Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Na vaga de Delcídio, dono de jornal, rádio e TV

Por Mauro Malin em 09/05/2006 | comentários

No dia 3 de maio o presidente do Senado, Renan Calheiros, cometeu um ato ilegal. Deu posse ao suplente do senador Delcídio Amaral, do PT de Mato Grosso do Sul, Antônio João Hugo Rodrigues, do PTB. Ele é dono do jornal Correio do Estado, da TV Campo Grande e das emissoras de rádio FM 94 e Rádio Cultura AM de Campo Grande.


A Constituição Federal estabelece no artigo 54 que deputados e senadores não poderão, entre outras coisas, aceitar ou exercer cargo, função ou emprego remunerado em pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público. Nesse último caso enquadram-se as emissoras de rádio e televisão.


João Antônio não é o único. Basta mencionar, para não gastar muito espaço, os senadores Antônio Carlos Magalhães, do PFL de Bahia, ou José Sarney, do PMDB do Amapá, donos de emissoras de rádio e televisão. Se o ato não é ilegal, é antiético.


Antônio João concorreu como suplente de Delcídio Amaral, que agora faz campanha para suceder Zeca do PT no governo de Mato Grosso do Sul. Ele foi um dos financiadores da campanha de Delcidio. Sua empresa Rádio Jornal Empresa Jornalística Mato-Grossense deu 81 mil reais, e ele, como pessoa física, doou 41,5 mil reais. (Veja adiante a lista completa dos doadores, obtida no site www.asclaras.org.br, mantido pela Transparência Brasil.)


O Projor, entidade mantenedora do Observatório da Imprensa, entregou à Procuradoria Geral da República, em 25 de outubro de 2005, representação pedindo providências contra a posse ilegal de meios de comunicação por parlamentares. Recentemente, a Procuradoria encaminhou ao Ministério das Comunicações um pedido de informações sobre os fatos que lhe foram relatados.


Retribuição


Segundo informações que circulam em Campo Grande, o presidente da CPMI dos Correios entregou o mandato a Antônio João por duas razões. Primeiro, para fazer campanha junto às bases eleitorais, o que não pôde fazer direito ao longo dos muitos meses de funcionamento da CPMI. Segundo, para pagar uma dívida com seu suplente, que lhe deu apoio político, de mídia e financeiro na campanha de 2002.


Essa prática chama a atenção para os métodos políticos convencionais seguidos pelo PT e demais partidos Brasil afora, mas sobretudo, especificamente no que diz respeito a este Observatório da Imprensa, para as ligações incestuosas entre meios de comunicação, partidos, candidatos e detentores de mandatos.


A lista de doadores da campanha de Delcídio Amaral sintetiza o drama vivido hoje por todos os partidos no Brasil. É muito estranho que entre os doadores esteja a Confederação Brasileira de Futebol. Também figuram um dos adversários de Delcídio, Ramez Tebet, eleito com a maior votação, e Luiz Umberto Aspesi, assessor do senador Tebet.


Ao total de R$ 1.835.877 se chega com a soma das seguintes parcelas:




