do território delas, como é um território de acesso mais difícil – não chega a ser floresta densa, mas é um terreno, eu diria, quase florestal –, o Exército freqüentemente não sabia, mesmo com rastreamento de satélites. Era difícil rastrear, então eles ficaram quatro anos tranqüilos.


Ora, quando aparece a sucessão de Pastrana, em 2002, a política americana é a continuação daquilo que o Clinton tinha feito. Investimento destinado às Forças Armadas colombianas – modernização de equipamentos. As Forças Armadas colombianas, hoje, têm equipamentos de primeira. A Colômbia é o único país da América Latina ao qual os Estados Unidos vendem um certo número de equipamentos militares, o que justifica, ou melhor, explica a paranóia de Hugo Chávez em relação à Colômbia e o esforço de rearmamento que Chávez vem fazendo nos últimos tempos.


Porque se houvesse, hoje, uma guerra entre Colômbia e Venezuela, começa pelo dado populacional: a Venezuela tem 25 milhões de habitantes, a Colômbia tem 43,6 milhão, 80% a mais de população.


Mas isso não funciona. Entre Irã e Iraque tinha uma desproporção brutal e acabou empatado.


A.C.P. – Pelo estado de total desorganização do Irã.


Que tem população maior.


A.C.P. – Muito maior, mas acontece o seguinte: as Forças Armadas iranianas tinham sido destruídas pela revolução dos aiatolás, enquanto o Iraque tinha um exército em ponto de bala. Se o Irã não tivesse as reservas demográficas dele, tinha perdido. Eles jogaram meninos de 15, 16 anos.


Mandaram fabricar chaves do céu de plástico para botar no pescoço dos meninos que iam na frente para explodir as minas.


A.C.P. – É o que eu estou dizendo: sem a superioridade demográfica, o Saddam Hussein ia poder cumprir a promessa dele. Quando começou a guerra, ele avisou ao Ocidente: “Dentro de duas semanas, o exército iraquiano estará desfilando em Teerã”. Eles tiveram que apelar para tudo para poder empatar a guerra.


Chávez vê a Colômbia como cavalo de Tróia dos EUA


Hoje, a lógica que prevalece é esta: os Estados Unidos confiam em Uribe, para reeleger Uribe reintroduzem a figura do segundo mandato na Constituição colombiana, mantêm a mesma estratégia, e o Plano Colômbia continua em vigor.


É claro que as preocupações dos Estados Unidos com a América Latina decresceram depois do 11 de Setembro, que levou à intervenção no Iraque, mas eles continuam dando abrigo ao Plano Colômbia.


Chávez vê a Colômbia como um cavalo de Tróia dos Estados Unidos. “Os Estados Unidos vão querer me derrubar por meio de uma invasão da Venezuela pela Colômbia”.


Quando houve aquele incidente, na passagem de 2004 para 2005, dirigentes das Farc raptados por agentes secretos colombianos em Caracas, foi Fidel Castro – que ainda tinha, com todos os vícios, defeitos e problemas, alguma autoridade moral na América Latina – que telefonou para Uribe e pediu solene e formalmente que ele agisse no sentido de desarmar o estopim da guerra, porque aquilo esteve muito próximo de uma guerra.


Já tinha havido um problema complicado entre Colômbia e Venezuela, entre 1970 e 1971, por causa da demarcação contestada de uma jazida de petróleo submarina, no litoral venezuelano e colombiano. Em 1970 e 1971, os dois quase se pegaram.


As relações não são boas, embora [Simón] Bolívar se considerasse tanto venezuelano como colombiano. Ele tinha uma grande amor pela Colômbia, mais ou menos igual pela Venezuela, não via muita diferença entre os dois. Agora, novamente, com o rearmamento do exército colombiano, o Chávez está ouriçado, com as orelhas em pé.


Altos investimentos militares americanos


Esse Plano prevê investimento alto, exclusivamente militar. Prevê inclusive que unidades militares colombianas inteiras sejam deslocadas para os Estados Unidos em nível de batalhão. Desloca, bota numa base militar americana. Os homens ficam um ano recebendo o mesmo treinamento que os marines recebem, que as unidades especiais de infantarias recebem. Quando eles voltam, voltam aguerridos.


