Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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“Ninguém discute hoje no Rio o que é a novidade das milícias”

Por Mauro Malin em 19/06/2007 | comentários

Eis a entrevista dada ontem (18/6) por José Cláudio Souza Alves.


Qual é a sua leitura dos últimos acontecimentos?


José Cláudio Souza Alves – Eu acho que aquela conjuntura que a gente abordou sofreu algumas alterações, mas em uma direção que eu acho que é a direção que eu já apontava. Você tem cada vez mais a aproximação em relação ao Pan-Americano, o governo do estado junto com o governo federal montou um modelo de segurança pública calcado em um esquema de repressão mesmo – que é um pouco continuidade, mais agressiva, do que existia anteriormente.


O problema básico da segurança pública no Rio de Janeiro é essa novidade da milícia, que é simplesmente a polícia que antes fazia toda uma estrutura oculta, sempre de forma ilegal e escondida, em termos de violência, e hoje parte para um esquema muito mais aberto, de concorrência mesmo em relação ao mercado do crime, da ilegalidade. Hoje, as milícias são isso. E é dessa novidade que o governo não dá conta mais. O governo atual não sabe mais como resolver o aprofundamento dessa relação da própria polícia, do aparato policial, com o crime organizado em si mesmo e de forma aberta.


Então, em cima do Pan, eles ditam uma política de confronto aberto, sobretudo em áreas onde se pode estabelecer esse confronto aberto. Que áreas são essas? São as áreas onde não se tem ligação com a Zona Sul, com a classe média vitimizada. Você tem a vitimização sobretudo de trabalhadores pobres em regiões periféricas.


O Complexo do Alemão nada mais é do que isso. São já três meses de conflito aberto, 23 mortos, 67 feridos, e essa política permanente de confronto ostensivo, dando continuidade à lógica de repressão. Mas sem solução do problema: não há solução.


Desdobramentos: luta entre e intra facções


Desdobramentos estão ocorrendo. Quem está no Comando Vermelho, cada vez mais pressionado pelos conflitos, está indo para outras favelas no Rio e provocando o quê? Provocando desarticulações anteriores e reformulações de espaços de poder dentro dessas comunidades. Foi o caso típico do Chapéu Mangueira, onde se teve um confronto de pessoas do Comando Vermelho, que estavam indo para o Chapéu Mangueira para fugir do confronto no Complexo do Alemão, e começaram a ter atitudes de agressividade e de abusos em relação à população do Chapéu Mangueira. Que é também do Comando Vermelho. Afrontando uma estrutura anterior de organização. Teve a disputa entre eles, eles se acertaram lá, houve todo um confronto lá, mas que não gerou conseqüências piores.


A meu ver, o que está havendo no tabuleiro hoje dos conflitos no Rio de Janeiro é isto: eles estão intensificando campanhas de repressão pesada em áreas mais pobres, o que, uma vez ou outra, vai dar reflexos em áreas que eles não querem – que são as áreas mais de classe média. Mas tudo isso tem a ver com a intensificação dessa lógica de repressão na segurança pública. Beneficia sobretudo a lógica do atual governo, que acha que essa é a forma, como uma certa classe média, uma população que é alimentada por esse noticiário – que a mídia também vive disso, da difusão e da divulgação dessa agenda de conflitos e de mortos, de assassinatos e de policiais mortos.


Isso virou uma lógica. O jornal O Globo chega a dizer que isso é melhor que pode ser feito. Do tipo: a polícia faz o melhor que ela pode e o melhor que ela pode é isso e isso é o que tem que ser feito. Esse é o discurso do jornal O Globo. Eles não colocam nada além desse noticiário permanente de confrontos permanentes. Ninguém discute hoje no Rio de Janeiro o que é a novidade das milícias – qual é o impacto disso na disputa do mercado ilegal do crime, do jogo do bicho, do transporte clandestino, da cobrança de taxas de segurança (que é disso que eles vivem também); são grupos de extermínio, estão envolvidos com tráfico de armas, de drogas.


Esse grande aparato que hoje controla algumas áreas no Rio de Janeiro também está diretamente vinculado à polícia. Ninguém coloca uma questão sobre isso, uma ou outra matéria aponta, mas, a meu ver, essa é que é a grande questão no Rio de Janeiro hoje. Agora o referencial são os confrontos. Enquanto tiver confronto aberto e a mídia noticiando isso, isso vira a grande agenda.


O uso do Caveirão todo mundo consente agora, porque permanentemente vai ser mostrada a utilização do Caveirão para liberar como se fossem áreas tomadas pelo tráfico. Então virou o discurso: “Vamos libertar! Somos libertadores de áreas do tráfico”. Mas além do tráfico também tem lá a milícia. É uma coisa meio surrealista, mas é isso.


A repressão em si e as manchetes em relação à repressão tomam conta hoje do noticiário e hoje se vive disso no Rio de Janeiro, praticamente. E o Pan-Americano vai intensificar isso, porque você tem que dar uma lógica de segurança absoluta, de controle absoluto sobre a cidade, principalmente nas áreas onde você tem o Pan-Americano. A meu ver isso perdura até o final do ano – pelo que eu estou vendo. Ou começa a desmontar a estrutura após o Pan. Ninguém vai além disso. Dramático é você assistir a isso. É uma espécie de consenso no arranjo todo para se manter essa discussão como sendo válida. É isso que hoje se mantém aqui no Rio de Janeiro.


(Transcrição de Tatiane Klein.)


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