Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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No que pode dar a cúpula

Por Luiz Weis em 12/05/2005 | comentários

De duas, uma: ou a cúpula árabe-sul-americana terá importância efetiva na ordem das coisas, produzindo consequências nos centros mundiais de decisão, ou acabará arquivada na já transbordante pasta dos exercícios de retórica cujos participantes imaginam que as suas palavras movem montanhas nas relações internacionais.

O governo brasileiro obviamente torce pela primeira hipótese, pois foi para isso que trouxe a Brasília três dezenas de autoridades árabes e dos 11 países vizinhos. Mas, nesse caso, não se iluda.

Porque então terá importância também a adesão brasileira à visão árabe das tragédias do Oriente Médio — o conflito israelense-palestino e a ocupação do Iraque, uma coisa e outra centradas no papel dos Estados Unidos.

Pode o presidente Lula afirmar e reiterar que nunca negou a “necessidade” da existência de Israel — o que é pura verdade.

E pode-se não endossar o estridente manifesto das maiores organizações judaicas do país, intitulado “Terror, não”, acusando o governo de importar “uma guerra que não é nossa (sic)” — um ponto de vista que, diria o ministro Amorim, cada um interprete como quiser.

Mas o fato é que, desde 1976, no auge da diplomacia do “pragmatismo responsável” do general Geisel e do chanceler Azeredo da Silveira, quando o Brasil votou a favor da ONU da equiparação do sionismo a “uma forma de racismo”, nunca um governo brasileiro somou tanto com os árabes.

(A resolução da ONU, a propósito, foi anulada anos depois e o Brasil repudiou o voto dado.)

Assim como é fútil discutir se foi o acaso ou a intenção que fez os portugueses arribarem na Ilha de Santa Cruz, em 1500, pouco importa saber se o chanceler Amorim não conseguiu — se é que tentou — persuadir os convidados de além-mar a não fazerem discursos antiisraelenses e antiamericanos no salão nobre do Blue Tree Park Hotel, em Brasília.

Ou se imaginou que a declaração final do evento poderia conter apenas referências desidratadas, se tanto, como seria melhor para o governo, aos padecimentos de palestinos e iraquianos.

O ponto é que vale o que está escrito — e assinado: o Brasil se junta a todos quantos consideram que uma coisas são as condenáveis “operações terroristas que têm como alvo os civis, a infra-estrutura e o processo democrático” (tradução: os atentados suicidas no Iraque), outra coisa é “o direito dos Estados e povos de resistir à ocupação estrangeira” (tradução: os atentados suicidas em Israel).

Pode-se aprovar ou reprovar essa distinção. O que não se pode é assinar o papel em que está redigida, olhar para o lado e fingir que não aconteceu nada. A menos, repito, que se torça para que amanhã ou depois o papel não valha a tinta que se gastou para imprimí-lo.

No fundo, duas ordens de questões estão em jogo: a do mérito e da conveniência.

Começo pela conveniência. Antigo como os Estados-nações é o princípio do realismo, por oposição ao do idealismo, nas relações entre eles. Manda o realismo fazer a política externa que mais servir aos interesses e aos valores nacionais — nessa ordem — ficando subentendido que em caso de colisão entre eles, prevalecem os primeiros.

Pois bem. O debate em torno da diplomacia do governo Lula, que a Declaração de Brasília elevou à enésima potência, antepõe os que a consideram realista (adequada às necessidades do país) aos que a consideram irrealista (prejudicial). O campo do jogo é um só.

Com as limitações decorrentes da ditadura militar de então, o mesmo se discutiu quando Geisel deu sucessivas caneladas nos americanos, principalmente com a assinatura do faraônico acordo nuclear com a Alemanha e com a ruptura do acordo militar Brasil-Estados Unidos.

Em outras palavras, o que se pergunta é se é vantajoso, oportuno — enfim, realista — chuchar a onça americana com vara curta, agregando o Oriente Médio, onde Washington se atolou até o pescoço, fazendo de Israel o seu protetorado e invadindo o Iraque, ao não desprezível contencioso econômico (em sentido amplo) entre os dois países.

Com a agravante de que os demais itens da pauta de atritos dizem respeito direto a problemas do desenvolvimento nacional, enquanto aquele outro representaria, segundo os críticos, uma “importação” contraproducente.

