Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Não há roteiro fácil no debate sobre TV Pública

Por Carlos Castilho em 11/05/2007 | comentários

Estou escrevendo este post ainda sem conhecer o conteúdo da Carta de Brasília, mas sejam quais foram as resoluções finais, o Fórum Nacional sobre TVs Públicas deixou claro que o processo será bastante complicado e tumultuado, o que não é necessariamente sinônimo de fracasso.


É que são tantos e tão complexos os temas em jogo que é irrealista imaginar um consenso imediato. Se o Fórum tivesse que discutir apenas as diferenças entre o que é público e o que é estatal na televisão brasileira, ele já teria muito pano para manga. Mas acontece que esta questão coincide com o debate sobre a implantação da TV digital, o que coloca sobre a mesa uma questão ainda mais complexa porque envolve uma tecnologia que só os especialistas manejam.


Mas a complicação não para aí. O contexto do debate é afetado ainda por correntes de opinião dentro do governo Lula e percepções bastante diversificadas entre os demais protagonistas da reflexão coletiva: televisões comunitárias, emissoras universitárias e situações especiais como a da TV Cultura de São Paulo, que é controlada por uma fundação, da qual participa o governo paulista.


Em torno a tudo isto, circulam grupos de estudos da comunicação que procuram introduzir temas novos no debate sobre e TV pública, como preocupação com minorias, direito à comunicação, democratização do acesso à internet e por aí vai.


Esta combinação tão diversificada de percepções e interesses pode ser administrada de duas formas: uma vertical e outra horizontal. A primeira embute uma forte dose de dirigismo centralizador voltado para a obtenção de resultados rápidos. A segunda coloca a pressa em segundo plano em favor da busca de consensos num ambiente onde a diversidade é estimulada para permitir que novas alternativas possam levar a resultados mais sólidos.


Tanto uma como a outra têm pontos positivos e negativos. A solução vertical parece ser impulsionada pelo Ministro Franklin Martins, da Secretaria Especial de Comunicação, que procura criar o que classifica de TV pública federal, apoiada na fusão da Radiobrás com as TVEs do Rio de Janeiro e do Maranhão.


A lógica do Planalto impõe a busca de resoluções rápidas capazes de materializar resultados até 2010 porque os políticos e principalmente os ministros precisam apresentar realizações para não serem tachados de ineficientes. Mas a pressa aumenta a possibilidade de críticas ferozes da oposição, que teme os efeitos do peso político, econômico e principalmente do uso da maquina publica na montagem da emissora estatal. Portanto, são grandes as chances da discussão sobre TV pública seja contaminada pelo confronto entre governo e oposição.


A solução horizontal, que parece ser a preferida da equipe do ministro da Cultura Gilberto Gil, tem o mérito de permitir um mínimo de aprofundamento do debate numa questão tão complicada, onde julgamentos e decisões apressadas podem custar muito caro tanto em termos políticos como em dinheiro.


Mas isto tomará algum tempo durante o qual a estratégia de buscar consensos será submetida a um duro teste de paciência e perseverança, duas atitudes pouco comuns entre os políticos e governantes tupiniquins.


Seja qual for a estratégia que acabar prevalecendo, ela vai esbarrar  inevitavelmente na questão técnica da passagem de uma televisão analógica (a atual) para uma digital (a nova TV que começa a ser funcionar em dezembro em São Paulo). A migração digital obrigará os protagonistas a ingressar numa área que a maioria desconhece, como ficou evidente nos debates do Fórum.


Os engenheiros e especialistas tem que encontrar uma linguagem comum com os jornalistas, políticos, ativistas e acadêmicos, porque senão o teremos um debate esquizofrênico e que dificilmente chegará a algo positivo.


As decisões no âmbito técnico são muito complexas e fortemente influenciadas por interesses econômicos e políticos. É necessário que todos os protagonistas consigam contextualizar estes interesses para poder tomar a melhor decisão. Caso contrário corremos o risco de comprar uma tecnologia inadequada, ou melhor, comprar gato por lebre.


A experiência de assistir quatro dias de uma verdadeira avalancha de informações sobre a questão da TV pública me deu a certeza de que não há alternativa fácil. Todas elas são complicadas e cheias de riscos.

