Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Nieman Reports procura um “norte” para o jornalismo

Por Carlos Castilho em 13/01/2009 | comentários

A conceituada revista acadêmica norte-americana Nieman Reports, editada pela Fundação Nieman, da Universidade Harvard, reuniu nada menos que 47 autores para tentar esboçar um novo “norte” para o jornalismo num painel que o Instituto Poynter, também norte-americano, classificou como essencial para entender a mudança de modelos em curso na imprensa mundial.


A complexidade e amplitude do tema, obviamente, só poderiam enquadrar-se no formato painel, já que seria inviável qualquer tentativa de produzir um estudo definitivo. A diversidade de pontos de vista expressados pelos 47 textos não permite uma conclusão final, mas fornece insumos valiosos para alimentar o debate sobre o futuro do jornalismo.


 


Melissa Ludtke, a editora e responsável pela versão online do trabalho, afirma que os impressos e a televisão estão sendo substituidos pela digitalização e pelos sistemas multimídia móveis da internet como veículos de transmissão de informações, da mesma forma que o automóvel substituiu a tração animal, há mais de um século.


 


Os textos variam desde uma bem humorada e nostálgica visão dos problemas da mídia impressa a partir da novela Black & White and Dead All Over, na qual o escritor John Darnton conta a história de um editor de jornal que se suicidou com a peça metálica pontiaguda usada para espetar os textos descartados na edição. O autor do texto, Steven Smith, foi editor da respeitada revista The Spokesman-Review e hoje publica o blog Still a Newspaper Man.


 


O texto mais comentado (os leitores podem opinar na página do estudo) foi o de Edward Roussel, editor do site do jornal inglês Daily Telegraph, que atribuiu a atual crise nas empresas jornalísticas à sua lentidão em aceitar que a internet mudou radicalmente a ecologia informativa da sociedade contemporânea. Segundo Roussel, a imprensa estava acomodada por conta dos altos lucros, não viu, ou não quis ver, as alterações provocadas pelas novas tecnologias e só começou a reagir quando o mercado financeiro passou a cobrar  mudanças. Mas aí já era tarde, porque em seguida aconteceu a crise das bolsas, o fantasma da recessão espantou os investidores e a transição, que poderia ter sido feita de forma tranquila,  ganhou ares dramáticos com demissões em massa e fechamento em série de jornais e revistas, bem como uma migração da publicidade rumo à internet.


 


Um dos textos mais instigantes de todo o informe é o escrito pelo neurocirurgião Kennetth Kosik, professor da Universidade da California, que mostra como o processo de produção de conhecimentos mudou radicalmente depois da internet. Kosik, que é diretor de um instituto de pesquisas sobre neurociência em Santa Barbara, California, mostra como o conhecimento individual, baseado em especialistas passou a conviver com o conhecimento coletivo, gerado por milhões de individuos.


 


O pesquisador parte de sua experiência médica para mostrar como doenças como a gripe estão sendo estudadas hoje também a partir de contribuições individuais — como é o caso do Google Flu Trends, uma ferramenta desenvolvida pelo mecanismo de buscas Google para identificar tendências na disseminação da doença nos Estados Unidos com base em dados e informações fornecidas por internautas. Kosik acha que a produção colaborativa de informações, como  é o caso da enciclopédia virtual Wikipédia, está assumindo um papel cada vez maior na formação do conhecimento humano, e que a imprensa deveria deixar de ver este fenômeno com desconfiança.


 


A diversidade de experiências e reflexões inseridas no estudo é tanta que um internauta inglês reclamou num comentário que a leitura de todos os artigos consumiu quase 36 horas. Outra característica relevante no especial do Nieman Reports é que ele, de alguma forma, rompe com a formatação e a postura clássicas das revistas acadêmicas convencionais ao valorizar a contribuição dos chamados practitioneers (pessoas com grande experiência prática mas sem titulação acadêmica) e ao se preocupar mais com oferecer dados para a reflexão coletiva do que buscar conclusões.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/01/2009 Renan Júnior Silvio Santos

    Sou estudante de Comunicação e Jornalismo e não tem como não aceitar que o surgimento da internet, veio de maneira, digamos assim, tentadora para todos nós em especial aos meios de comunicação, mídia em geral. A facilidade de expor dados, notícias on line, imagens etc, e impressionante. Mas não esqueçamos que em nosso país, por mais incrivel que pareça existe cidades que nem a luz elétrica ainda chegou, imagine acesso a um computador. Estudos revelam que mais de 45% da população brasileira ainda prefere ler o jornal impresso. Os incentivos dos governos em adotadar a inclusão digital está muito longe de acontecer, não é interessante para o mesmo que pessoas fiquem por dentro de tudo, seria complicado prestar esclarecimentos a pessoas esclarecidas. Não se enganem a internet é uma grande ferramenta de informação nos dias de hoje, mas ainda demorará muito para que a mesma substitua o nosso velho jornal impresso. Antes que me esqueça, perguntar não ofende, o serviço de Tv digital vai ou não acontecer? Estamos aqui na Bahia aguardando.

  2. Comentou em 14/01/2009 marcio varella

    os comentários dos leitores nas notícias, permitidos livremente em poucos sites, ampliam o universo do conhecimento daquela notícia muito mais do que ficar sabendo a opinião de autoridades sobre o assunto. graças à internet, o meio mais socializante da informação até hoje construído pelo homem, poderemos nos ver livres dos repórteres que fazem o lobby dos patrões e trabalham cada vez menos como jornalistas. é verdade: a mídia acordou tarde para a modernidade da internet. azar da mídia. sorte de quem tem um computador.

  3. Comentou em 14/01/2009 Ibsen Marques

    Concordo com o Jaime. Apesar do compartilhamento na obtenção do conhecimento dita pelo neurocirurgião, há uma enorme parcela da população morrendo de inanição, diarréia e AIDS no terceiro e quarto mundos. Muitos não têem nem água para lavar as mãos quem dirá um computador para obter conhecimento.

  4. Comentou em 14/01/2009 Jean Frederic Pluvinage

    O jornalismo 2.0, digital, interativo e participativo, já está sendo
    implantado no Brasil mesmo com a aparente falta de inclusão digital e
    interesse de leitura do povo brasileiro. O forte crescimento de Lan
    Houses mostra a vontade da sociedade de participar de redes sociais
    e se conectar com o mundo. Cabe ao jornalista descobrir como fazer
    este grupo crescente de internautas terem interesse em suas
    notícias. E na maioria das vezes isso envolve transformar o próprio
    site de notícias em uma rede social. É o caso do LePost organizado
    pelo Le Monde e o iReport da CNN.
    A natureza interativa do meio virtual é a origem desse paradigma da
    narrativa jornalística online.

  5. Comentou em 14/01/2009 Jaime Collier Coeli

    Pois é, o ‘gene egoista’ já se manifestou, mas sua aparição não exibirá nenhuma homogeneidade. No Brasil, ele ainda estará mesclado a uma luta entre os 30 milhões de letrados (que episodicamente leem algum jornal, um livro, ou assistem TV paga) e os 150 milhões que estão diretamente ligados ao radio de pilha ou a TV ‘gratuita’. A grande festa de libertação do conhecimento enfrenta uma barreira que leva a consequencias sérias na formação do capital humano e, consequentemente, a entraves sociais e políticos. Em suma, essa conversa é para ricos.

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