Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Ninjas com J ou sem J?

Por Carlos Castilho em 16/08/2013 | comentários

O fenômeno NINJA entrou na agenda com ares de mais uma divergência entre a velha e a nova mídia. Dito assim pode chocar muita gente, mas para que se consiga entender a situação criada pelo grupo de ativistas da informação é preciso, primeiro, correr os riscos da simplificação para depois complicar.

O grupo Narrativas Independentes Jornalismo e Ação (NINJA) sacudiu uma abelheira e com isso desatou uma série de polêmicas, duas das quais tendem a monopolizar o debate. A primeira é se as ações do grupo podem ou não ser classificadas como jornalismo, enquanto a segunda está vinculada a questões partidárias, envolvendo uma suposta aliança com o Partido dos Trabalhadores.

A partidarização foi puxada pela revista Veja numa matéria em que junta desavenças pessoais com financiamentos, visando desqualificar os ninjas ao apresentá-los como protegidos da Petrobras e, consequentemente, seguidores da estratégia eleitoral do partido do governo. A revista tem todo o direito de arrumar os fatos do jeito que bem entender, só não pode é usar sua condição de mídia jornalística para apresentar sua versão como expressão da verdade plena.

A politização do fenômeno NINJA foi inevitável devido ao clima pré-eleitoral reinante no país. Coincidência ou não, o fato é que o PSDB usou a matéria da Veja para justificar um pedido de esclarecimentos ao governo e à Petrobras, antecipando a possível convocação de mais uma CPI. O fato de a ação dos ninjas ter sido partidarizada também não deve assustar ninguém, porque num ambiente eleitoral é quase impossível qualquer fato relevante ficar isento de algum tipo de manipulação política.

Mas o que preocupa é a possível mistura entre uma politização, lamentável mas inevitável, e o debate sobre o caráter jornalístico ou não da proposta do grupo NINJA. Aqui entram em cena questões ainda pouco discutidas e que são uma consequência direta das modificações provocadas pelas novas tecnologias de informação e comunicação (TICs) na atividade jornalística. Estamos deixando o espaço da simplificação para entrar na esfera da complexidade.

A internet e a digitalização provocaram o surgimento de um fenômeno de abundância informativa em contraste com a era da escassez de informações caracterizada pelas limitações impostas pelas plataformas materiais para transmissão de dados. No jornalismo isso se refletiu na avalancha noticiosa que, aliada às tecnologias digitais, tirou dos jornalistas o controle do fluxo de notícias.

Na era da escassez informativa, o processo de edição noticiosa era fundamental porque o número de canais de informação (jornais, revistas, TV etc.) era reduzido, bem como o espaço disponível para notícias em cada um deles era limitado por questões materiais. A edição procurava compactar o máximo possível os conteúdos, conferir-lhes o máximo de objetividade e credibilidade porque o público não tinha muitas opções de escolha em matéria de apresentação dos fatos, dados e eventos.

Na era da abundância informativa tudo isso muda. Os jornalistas já não podem dar mais conta da edição de tudo o que ingressa no ambiente informativo digital ao mesmo tempo em que surgem novos protagonistas que poderiam ser chamados de praticantes do jornalismo, já que as ferramentas antes exclusivas dos profissionais estão hoje ao acesso de milhões de pessoas sem diploma de curso superior em jornalismo.

A mudança no contexto informativo mudou as regras da edição. Ela deixa de ser um pacote fechado, a notícia publicada em papel , no rádio ou TV, para ser uma oferta diversificada. O jornalista passa a ser uma espécie de curador da notícia ao oferecer ao leitor varias opções informativas. Não dá para dizer que a edição convencional é melhor ou pior do que a curadoria jornalística. São simplesmente diferentes porque atendem a contextos diferentes, fruto das consequências sociais e econômicas da evolução tecnológica.

Os ninjas são praticantes de atos jornalísticose, por consequência, protagonistas do novo conceito de oferta noticiosa baseada na avalancha informativa. Eles não fazem, e nem podem fazer, a edição convencional porque lidam com uma quantidade muito superior à disponível por uma redação convencional; porque recebem vídeos, fotos e informações de centenas de outros praticantes do jornalismo. O que vai para o público são conteúdos brutos, sem edição convencional, mas que atraíram o público justamente porque não passaram pelo filtro de profissionais cuja percepção da realidade social acabou distorcida pelas exigências industriais das corporações onde trabalham.

A grande inovação dos ninjas está na diversificação das notícias oferecidas ao público e não necessariamente na sua qualidade técnica ou na certificação de credibilidade. A avalancha informativa aumentou a complexidade do ambiente informativo, o que torna inevitável uma relativização nos posicionamentos contra e a favor e nas avaliações de certo ou errado.

O uso da palavra jornalismo na sigla NINJA é correto não porque isso signifique que o material divulgado seja a expressão da verdade absoluta, mas porque contribui para a ampliar a variedade das notícias que o público usa para formar suas percepções e conhecimentos. Os pesquisadores da complexidade informativa já comprovaram que quanto mais variados forem os insumos informativos, maior a qualidade do processo de geração de conhecimento coletivo, o chamado capital social, e menor a chance de sectarismos e atitudes xenófobas.

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