Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CÓDIGO ABERTO > Desativado

‘Não creio que pioramos’

Por Luiz Weis em 28/09/2007 | comentários

A menos que fatos futuros me obriguem a morder a língua, penso que a jornalista Tereza Cruvinel tem tudo para dar certo na direção da TV Pública em vias de ser criada.

Hoje, ao deixar a coluna política que pilotava na página 2 do Globo, ela escreveu a seguinte ‘Despedida’. Vale a pena ler pelas recordações, pelas idéias sobre imprensa e política, pela abordagem equilibrada do quadro presente – e pela sua percepção do que considera a ‘grande escola de jornalismo que é O Globo’.

‘Desta janela vi a passagem dos últimos 20 anos da história política contemporânea. Registrei, observei, tentei compreender e compartilhar a compreensão dos fatos que se sucederam: uma fieira luminosa de círios, uns sendo apagados pelos outros, marcando a trilha da nova democracia brasileira. Deixo este nobre espaço que O Globo me confiou para enfrentar um novo desafio profissional, a construção da rede pública de televisão. Quando comecei a escrever aqui, os tempos eram difíceis na política, mas, ainda que não pareça, hoje são melhores.Também por isso, no rito de passagem que esta última coluna expressa, a gratidão pelos ganhos e pelas realizações é maior que o sentimento de perda, próprio das separações. No jornalismo político vi a agonia da ditadura, seu estertor diante das palavras de ordem por anistia e liberdades democráticas. Na campanha das Diretas, a emergência do povo, que seria derrotado pelo Congresso na noite de 25 de abril de 1984. Estive ao lado do grande Timoneiro da Travessia, Ulysses Guimarães, na hora de seu choro. Pela democracia, jornalistas também podiam chorar. A redenção viria com o apoio popular à eleição indireta de Tancredo. “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.” Chico Buarque deu-nos o refrão cantado na Esplanada embandeirada, naquela noite de 15 de janeiro de 1985.

Uma nova perda viria com sua doença e morte, mas o sonho democrático era grande e forte. Avançamos no aprendizado da democracia com José Sarney, com a remoção do entulho autoritário, expressão esdrúxula para os mais jovens: restos institucionais da ditadura atravancando o caminho. Com Ulysses, a Constituinte erige o primado da liberdade e da cidadania. E, ainda que tenha produzido um texto equivocado em muitos pontos, deunos as tábuas da democracia, intocáveis nas suas cláusulas pétreas. Na curva, uma nova provação. O governo do primeiro presidente eleito traz a primeira decepção de natureza ética, propiciando o mais severo dos testes para as instituições da nova democracia: seu afastamento pelo impeachment, dentro da lei e da ordem. Fomos aprovados. A imprensa travara o bom combate. Um governo de transição e ampla coalizão como o de Itamar Franco cria as condições para a morte do dragão da inflação. O Plano Real nos leva aos oito anos com Fernando Henrique Cardoso, seu esforço para assegurar a estabilidade numa conjuntura de instabilidade externa. O tempo pede reformas do Estado, que elevam as tensões políticas.

O sistema político traz desafios para a governança, as mazelas políticas começam a aparecer, mas a marcha democrática segue. As instituições se consolidam e a liberdade de imprensa vige em pleno viço.

A eleição de Lula, por sua origem e trajetória, será mais que uma alternância no poder. Será prova de uma permeabilidade social e de uma disposição mudancista do povo brasileiro que surpreendeu o mundo. Neste quinto ano com Lula, a economia esbanja saúde, há um vento de crescimento, mas o que se destaca, e o que deve ficar como legado, é o investimento maciço no combate à pobreza, na redução da desigualdade social mais escandalosa que todos os escândalos. Os indicadores socioeconômicos alcançam suas melhores marcas históricas, num processo iniciado no governo anterior e acelerado com o aumento dos investimentos. A percepção dessas mudanças sociais vem sendo obscurecida pelo mau tempo na política. Com a dessacralização ética do PT no primeiro mandato e a repetição dos escândalos no segundo, atingindo sobretudo o Congresso, a política é jogada num descrédito ímpar depois da transição. A democracia representativa está em crise no mundo, embora isso não nos console nem deva atenuar as exigências. Não creio, apesar de tudo, que só tenhamos piorado na política. Nunca estivemos livres das mazelas da política.Elas já foram até maiores. As mudanças e transformações da sociedade é que melhoraram nossa percepção delas: a velocidade das comunicações combinada com a liberdade de informação arrancou as velhas cortinas do sistema de poder.

