Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Nada de ´off´: falou, tá falado

Por Luiz Weis em 08/03/2008 | comentários

Melhor, só um single malt da abençoada ilha escocesa de Skye.


 


O jornal The Scotsman [191 anos, 64 mil exemplares], de Edimburgo, não só publicou uma violenta declaração “em off” da principal assessora para assuntos internacionais e amiga próxima do candidato democrata Barack Obama, a historiadora da Universidade Harvard Samantha Power, como puxou a confidência para o título – “Hillary Clinton é um monstro” -, e ainda justificou, no próprio texto assinado pela repórter política Gerri Peev, a decisão de ignorar o pedido de reserva da entrevistada.


 


Sob o entretítulo “Publish and be damned” – a expressão publique e dane-se vem da resposta do primeiro duque de Wellington [1769-1852] à amante que ameaçava publicar um livro de memórias, com as cartas dele -, eis o que deu o jornal:


 


“Quando é que o ‘off the record’ é realmente ‘off the record’? Quando as regras são estabelecidas de antemão.


 


Jornalistas sempre procuram saber das coisas e querem que a informação recebida possa ser publicada.


 


Mas, ocasionalmente, um entrevistador aceitará que um diálogo fique ‘off the record’ e que a conversa não seja atribuída [a uma fonte]. Comentários [não publicados] podem servir de material informativo de fundo para um texto jornalístico.


 


Se uma conversa é para ser ‘off the record’, esse acordo geralmente é explicitado antes que a entrevista comece. Às vezes, figuras públicas dizem algo e depois tentam se retratar, insistindo em que [a declaração] era ‘off the record’.


 


Mas então é tarde demais, particularmente se é do interesse público que a história seja publicada.


 


No caso, Samantha Power estava promovendo o seu livro [Caçando a Chama: Sergio Vieira de Mello e a sua luta para salvar o mundo] e ficou estabelecido de antemão que a entrevista era ‘on the record’.”


 


Se a repórter não estiver mentindo – numa entrevista ela disse ainda que, “por uma questão de consciência”, não poderia omitir o insulto da acadêmica à rival de Obama –, então foi jogo jogado.


 


Tanto pior para Obama, que quer se distinguir dos políticos em geral pela atitude de não partir para a agressão contra quem quer que seja, nem permitir que os seus o façam.


 


E tanto pior para Samantha, que teve de tirar o time da campanha com um abjeto pedido de desculpa, em que fala de sua “admiração” por Hillary Clinton. Com admiradores assim…


 


Pensando bem – do ângulo dos interesses do presidenciável – ela já vai tarde. Primeiro, pela assombrosa infantilidade de imaginar que, numa entrevista com uma repórter baseada em Londres a quem talvez não conhecesse, poderia chamar a adversária do chefe de monstro que “se rebaixa diante de qualquer coisa”, contando com a complacência da jornalista.


 


Segundo, porque em outra entrevista, dessa vez à BBC, a premiada historiadora irlandesa de 38 anos e colunista da revista Time aprontou de novo.


 


Sem pedir ‘off’, nem antes, nem depois, puxou o tapete da promessa original de Obama de tirar as tropas americanas do Iraque em 16 meses, dizendo que era otimista demais e que ele mudará de idéia quando se tornar presidente. 


 


Foi a segunda vez em menos de duas semanas que Obama levou um gol contra numa partida de que participa a mídia.


 


Um dos seus principais assessores econômicos, Austan Goolsbee – por sinal, colega de Samantha em Harvard – confidenciou a funcionários canadenses que a promessa do presidenciável de renegociar o Nafta [o acordo de livre-comércio entre Estados Unidos, México e Canadá], para tornar mais duras as suas normas trabalhistas e ambientais, era pouco mais do que “um posicionamento” de candidato.


 


A história vazou para a imprensa dias antes das prévias em Ohio, na última terça-feira. Não deu outra: nesse Estado onde o desemprego industrial é elevado, o voto operário do eleitorado democrata migrou em massa para Hillary, proporcionando-lhe a “volta por cima” que ela tanto passou a explorar depois de 11 derrotas consecutivas para Obama.


 


Já dizia minha mãe: a vida e a morte estão na ponta da língua.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/03/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    É evidente que muita gente diz o que quer de terceiros, principalmente quando não os aprecia muito bem, dentre 4 paredes, quando se sentem à vontade. Todos se lembram do caso Ricupero. É da natureza humana a fulanização, a fofocalhada. O que me preocupa são jornalistas se valerem disso para vender jornais.