Então, teve-se realmente um tipo de envolvimento estratégico entre Estados Unidos e Colômbia que não existe em nenhum outro país da América Latina, porque há muitos anos a percepção é de que o perigo na América Latina vem da Colômbia.


É claro que, hoje em dia, mudou um pouco, por causa das coisas de Hugo Chávez, de Evo Morales e, recentemente, de Rafael Correa. Mas em relação a eles a percepção de perigo é política, até porque os Estados Unidos não têm mais interesse nenhum na Bolívia. Não tem investimento americano na Bolívia, se tiver deve ser sem importância nenhuma. No Equador, idem.


O medo da decomposição do Estado colombiano


Na Colômbia existe uma percepção de natureza militar. E se as Farc tomam o poder? E se ocorre uma decomposição do Estado colombiano? Esse é o problema. Principalmente com o Chávez. Porque as relações entre as Farc e o Chávez, obviamente, são muitos boas. O Plano Colômbia, portanto, opera com uma variável extremamente importante e pesada na vida colombiana.


Mantém-se a política de treinamento de unidades colombianas, de cessão ou venda – não sei como é que os EUA operam em relação a eles – de equipamento militar mais sofisticado, armamento que, talvez, a OTAN possa utilizar agora no Afeganistão e ao qual normalmente só a Grã-Bretanha tem acesso.


Eles estão fornecendo equipamento sofisticado, eles treinam, continuam investindo. Essa lei dos traficantes condenados nos EUA que determina que eles devem ser extraditados. Tem-se hoje, realmente, uma relação umbilical entre EUA e Colômbia.


E a política desenhada por Andrés Pastrana foi arquivada, “não tem que dar colher de chá nenhuma, não tem que dizer aos caras que eles são os donos dos territórios em que eles estão. Tem que tirar eles de lá e matar. Se for possível, mata tudo”.


Por enquanto, choques só na periferia


Acontece que, por enquanto, o Exército colombiano e as Farc só se chocam na periferia, porque se considera que o Exército colombiano como um todo ainda não está preparado para um ofensiva de grande envergadura. Existem pequenos choques na periferia, mas em algum momento eles vão entrar.


Quando o Plano Colômbia foi anunciado, em 2000, veio a declaração do chefe militar das Farc: “Se eles querem a guerra total, podem, vir. Nós estamos preparados”. As Farc têm um efetivo militar de 17 a 20 mil homens, extremamente bem treinados, guerrilheiros ideológicos. A direção das Farc pode não ser mais, não tem importância, mas os guerrilheiros acreditam numa Colômbia melhor.


Eles têm uma vantagem, portanto, sobre os soldados. São bem treinados, compram equipamento militar sofisticado – hoje em dia, comprar material físsil para bomba atômica no mercado mundial não é difícil. Eles compram armamento, certamente, até em Miami, que é um grande entreposto de venda de armamento em escala mundial.


É um quadro dramático.


Eu diria o seguinte, não sei se o senhor concorda: o que vai resolver isso é uma coisa chamada política. É a população.


A.C.P. – Sim, se houver uma intervenção militar mais pesada nos territórios das Farc, é o princípio do Clausewitz: “A guerra é uma continuação da política por outros meios”. As Farc jogam no processo de decomposição do Estado colombiano, o Estado colombiano joga num processo de enfraquecimento gradual das Farc.


É a história da guerrilha sem o objetivo de tomar o poder. Sair de lá e marchar em direção a Bogotá, isso eles não vão fazer. Então, um joga na decomposição, no enfraquecimento do outro. Enquanto isso, todos eles sobrevivem.


Vê-se, novamente, a capacidade de intervenção dos EUA. Os EUA elegeram novamente o Uribe. Não havia segundo mandato na Colômbia. Eles forçaram uma emenda na Constituição, como o nosso preclaro sociólogo forçou aqui, e reelegeram o Uribe, que fala que é preciso ter uma estratégia mais dura em relação às Farc, que não se pode permitir que as Farc se instalem como donas de seus territórios, mas isso é um discurso. Até hoje muito pouco foi feito nessa direção.