Se o ritmo for demasiado lento, seremos atropelados pela tecnologia porque a digitalização nas comunicações é irreversível. Se formos rápido demais, teremos uma televisão estatal, porque a sociedade civil não terá tempo para chegar a um acordo sobre qual o sistema que ela deseja e acabará superada pelo rolo compressor do governo. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/05/2007 Giovanni Giocondo

    A forma como o Sr. Carlos Castilho engloba as medidas tomadas pelo governo federal junto das necessidades de uma programação pública da TV brasileira nos mesmos moldes de Canais Institucionais de propriedade do estado, reflete, em âmbito geral, o desespero das redes de televisão privadas de nosso país, defensoras de gêneros e formatos ausentes de conteúdo e que determinam à população uma rotina diária de alienação programática.
    Disfarçada por telejornais que pouco se aprofundam acerca de assuntos de interesse público e canais alternativos, muitas vezes disponíveis apenas para quem possui TV a Cabo, transmissores de meros paliativos educacionais e entretenimento, as redes privadas continuam moldando sua programação em torno do interesse dos seus patrocinadores, fato este que sim, já é de conhecimento público.
    Sem agir em defesa do governo, mas em defesa do povo, revelo aqui minha preocupação pela não participação deste no advento da Nova TV Pública Brasileira. Entretanto, sou consumido pelo terror de pensar que, muito pior que isso, uma suposta contribuição de profissionais das grandes redes midiáticas nessa nova empreitada do governo possa continuar reproduzindo o que tanto combatemos com o debate pela inserção do Público na televisão:
    A ausência do caráter público, do interesse público, e, sobretudo, de um debate verdadeiramente público.

  2. Comentou em 14/05/2007 Carlos Alberto Recacho

    Carlos Castilho, assim como outros colegas, encontra chifre em cabeça de cavalo, ao admitir a oposição entre televisão pública e estatal. Ora, essa é a cortina de fumaça que os grandes meios de comunicação privados tentam jogar sobre esse debate. Então, uma televisão financiada pelos grandes capitalistas nacionais e estrangeiros, como a nossa, é permitida, mas uma televisão financiada pelo estado, a partir de uma proposta de programação elaborada com uma participação mais democrática dos setores sociais não pode. Uma televisão estatal não quer dizer do governo atual ou de vindouros. Na realidade, como disse um debatedor em um programa de uma televisão estatal hoje, essa cortina de fumaça do estatal x pública esconde o interesse das grandes redes de comunicação privadas em dividir o bolo de investimentos públicos em meios de comunicação, que hoje chega a 1, 5 bilhão de reais por ano. O resto é o choro daqueles que talvez tenham que correr atrás da bola se realmente se produzir uma programação que eleve o ‘gosto médio’ da população brasileira. Ainda bem que esses setores, inclusive o autor do texto, já perderam uma batalha para a maioria do povo brasileiro em novembro de 2006 e agora provavelmente vão perder uma segunda quando a televisão pública nacional começar a funcionar em dezembro de 2007.

  3. Comentou em 13/05/2007 jorge Cortás Sader Filho

    A questão é mesmo difícil. Se for observada do mesmo modo como são as Tvs Cultura e TVE, o resultado final não poderá ser melhor. As estações mencionadas são de longe as melhores da televisão brasileira, e são ditas por muitos ‘estatais’, quando não são, na verdade. O limite de definição deste ponto, ou seja, até onde vai uma organização estatal e outra voltada para a cultura verdadeira de um povo, é difícil de ser determinado. Parece que ainda é muito cedo ficar discutindo sem que as primeiras iniciativas do ministro Franklin Martis, cujo talento é reconhecido por todos, surjam na realidade, saindo dos planos. Todo cuidado é pouco, sob pena de acontecer o final desastroso que o articulista Carlos Castilho está prevendo: ‘se o ritmo for demasiado lento, seremos atropelados pela tecnologia’ e finaliza com séria advertência: ‘se o ritmo for rápido demais, teremos uma televisão estatal’ e esta hipótese seria lastimável, convenhamos.

  4. Comentou em 12/05/2007 Pedro Moura

    A migração digital é um grande fator de pressão, mas em outra ponta há a configuração jurídico-institucional dessas tvs cuja revisão é bem difícil numa perspectiva de reenquadramento para a nova realidade de uma Rede. Depende muito da relação o Governo Federal com os detentores das concessões; e isso vale também para uma agenda de investimento na tecnologia digital. O melhor caminho é ir o mais rápido possível, mas no ritmo em que a sociedade não seja excluída do debate e das decisões.

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