  2. Comentou em 09/03/2008 arnaldo boccato

    Sem o ‘off the record’ o mundo não teria a renúncia de Rixhard M. Nixon após o escândalo de Watergate. A cada denúncia de ‘Garganta profunda’, muitas vezes a apuração exigia contatos e mais contatos ‘off the record’ até chegar a fatos, nomes, esquemas. Fiquei só esse caso de quatro décadas para lembrar que o ‘off the record’ é ferramenta de trabalho – sem ele, os que já se armam para desancar o recurso e o jornalismo teriam que se contentar com press-releases ou declarações formais de assessores. Quem é assessor de político, ‘celebridade’ (instantânea ou não) ou empresário sabe que precisa medir as palavras durante um contato com jornalistas. Em casa eu poderia dizer (mesmo sendo absurdo)que ‘Luiz Weis é um enganador’, mas por um mínimo de educação (ou o receio de ter que enfrentar ações em cidades esquecidas em 15 estados…) ninguém diria isso em público. O golpe de soltar um balão de ensaio, falar besteira e depois dizer que era ‘em off’ já virou folclore. Off é off e tem suas regras – o jornalista sabe que vai perder a fonte a a credibilidade se avançar o sinal num caso de off combinado; a fonte sabe até onde pode ir. No caso da Samantha, o feitiço virou contra a feiticeira.

  3. Comentou em 09/03/2008 Lucas Arutr

    Com amigos desses quem precisa de inimigo?

  4. Comentou em 08/03/2008 Renato Santos Passos

    A julgar pela amostra, sua mãe produziu pensamentos marcantes.
    🙂
    Abração.

  5. Comentou em 08/03/2008 ubirajara sousa

    Esperar o quê de quem se presta a dar entrevista? Esperar o quê do jornalismo atual? Sinto muito!

  6. Comentou em 08/03/2008 Marco Antônio Pires LIma

    De fato, ‘off é the record’ é um acordo em que ambos combinam não publicar o que não for desejado, ou não revelar a fonte. Assombra-me que se justifique um comportamento assim. Quer dizer que se pode romper a palavra? O jornalismo pode ser isto? Mas como assim?
    Não é o que ensino para meus alunos. Se deve valer a luta pela transparência, pela palavra empenhada, pelo espírito público, pela regra, a lei justa, não me parece cabível dar ao jornalista esta concessão, este supremo direito. Em nome do que?
    No caso em questão, não se tratava de nada relacionado ao interesse público. Um juízo vulgar, uma frase de efeito que serviu somente para vender mais jornais: o escândalo!!
    É bem o tipo de jornalismo que pratica a revista Veja, que neste momento, justamente, é vigiada por todas as pessoas de bom senso neste país. Que equívoco, Weis…

  7. Comentou em 08/03/2008 Ivan Moraes

    Mas nao seria engracado se Lula desse uma entrevista pra Folha e dissesse ‘Mas ca pra nos, eu adoraria torcer o pescocinho do FHC’ seguido de ‘O excelentissimo ex-presidente do Brasil etc.’? Seria uma gracinha a chamada nos jornais: ‘Lula: Assassino em Serie’. Aconteceu um ‘ca-pra-nos’ aqui uma vez, o famoso ‘rima com luta’ que alguem disse a respeito de uma mulher de politico. No entanto, o ‘ca-pra-nos’ so significa ‘posso fofocar em paz?’. A quem interessa que os acessores de Sarney processam jornalistas? Nao eh muito pior? Ca pra nos e ca pra todos, de fofoca ja tou farto. Foi uma das razoes que me forcaram a parar de ler jornal.

  8. Comentou em 08/03/2008 Paulo de Tarso

    Quanta hipocrisia nessa justificativa para publicar um off! Falta de ética de jornalista agora recebe o nome de ‘interesse público’. Esse pessoal pensa que somos idiotas, que não percebemos que esse papinho de ‘interesse público’ significa interesse de causar crise sobre o nada para vender mais. Isso acontece aqui no Brasil e no resto do mundo. A cada dia que passa tenho mais nojo da imprensa. Há alguns anos uma jornalista cometeu um crime revelando o nome de um agente secreto e se refugiou na ‘ética’ para não revelar a fonte. Vários jornalistas saíram em defesa dela, inclusive no Brasil. Acredito que agora a adoção do estilo Mainardi vai ser comum daqui pra frente. Jornalistas sem escrúpulos publicarão um off, darão a desculpa esfarrapada do ‘interesse público’ e ainda chamarão o entrevistado de infantil e ingênuo.

  9. Comentou em 08/03/2008 Raimundo Fosca

    Parece irresistivel ao jornalista brasileiro a exaltacao ao vulgar. Ora bolas, a expressao colocada pela assessora – segundo dito – foi afastada de seu contexto. Na verdade, o comentario nao deveria sequer impressionar o profissional preocupado em discutir ideias. Mas nao sao todos elevados as alturas pela midia para garantir aos devotos uma boa visao do sacrificio? …ou talvez seja tudo exagero meu. Seria apenas despeito? Seria o Pulitzer!? Seria sua boa repercussao entre os colunistas brasileiros? Vai saber.

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