Em Bogotá, criminalidade tem a ver com guerrilhas e narcos


O que tem havido é um choque nas periferias dos territórios deles. O exército dá uma entrada de pouca profundidade, eles saem também em pouca profundidade. Ao lado disso, o que houve foi uma estratégia de controle da violência em Bogotá, que alguns indivíduos aqui no Brasil, principalmente os especialistas em violência, vêm única e exclusivamente como uma questão de criminalidade.


Não estou dizendo que eles estão errados. Gláucio Dilon Soares, que eu conheço muito bem, muito competente, muito sério nas coisas dele, era professor de um dos campi da Universidade da Flórida, se aposentou nos Estados Unidos e agora está aqui no Iuperj [Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro], vê a violência nas cidades, única e exclusivamente, como uma questão de criminalidade, como uma questão de violência da rua.


Não é bem assim. As estratégias de “pacificação” das cidades tiveram a ver – e continuam tendo, porque elas surtiram efeito e continuam sendo aplicadas – com a disposição de quebrar o braço armado das organizações guerrilheiras nas cidades, porque era isso que engendrava a violência.


Essa violência que tem aqui no Rio de Janeiro e em São Paulo – não sei se em maior ou menor medida, nem interessa, essa estatística para mim é macabra, não estou preocupado com ela – não vem do narcotráfico?


Em boa parte, vem.


A.C.P. – Vem, nós sabemos que vem. Na Colômbia era a mesma coisa. Além do braço armado dos guerrilheiros nas cidades, eram quadrilhas de assaltantes, ladrões, homicidas, criminosos de todo o tipo que, de certa maneira, executavam certas tarefas para o narcotráfico e, nas horas de folga, arrumavam outras tarefas.


Aí sim houve uma estratégia de enfrentamento, com uma série de medidas que os especialistas em violência, como Guaracy Mingardi, professor da USP que foi da Polícia, conhecem bem. Aqui no Rio também há sociólogos que conhecem isso, como Michel Misse, da UFRJ [ver entrevista] e Roberto Kant, da Federal Fluminense [ver debate].


Curioso comício do PC colombiano em Cartagena


Como foi a história de um comício do Partido Comunista da Colômbia feito com autorização de narcotraficantes?


A.C.P – Nas minhas andanças latino-americanas de comunismo eu conheci, em Havana, o camarada Romero. Era dirigente da Juventude Comunista colombiana. Eu me encontrei com ele e com Alberto Villamizar – os dois se odiavam, por motivos óbvios: Villamizar era presidente da Juventude Liberal e o outro era dirigente da Juventude Comunista.


Por volta de 1980, 1981, em Paris, me telefonaram do Partido Comunista Francês e me disseram que o camarada Romero gostaria de falar comigo. Eu não me lembrava dele, mas fui para a sede do PCF, na place du Colonel-Fabien.


Eu não o via há 18, 19 anos, mas ele me reconheceu. Depois, ele me explicou que o Gilhodès é que tinha dito a ele que eu estava no exílio em Paris, quer dizer, em 1980 não era mais exílio, mas era como se fosse.


Conversamos uns quinze, vinte minutos e depois saímos. Em frente à sede do PCF havia um Café Brasilia. Nós nos sentamos ali, comemos alguma coisa, já estava perto da hora do almoço, bebemos vinho e começamos a bater papo. E o Romero me contou a seguinte história.


Na época, Romero era vereador pelo Partido Comunista em Bogotá. Um ano antes – eu acho que esse encontro foi em 1981, e a história se passou em 1980 – ia haver uma eleição para a prefeitura de Cartagena das Índias e, portanto, para vereadores também. E O Partido Comunista decidiu pela primeira vez apresentar candidato a prefeito em Cartagena e tentar eleger alguns vereadores.


Pediram que o Comitê Central ajudasse, mandasse gente lá para delinear a campanha eleitoral, porque eles não tinham prática de campanha. E para lá foi o Romero, um dos enviados pelo Comitê Central para ajudar no trabalho. Cartagena se tornou um lugar importante, porque o Comitê Central despejou gente ali.


Era um sábado à tarde e algo estranhou começou a acontecer”


Resolveram montar um comício, escolheram uma praça, num bairro, e estão se preparando para o tal comício, num sábado, no começo da tarde – o comício ia ser às seis, sete horas –, armando o palanque, colocando equipamento de som. E começou uma coisa estranha.