O governo sustenta que um país do porte do Brasil merece um lugar à mesa do mais importante — depois do Iraque, em tese — colegiado político do mundo. “O mundo de 2005 já não é o de 1945”, argumenta Lula.

Os críticos replicam que é muita areia para o nosso caminhãozinho, porque, como membro fixo do CS, o Brasil terá que tomar partido em relação a “guerras que não são nossas”, para parafrasear o protesto judaico.

Lembram que o Chile, que se não chega a ter com os EUA a “relação carnal” de que falava o argentino Menem se dá muito bem com los gringos, precisou retirar o seu embaixador na ONU, porque, da cadeira transitória de seu país no CS, votou contra a unilateral decisão bushista de invadir o Iraque.

O governo treplica com a aposta na “nova geografia política e comercial do mundo” de que Lula fala aos quatro ventos — ou seja, na possibilidade de os chamados BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), agindo em sintonia, mudarem a relação de forças no mundo unipolar de hoje.

De acordo com essa rationale, cedo ou tarde o colosso americano terá que fazer a monumental concessão de mostrar o que Thomas Jefferson chamava “um respeito decente pelas opiniões da humanidade”.

Como não poderia deixar de ser, os três principais jornais brasileiros trataram dessas questões nos seus editoriais de hoje sobre os resultados da cúpula.

Para a Folha de S.Paulo, o evento “foi uma bravata diplomática que nada acrescentou à política externa brasileira”. Com a mesma contundência, acrescentou: “O Brasil patrocinou mais um happening em sua campanha (por um lugar no CS). Infelizmente, essa não é a primeira vez que o Brasil abre mão de posições justas e equilibradas (sobre o Oriente Médio) para servir às suas pretensões na ONU.”

O Estado de S.Paulo disse de saída que “o Brasil só teve prejuízos”. E disparou: “O encontro não só não agregou qualquer coisa de valioso ao patrimônio diplomático brasileiro, como ainda exibiu aos interlocutores estrangeiros que de fato contam o constrangedor papel de mula dos interesses árabes que o país acabou desempenhando.”

O Globo, mais moderado, lembrou que “não seria razoável imaginar um documento redigido com a participação da Síria, de palestinos, de árabes em geral e da Venezuela de Hugo Chávez que não criasse percalços diplomáticos”. Tudo é uma questão de custo e benefício, refletiu o jornal. “Por enquanto, os custos são visíveis. Mas será preciso esperar pelos benefícios.”

Agora, saindo da discussão sobre o tamanho do cacife brasileiro para se envolver no lamaçal do Oriente Médio — sempre a partir da premissa de que também em diplomacia não existe almoço grátis — vamos à questão de mérito.

Desde o início da segunda intifada, em fins de 2000, cada vez que os palestinos aprontavam em Israel e os israelenses na Palestina — estes, registre-se, deixando ao longo do tempo mais que o triplo de mortos e destruição material incomparável — o governo brasileiro deplorava protocolarmente as violências recíprocas, exortando as partes a negociar uma solução justa para o seu conflito.

Mas o Brasil nunca se viu na contingência de tomar uma posição inequívoca sobre o que é terrorismo e o que não é, ainda mais sob a luz dos holofotes. Dois pontos são pacíficos: ações armadas contra civis são terrorismo. Ações contra ocupantes militares são legítimas manifestações de resistência — e a ONU já aprovou mais de uma resolução declarando ilegal a ocupação israelense resultante de sua vitória na guerra de 1967.

Mas o que seriam ações armadas contra ocupantes civis, como os colonos judeus na Cisjordânia e Gaza? E o que seriam ações armadas contra militares judeus em Israel? Este filme já passou em mais de um lugar.

Um de uma infinidade de exemplos: na então chamada África Oriental Britânica, a potência colonial pôs a prêmio a cabeça do líder dos guerrilheiros mau-mau que matava militares e civis britânicos em nome da independência nacional. Com a descolonização, o “terrorista” Jomo Kennyata não só deu o sobrenome ao novo país como ele próprio chegou a ser condecorado — pela Coroa britânica.