  1. Delcídio Amaral Gomez …………………………     R$ 504.842



  2. Comitê Financeiro Único – PT …………………    R$ 291.488



  3. Itel Informática Ltda. ……………………………… R$ 220.000



  4. Banco Itaú S.A. ……………………………………… R$ 150.000



  5. CBF – Confederação Brasileira de Futebol…   R$ 100.000



  6. Banco de Crédito Real de Minas Gerais …….  R$ 100.000



  7. Rádio Jornal Emp. Jorn. Mato-Grossense …….R$   81.000



  8. João Roberto Baird …………………………………. R$  80.000



  9. Construtora Norberto Odebrecht ………………. R$ 45.000



  10. Antônio João Hugo Rodrigues …………………… R$ 41.500



  11. UTC Engenharia ……………………………………… R$ 30.000



  12. Unibanco – União de Bancos Brasileiros ……… R$ 30.000



  13. Tractebel EGI – South América Ltda. ………….. R$ 30.000



  14. Ramez Tebet ………………………………………….. R$ 26.200



  15. Bovespa – Bolsa de Valores de São Paulo…… R$ 20.000



  16. Supripack Ind. Ltda. ………………………………… R$ 12.000



  17. Klabin – Riocell S.A. …………………………………. R$ 11.849



  18. Rosario Congro Neto ……………………………….. R$ 10.000



  19. CBLC – Cia. Bras. de Liquidação e Cust. ……… R$ 10.000



  20. Distribuidora Brasil de Medicamentos …………. R$   9.000



  21. Kristiane Rondon de Oliveira ……………………… R$   6.000



  22. João José Jallad ……………………………………….  R$   5.000



  23. Antonieta Nassar ……………………………………..  R$   4.500



  24. GTA Proj. E Const. Ltda. ……………………………. R$    4.000



  25. Antonio S. Náutica Ltda. ……………………………. R$    3.000



  26. Roberto Teixeira dos Santos ………………………. R$   3.000



  27. Carlos Roberto de Moraes ………………………….. R$   3.000



  28. Conpav Engenharia Ltda. …………………………… R$   2.000



  29. Luiz Umberto Aspesi ………………………………….. R$   1.500



  30. Robson Teixeira dos Santos ………………………… R$  1.000


Nem é preciso dizer que essas são as doações oficialmente registradas. Elas correspondem exatamente ao total de gastos declarados ao Tribunal Regional Eleitoral.


Esses dados não permitem dizer se houve ou não outras despesas e outras receitas. O senador Ramez Tebet fez uma campanha oficialmente mais barata: total de R$ 412.048. Excetuados o agora senador Antônio João e sua empresa, a CBF e a Odebrecht, a lista de doadores da campanha de Tebet é muito parecida com a dos doadores da campanha de Delcídio.

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/05/2006 arthur lobo filho

    Se neste pais se rouba e se mata impunemente…tudo o mais e possivel,nao?

  2. Comentou em 12/05/2006 janice tomanini

    Caro Alfredo Sternheim, no programa 266 desse mesmo observatório eu respondi a você. Pensei que tivesse lido. Vá até lá e veja a mensagem que deixei a você. Repito aqui, que admiro muito o trabalho de jornalistas e cineastas.

  3. Comentou em 12/05/2006 José de Souza Castro

    Luiz Bento, realmente parece estranho o Credireal ainda existir e fazer doações eleitorais suspeitas. De fato, ele foi vendido pelo governo de Minas em 7/8/97 ao BCN, o único a apresentar proposta de compra no leilão na Bolsa de Valores de Minas Gerais. Arrematou por valor equivalente a US$ 123,76 milhões. No mesmo ano, o BCN foi comprado pelo Bradesco, que levou junto o Credireal, que era o mais antigo banco mineiro na ativa (foi inaugurado em 1889, em Juiz de Fora). Causa-me surpresa, porém, que a você, um economista, se abespinhe por o Credireal ainda estar por aí, fazendo das suas. Primeiro, porque é muito difícil fechar uma empresa neste país, tantas são as exigências burocráticas. Depois, porque é conveniente para o Bradesco manter o Credireal vivo. Até mesmo para satisfazer o apetite de políticos desonestos, sem sujar o próprio nome. E também porque o Credireal caiu como um presente dos céus, e não custa distribuir um pouco das dádivas aos necessitados. Só pra lembrar: as privatizações do Credireal e Bemge foram precedidas de uma operação de saneamento, para a qual o governo federal emprestou ao governo de Minas um valor seis vezes superior ao total arrecadado com as privatizações dos dois bancos.

  4. Comentou em 12/05/2006 alfredo sternheim

    A questão desse suplente de senador e de outros políticos nunca foram contestadas legalmente. Por que? Mas concordo com Janice Tomanini que aqui cita o exemplo de Franklin Martins; pode não ser ilegal mas é anti-ético. E pegando carona no texto de Janice, lembro da comentarista da Folha casada com marqueteiro de partido político, da oposição, fato que torna suspeito qualquer comentário sobre eleições e políticos. Essa desculpa que parentesco de jornalista não pode (ou não deve) ser levado em conta porque senão faltaria gente em nossa pobre elite pensante é balela. Ninguém é insubistituível, mas a credibilidade sim, é sagrada, não pode ser arranhada. Mas vejo que, na visão de alguns jornalistas (inclusive aqui no OI), a ética para os políticos e juizes é uma, para os jornalistas é outra. A questão levantada por Mainardi/Veja justificava um amplo debate. Pelo jeito , foi empurrada para debaixo do tapete, estão (os jornalistas daqui e dalí) deixando morrer. Pena.