Quando eles entraram na praça e começaram a trabalhar, viram que as janelas das casas começaram a se fechar. Não ficou uma janela aberta na praça. E, pouco tempo depois, lá pelas três, quatro horas da tarde, das diferentes ruas que desembocavam na praça, começaram a vir uns carros pretos, aqueles Cadillacs de chefe mafioso de Nova York, há vinte anos, carros enormes. Pararam todos nos ângulos dessas ruas que desembocavam com a própria praça. Em bom português: fechando o caminho.


Os responsáveis pelo comício, da direção do Partido Comunista em Cartagena, e os que foram mandados pelo Comitê Central começaram a confabular e chegaram à seguinte conclusão óbvia: “Estamos cercados, daqui nós não saímos, cada carro desses transporta, pelo menos, umas sete, oito pessoas que devem estar armadas”.


Decidiram mandar um grupo de três pessoas para conversar. Pouco provável que três pessoas, se aproximando, sem estarem armados, fossem provocar um morticínio. Se aproximaram de um dos carros, um sujeito baixou o vidro e apontou para o outro carro. “É com aquele ali que vocês têm que conversar”. Como quem diz: “O chefe está ali”. Dirigiram-se para o outro carro, o chefe desceu com mais um ou dois asseclas, e conversaram.


Bandidos viviam ‘em paz’ com as autoridades e com o próprio PC local


O teor da conversa foi o seguinte: “Esta cidade, e mais particularmente este bairro, sempre foram nossos. Nós temos um acordo, um entendimento muito bom com a Polícia. Todo mundo aqui se dá bem, a prefeitura, os vereadores, o judiciário, quer dizer, nós vivemos aqui com total tranqüilidade. Nós vivíamos com tranqüilidade até com o Partido Comunista daqui, o que está acontecendo agora? Vem uma porção de gente de Bogotá, da direção central do partido, o partido resolve lançar candidato a prefeito, vocês começaram a ser um fator de distúrbio na nossa vida aqui.


Para que vocês querem desorganizar a cidade? Conosco aqui no controle das coisas não há problema nenhum, tudo se resolve. Agora, vem o comunismo para cá, não vai dar certo: o governo da Colômbia vai ter que intervir, os EUA vão se aporrinhar, a cidade vai ficar toda desorganizada. Não façam isso, vão embora daqui, deixem o partido como ele sempre esteve, tranqüilo, fazendo a propaganda dele, nunca ninguém morreu assassinado pelo fato de distribuir folheto, santinho.


Inclusive, nós podemos ajudar vocês, vocês sabem disso. Se vocês estão precisando de dinheiro, é só falar conosco, nós podemos dar dinheiro para o partido aqui em Cartagena, tranqüilamente. Nós podemos mandar dinheiro para Bogotá, lá nós vamos dizer com quem vocês se entendem e as coisas estão resolvidas. Agora, não me façam isso, saiam daqui para evitar problemas, porque se vocês ficarem, nós vamos ter que agir, vai ser pior, mais complicado”.


Comício autorizado. E o dinheiro oferecido ao PC?


Eles chegaram a um acordo. Romero me disse que eles conseguiram do sujeito permissão para a realização do comício. Ele disse: “O comício nós vamos ter que realizar, porque senão é desmoralização total nossa, dos comunistas”. O chefe do narcotráfico coçou a orelha e falou: “É, vocês têm razão. Podem fazer o comício, não tem problema não”. Ainda sacaneou: “Nós vamos até mandar umas pessoas para o comício, porque senão não vai ter ninguém”.


Romero volta a falar da política colombiana e eu pergunto: “Espera aí, Romero. E aquela grana que eles ofereceram, vocês aceitaram?” Aí me diz o Romero: “Companheiro, isto é um problema da direção central do Partido, eu, pessoalmente, não acredito, mas se aceitaram, é com eles. Eu nunca soube de nada”.


Isto é um retrato do que era a política colombiana, não estou dizendo que hoje é assim, porque, como eu disse, com o fim do governo do Samper e a chegada de Andrés Pastrana e esses mandatos do Uribe houve um endurecimento, mais controle, inclusive, da capacidade de corrupção do narcotráfico. Este era o quadro: o camarada Romero não sabia se a direção do partido tinha pegado ou não o dinheiro.


(Transcrição de Raiana Ribeiro.)


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