Por isso já se disse que aquele que para uns é terrorista para outros é um combatente da liberdade. Ao que cabe acrescentar que o terrorista de hoje pode ser o estadista de amanhã.

Sem falar que Israel teve dois primeiros-ministros (Menahem Begin e Ytzhak Shamir) que estavam na lista-negra do ocupante britânico, tendo sido o segundo condenado à morte por terrorismo). Mesmo os judeus que os combateram — como o primeiro premiê israelense David ben-Gurion — discordavam de seus métodos não por motivos humanitários, mas porque entendiam que eram um estorvo para a criação do novo Estado.

É rigorosamente a posição dos chamados moderados árabes, a começar do presidente palestino Mahmoud Abbas, em relação aos movimentos radicais Hamas, Jihad Islâmica e Hezbollah.

Se a questão fosse fácil — e não é quando se sai do indiscutível, como é o caso da Al-Qaeda e similares — o secretário geral da ONU, Kofi Annan, não estaria tentando há tempos promover uma conferência internacional para definir de uma vez por todas o que é terrorismo.

Mas as relações internacionais — sobretudo depois que os Estados Unidos mandaram às favas o multilateralismo corporificado na ONU — se guiam menos por definições do que “pela boca de um fuzil”, como diria Mao-tsé Tung. Ou, mais civilizadamente, pelos recursos de poder, bélicos ou não, das nações envolvidas, — entre eles, a pressão política e a propaganda.

Desse ângulo, faz sentido o estardalhaço das organizações judaicas brasileiras contra os signatários da Declaração de Brasília que teriam estabelecido uma diferença entre “terrorismo bom” e “terrorismo mau”.

A partir daí, o formidável lobby judaico nos Estados Unidos terá mais uma coisa do que se ocupar, reforçando os possíveis efeitos da sensação de ter sido levada na conversa que deve estar experimentando a secretária de Estado Condoleezza Rice.

Ela ouviu do chanceler Celso Amorim que a economia, a cultura e as relações globais, não a Palestina ou o Oriente Médio, seriam o prato de resistência do cardápio da cúpula — e o ponto forte do seu texto final. Ela teria recebido ainda a promessa de que o documento prestaria a devida homenagem à democracia.

Mas as reações de Washington fazem parte do capítulo conveniência desta pensata. Da perspectiva do mérito, é preciso levar em conta outro dado. Jamais uma organização judaica de um país criticará o governo por importar “uma guerra que não é nossa” se essa “guerra” consistisse de ações em curso em qualquer parte do mundo passíveis de serem consideradas “anti-semitas”.

Hipótese: se o documento de conclusão de uma conferência internacional em Brasília em 2003 condenasse implicitamente as declarações à época recentes do então primeiro-ministro malaio Mahatir Muhammad sobre o “poder mundial dos judeus”, nenhuma federação israelita diria que, ao subscrever o texto, o Brasil importou uma guerra alheia.

Ao contrário, aplaudiriam o governo — com razão. A guerra contra a opressão e a intolerância não deveria conhecer fronteiras.

Guerra “que não é nossa”, pelo visto, é aquela em que o “nosso” lado está por cima e pressionado pela comunidade internacional a deixar de sonegar ao adversário o que quer para si: um Estado reconhecido, íntegro e viável, com fronteiras incontroversas e uma capital de sua escolha, vivendo em paz, segurança e harmonia com os vizinhos.

Na imprensa, judeus (e gentios) criticaram ainda a declaração por não ter dado a barretada de praxe à democracia, criticando-a, ao mesmo tempo, por fazer referência aos direitos humanos. Ora, não se pode comer o bolo e guardá-lo.

Os países árabes são em geral governados por autocratas e o seu retrospecto em matéria de direitos humanos é antes uma folha corrida do que um currículo. Para não ser hipócrita, o documento não deveria falar nem em democracia nem em direitos. Mas não é justo culpar os autores por mencionar um e omitir outro desses conceitos.

Em suma, se este artigo tiver alguma valia para tal, faça o que mandou o chanceler Amorim, interpretando como quiser se a cúpula foi o “golaço” do governo que pareceu à colunista Eliane Cantanhede, da Folha, ou o happening “das Arábias” condenado pelo mesmo jornal na mesma página — ou qualquer coisa entre esses extremos.

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