  5. Comentou em 12/05/2006 Neli faria

    O Caso é o seguinte: depois que o Lullinha ganhou dez milhões da telemar,concessionária de serviço público e com participação do BNDES e fundos de pensão, nada mais me surpreende…Agora só falta o Evo Morales invadir o País e nos submeter à Bolívia.

  6. Comentou em 12/05/2006 RONALD BITTENCOURT

    MAURO MALIN. CASO NÃO SAIBA, O SENADOR PAULO OTAVIO TEM UM PROGRAMA DIÁRIO DE ENTREVISTA NA TELEVISÃO LOCAL ONDE APRESENTA SEUS CABOS ELEITORAIS NUMA RASGAÇÃO DE SEDA INSUPORTAVEL. VEJA TAMBÉM O CADERNO DE OPINIÕES SOBRE BRASÍLIA NO JB. HORRÍVEL. SÓ DÁ RORIZ.

  7. Comentou em 11/05/2006 Paulo Nolasco de Andrade

    A propósito do assunto, solicito que desfaçam essa dúvida. Em Junho ou julho o senador Lobão, segundo a imprensa local, se afastará para apoiar a candidatura da esposa, quem vai assumir é seu filho Edinho, seu suplente, mesmo suplente, isto não caracteriza nepotismo?

  8. Comentou em 11/05/2006 Marco Antônio Leite Costa

    Caro Jornalista, em se tratando de Brasil, para esta gentahia tudo vale. Só não vale ser honesto. Abraços – Marco

  9. Comentou em 11/05/2006 rodrigo siqueira

    Caro Malin, acredito que é necessário esclarecer melhor a questão. ‘Se o ato não é ilegal, é antiético.’ Essa imprecisão não resolve muito. É preciso saber, de fato, se é ilegal. Pois se ilegal, caberia uma possibilidade jurídica para impedir os parlamentares de ocuparem o mandato. É essa a posição que defendo: pegá-los pela letra da lei.Todos da bancada da radiodifusão. Formular ações públicas para tirá-los de lá por impedimento ilegal. É preciso aumentar a pressão sobre o congresso. É preciso marcar em cima, não deixar espaços. É pelo congresso que deve começar a limpeza. E um abraço.

  10. Comentou em 10/05/2006 janice tomanini

    Caro Mauro Malin, concordo quando você diz que pode não ser ilegal, mas é antiético. Por conta disso, digo o mesmo de Franklin Martins, a quem esse observatório defende. Pode não ser ilegal o fato dele ter a esposa secretariando o lider do governo no senado, enquanto ele dá suas opiniões a favor do mesmo governo, mas é antiético.

  11. Comentou em 10/05/2006 Giovanni Carvalho

    É por isto que os jornalistas em geral usam suas opiniões acima das notícias e escrevem bobagens espontaneamente !!!!!

  12. Comentou em 10/05/2006 luiz Bento

    Causa me uma dúvida como uma entidade estatal, privatizada a mais de 08 anos ainda possa ser financiadora da campanha deste importante senador, no caso o Banco de Crédito Real de Minas Gerais S/A., que foi privatizado na gestão de Eduardo Azeredo quando governador.

  13. Comentou em 10/05/2006 Luiz Paulo Santana

    ‘Desde a expedição do diploma’, é o que diz o inciso I do artigo 54 da Constituição, que proíbe deputados e senadores de firmar ou manter contrato entre outras, com empresa concessionária de serviços público, ‘salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes’. O que diabo vem a ser isso?

    O fato é que há duas condições que, suponho, pressupõem legalidade: o desligamento do parlamentar da empresa concessionária que préexista à diplomação e/ou quando o contrato obedece a clásusulas uniformes, seja lá o que for isso.
    Alguém pode esclarecer?

  14. Comentou em 09/05/2006 Pimenta Carioca

    Não surpreende os doadores do Sen. Delcídeo Amaral, afinal temos de ter em conta que ele é ‘ex’-tucano e filiou-se ao PT apenas em 2001… Fica mais clara assim a semelhança entre os interessados na eleição do Delcídeo e do Rmez Tebet????

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