Os velhacos e as velhacarias são expostos. São fortes sintomas de que o sistema político está exausto, já não responde às necessidades. Por isso a discussão da reforma política teve sempre abrigo na coluna. Todo este desnudamento traz muita indignação, e isso é saudável. Propicia a busca de diagnósticos e de soluções. Por tudo, não creio que pioramos.

No trato diário dos problemas políticos, busquei sobretudo oferecer a mais correta interpretação dos fatos, oferecer elementos para que o leitor-cidadão forme sua opinião.

Devo ter cometido erros, mas creio ter feito um saldo maior de acertos.
Foi um tempo riquíssimo, irrepetível. Sou grata a todos que, nas Organizações Globo, proporcionaram-me tão privilegiado exercício do jornalismo. Pelos primeiros tempos, os de aprendizado para uma jovem repórter, à memória de Dr. Roberto Marinho e à de Evandro Carlos de Andrade. A Carlos Lemos, quando diretor em Brasília, pela persistência em manter-me na coluna. A João Roberto Marinho, pelo compromisso com o pluralismo, que assegurou minha longa permanência. A Rodolfo Fernandes, amigo antes de diretor de Redação, pelo estímulo, apoio e compreensão, sempre, inclusive na saída. A Alice Maria, pela experiência televisiva tardia na Globonews. Sou gratíssima a todos os leitores de todos os tempos. Aos muitos amigos que ganhei e levo comigo, e homenageio na pessoa ímpar de Jorge Moreno, que para cá me trouxe um dia. Boa sorte ao Ilimar Franco na coluna que fará aqui. Até sempre, a todos os colegas desta grande escola de jornalismo que é O Globo.’

P.S. E por falar em colunistas…

Salvo engano, a colunista Dora Kramer, do Estado, foi a única a criticar o comportamento da oposição no Senado, na derrubada da medida provisória que extinguiu a Secretária de Planejamento de Longo Prazo.

Depois de afirmar que o único vitorioso no episódio foi o senador Renan Calheiros, deixou registrado que a oposição o ataca no varejo, ‘mas acaba por sustentar no atacado, quando avaliza operações do seu interesse’.

Na mosca.

***

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  1. Comentou em 28/09/2007 Carlos N Mendes

    Renan Calheiros não é um dos fundadores do PSDB ? Já li muito em nossa imprensa, referindo-se à mensaleiros, a expressão ‘ex-petista’ (com o significado oculto ‘não esqueceremos de onde você veio’). Não vejo nenhum jornalista lembrar do tempo em que Rena era ‘honesto’, desculpe, ‘tucano’.

  2. Comentou em 28/09/2007 Octavio Hollemberg

    Sei, não. Esse discurso tem cara de Magdalena arrependida. Só espero que o Flanklin Martins, esse sim, figura com um passado irreprochável, em nome do pluralismo não tenha pisado no tomate ao indicar uma trotskista da falecida Convergência Socialista, facção do PT que desembocou no atual PSTU, partido que a exemplo do PSOL se transformou num repositório de radicais decepcionados e enfurecidos com o petismo pragmático. Temo isso porque não existe nada mais radical, chato e impertinente do que ex-mulher, ex-amante, ex-fumante, ex-comunista, ex-trotskista e, claro, ex-convergente socialista. Tem gente melhor no pedaço e, salvo engano meu, com muito mais experiência de televisão do que a Cruvinel, e para não ir muito longe cito um, seu amigo Paulo Markun, da TV Cultura de SP.

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