Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Não dá mais para esconder

Por Carlos Castilho em 06/05/2005 | comentários

Depois do magnata de mídia Rupert Murdoch, outro peso pesado do mundo dos negócios resolveu entrar de sola na crise na imprensa escrita norte-americana. Warren Buffet, o segundo homem mais rico do mundo depois de Bill Gates, disse esta semana à revista Fortune que a mídia impressa enfrenta uma séria crise e que seu futuro já não é mais apenas um problema dos jornalistas e executivos, mas de toda a sociedade.


‘A sustenação economica dos jornais está muito, mas muito próxima de um deterioro irreversível nos próximos 10 a 20 anos. Não vejo nada que seja capaz de reverter a queda na vendagem e na captação de publicidade’, afirmou Buffet na matéria de capa da Fortune (citação extraida do blog Follow the Media.


Depois dos números altamente preocupantes sobre queda de circulação e vendagem nos jornais norte-americanos (ver dados no blog Media Tidbits ) surgiram novos dados capazes de tirar o sono dos executivos da imprensa escrita. Jim Spanfeller, presidente e CEO da revista economica Forbes, disse à publicação B-to-B Online  que em dois anos o site online da revista terá mais publicidade do que a edição impressa.


E para não ficar falando daquela que está deixando de ser considerada a melhor imprensa do mundo, acaba de ser divulgada uma pesquisa feita na Noruega onde as pessoas já gastam mais tempo lendo notícias na Internet (33 minutos diários) do que nos jornais (30 minutos). Há cinco anos, as notícias online consumiam apenas 18 minutos por dia dos noruegueses enquanto os jornais dominavam tranquilamente com 35 minutos.


A soma de todas estas informações mostra claramente que uma era da comunicação está chegando o fim. Não há mais dúvidas sobre o ocaso do monopólio dos jornais na informação pública. O problema é o que fazer. Não dá para enterrar a cabeça na areia a fingir que nada está acontecendo. Os jornais são importantes demais na vida da sociedade para seus destinos serem deixados apenas nas mãos de seus donos e executivos.


Muitos podem ficar felizes com a sucessão de desgraças que atinge o chamado quarto poder mas isto não ajuda em nada a resolver o problema. Os jornais são peças essenciais para a população formar opinião e assumir valores, tanto quanto a Internet, a televisão, a rádio e o cinema. O fato da imprensa perder o monopolio na produção de informações não significa que ela tornou-se dispensável ou superflua. Muito pelo contrário. As pessoas dependem muita mais da informação hoje, do que há vinte ou trinta anos.


A crise dos jornais vai mudar o seu modelo de negócios porque o atual é insustentavel. O novo projeto de jornal ainda é uma grande incógnita, mas tudo indica que na mudança de paradigma, o leitor passará a ser um protagonista essencial e ativo. Isto torna o consumidor de informações tão responsável pelo futuro da imprensa quanto os profissionais que nela trabalham. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/05/2005 Luiz Valério da Silva

    Caro Carlos Castinho,

    Não vou comentar a crise vivida pela imprensa americana, mas sim a que afeta a imprensa tupiniquim. Assim como os poderes Executivo e Legislativo – este mais que aquele – a imprensa, chamada de quarto poder, vive uma preocupante crise de identidade e credibilidade.
    O motivo principal dessa situação é o fato de ela estar mais atrelada e mais preocupada em agradar as elites do que aos seus leitores/telespectadores. Há muito a prioridade dos veículos impressos e eletrônicos nacionais – a Rede Globo principalmente – deixou de ser o seu público leitor, que é quem os sustentam com a compra religiosa nas bancas e/ou através de assinaturas.
    O comprometimento com o poder – lembre-se do brilhante livro do jornalista Emiliano José, ‘Imprensa e Poder – ligações perigosas’ – leva a imprensa brasileira, por tabela, a se ver refém dos seus anunciantes. Estes, por sua vez, como num círculo vicioso, também estão atrelados aos poderosos com mandato ou não, financiando campanhas de políticos, seus atores, e cobrando desses, logo depois de eleitos e empossados, a contrapartida, o pagamento da fatura.
    Como se pode ver, a engrenagem é das mais complicadas e o resultado não poderia ser outro, se não este a que assistimos: a total falta de credibilidade da nossa imprensa .
    Os leitores, já ressabiados com tanta jogatina com a sua consciência, desenvolveu aos trancos e barrancos, ou a fórceps, como costumo dizer, um espírito crítico e já não se deixa enganar facilmente pela balela impressa de cada dia. Se os jornais não se reciclarem, se reprogamarem e começarem a tratar os leitores com o respeito que eles merecem, sua vida enquanto indústria estará seriamente ameaçada. Já não são mais os meios eletrônicos – TV e Internet – que são as ameaças. A principal e mais terrível ameaça é a incompetência dos próprios veículos, leia-se, dos seus gestores e proprietários.

    http://www.luizvalerio28.blogspot.com

  2. Comentou em 18/05/2005 Marco Maschio Chaga

    Castilho, lendo o resultado dessas pesquisas que apontam à crise do jornal, fico pensando que esta discussão pode ser paralela ao vem acontecendo com a literatura. Como instituição (e empresa) o jornal está sendo dissolvido por uma coletividade que não aceita apenas um sentido pleno e único. Esta coletividade quer fazer parte da construção deste sentido e isso instaura uma pluralidade de sentidos e interpretações que tem deixado muita gente tonta, como parece ser o caso dos magnatas da informação. Este caso é idêntico ao da literatura. Muitos professores continuam buscando a instituição literária e só encontram manifestações culturais desprovidas da totalidade da obra e de qualidade estética decadente (se comparada ao que era publicado no início do século XX), mas extremamente rica em agenciamentos coletivos, que signfica a troca do modelo ‘árvore’ pela planície, ou seja, o fim do organograma.

  3. Comentou em 06/05/2005 Mauro Malin

    Ainda não pude ler com calma o material desses big bosses sobre a crise dos jornais. Mas há dias ouvi comentário de um empresário brasileiro, não de mídia, mas com muita articulação. E a impressão dele é que de que, embora o modelo econômico e editorial hoje em vigor esteja de fato se aproximando de um xeque-mate, as pessoas que vivem disso terão dificuldade de perceber exatamente o que está acontecendo. Soa familiar a quem tem algum conhecimento de história? A pergunta do Castilho está perfeita: a discussão tem que ser sobre como construir a próxima etapa. Não há caminho, se faz caminho ao andar, como dizia o Antonio Machado. Então, da energia e do interesse de um número muito grande de pessoas vão nascer opções e possibilidades novas. Não basta dizer que há um papel para o jornal. Ninguém vai discordar, mas daí também não sai muita coisa. É preciso descobrir qual é. Na prática, como se dizia antigamente. Acho que vai ganhar a parada quem der um rumo para algo que já nasceu mas, em meio à barafunda, ainda não assumiu plenamente sua identidade, sua praticidade, sua obviedade. Que tal reler as Seis Propostas para o Novo Milênio, de Italo Calvino? Abs.

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