Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Nos bastidores do contrato do metrô

Por Luiz Weis em 27/01/2007 | comentários

Estranhas decisões são tomadas no calor das noites de fechamento de um jornal.


Quem edita a primeira página da Folha, por exemplo, resolveu ontem que não valia a pena dar ali nem uma chamadeta para a importante revelação trazida pelo repórter Fábio Amato, da Agência Folha em São José dos Campos – importante o suficiente para ser a principal matéria do caderno Cotidiano da edição de hoje.


Simples assim: na segunda-feira passada, o ex-governador Geraldo Alckmin disse que o modelo de contrato turn-key (chaves na mão) da Companhia do Metrô com o consórcio vencedor da licitação para construir a Linha Amarela (4) da rede foi uma ‘exigência do Banco Mundial’ (Bird), que financia 22,5% dos cerca de R$ 2 bilhões que custa a empreitada. Depois amenizou, admitindo que possa ter sido apenas recomendação.


Nesse modelo, o contratante – União, Estado ou município – paga um fixo pelo serviço, e a obrigação da contratada é entregá-lo em ordem no prazo certo, fazendo o que achar necessário para isso. A responsabilidade pela fiscalização da obra é da própria contratada.


O contrato virou notícia depois do desabamento do túnel da futura estação Pinheiros da linha. Segundo os críticos, o modelo, embora isente o contratante do risco – ou melhor, da rotina – de pagar acréscimos demandados pela contratada, praticamente impede que o poder público acompanhe o andamento do serviço, a tempo, eventualmente, de prevenir trágicos acidentes como o que traumatizou São Paulo há duas semanas.


Pois bem. O repórter da Folha fez o óbvio ululante – que, nem por isso, a mídia faz com a frequência necessária. Foi checar com o Banco Mundial se Alckmin dissera a verdade.


Foi informado – e informou ao leitor – que a verdade seria outra.


Jorge Rebelo, diretor do banco para o projeto da Linha Amarela, negou que a instituição tenha sugerido, muito menos exigido, aquela forma de contrato. O modelo foi definido de comum acordo ‘por todos os envolvidos’, afirmou Rebelo em e-mail ao repórter, porque seria ‘o mais apropriado’.


Se esses foram os fatos, o ex-governador não pode alegar que havia uma situação de ‘dá ou desce’ – dinheiro do Bird, só com contrato turn-key. No mínimo, portanto, o Estado é co-responsável pela escolha, a que não foi coagido, e por todas as consequências que dela pudessem resultar.


O jornal não conseguiu falar com Alckmin, que acabou de viajar para uma temporada de estudos nos Estados Unidos, a tempo de incluir na edição de hoje o que ele tivesse a dizer do desmentido do diretor do Banco Mundial.


Pelo visto, há muito ainda a escavar até se descer aos bastidores desse polêmico contrato. E, nesse percurso, haverá muita notícia merecedora da primeira página dos jornais.


***


Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/01/2007 Marnei Fernando

    Cadê as manchetes sobre o caso Raul Jungmann? Sobre os 500.000 doados pela fapesp para o FHC? E a manchete da viagem do Alckmin para os EUA? E as manchetes sobre o desmentido banco mundial, sobre a mentira do Alckmin? Viu como esse fato acima é apenas mais um que vai ser esquecido pela mídia?

  2. Comentou em 29/01/2007 Marnei Fernando

    Por favos Sr. Weis, eu agradeceria um comentário seu ao meu post anterior sobre a retirada de parte de meu comentário… Não inventei nada… A denúncia existe ou não? pelo que eu saiba, ela existe e tem consistência… Não usei palavrões… portanto se foi suprimida, que seja explicada a razão de tal procedimento… Por favor.

  3. Comentou em 29/01/2007 Marnei Fernando

    Gostaria de entender por que o senhor Weis suprimiu do meu texto anterior o fato de que o Deputado Jungmann está sendo alvo de investigação por denúncia de formação de quadrilha, acusado de desviar mais de R$ 30.000.000 do Incra? e que faria parte dessa quadrilha a esposa do jornalista Ricardo Noblat? Por que a diferença de tratamento entre denúncias feitas para membros do governo e membros da oposição e josnalistas?

  4. Comentou em 29/01/2007 Lica Cintra

    O que dá para perceber é que todo mundo está tirando o corpo fora, ninguém quer asresponsabilizar pelo contrato.

  5. Comentou em 29/01/2007 Marnei Fernando

    O conteúdo do dossiê… As 69 cpis que nunca foram instaladas na gestão Alckmin… A CPI do metrô que acabou de ser barrada pelo atual governo Serra… O aumento de 89,9% nos salários dos deputados paulistas aprovado pelo Serra… A fraude nas eleições de Alagoas vencidas por um tucano… Um avião cheio de droga apreendido em Goiás de um candidato tucano a deputado… As privatizações criminosas do FHC… A pousada que pertence a um ex vereador do PFL que foi rastreada nos dólares para compra do dossiê… O Abel Pereira que sumiu da mídia e continua sendo investigado na máfia dos sanguessugas/Serra… […] Cadê essas manchetes??? o gato comeu?

  6. Comentou em 29/01/2007 Apolonio Silva

    Weis dá mais um passo na reconstrução da projeção de seu ‘esqueleto’ simbólico para seu público. Depois daquela verdadeira desgraceira arreganhada que forams seus comentários sobre o affair Cicarelli, Weis trata de por as barbas de molho e fazer aquele arrozinho-com-feijão que o petismo aplaude. Taí uma verdaderia receita de se ficar com pelo menos com o nariz acima do nível da fossa, de acordo com o nosso somelier Weis: Pincele temas que levantem a bola para a militância chutar – pode ser algo como a ditadura militar, ou qualquer outro desses ícones fundamentais para nossa esquerda – faça isso que eles perdoam suas Cicarellis; Tangencie ou deixe azeitadas suposições que apenas confirmem pontos de vistas que eles já tem: Narciso acha feio o que não é espelho!, e além disso, o venerável público vai achar que a repetição de slogans é justamente a confirmação daquilo que acreditam – portanto, a mera repetição de mentiras na intenção de transformá-las em verdades é, antes de tudo, um estado mental; Evite sair desses temas – olhem para Weis. É evidente que a estratégia é limitadíssima, mas se funciona para seu público, qual é o problema? Para se fazer sucesso, é mais importante ser oco e funcionar como caixa de ressonância, do que propriamente exibir personalidade e independência. Com Cicarelli Weis foi ele mesmo. Com os temas petralhas, ganha o pão de cada dia. Cest la vie…

  7. Comentou em 29/01/2007 Kleber Carvalho

    O jornal ‘Folha’ não quer se indispor com o ex-governador , afinal ele é do mesmo partido do atual , e não fica bem criar atritos entre os tucanos.

  8. Comentou em 29/01/2007 Marcio Flizikowski

    Pior do que não destacar a ´versão´ de Alckmin como falsa, é também não buscar a atrocidade e absurdo que o famoso contrato turn-key representa.
    O turn-key não significa que o governo não pode fiscalizar. O governo deve fiscalizar sim e sempre. O objetivo do turn-key é impedir que sejam feitas adições à obra que tornam nebulosa a contratação. Mas o estado tem a obrigação de verificar se a obra está sendo realizada conforme as especificações do projeto básico da licitação e se todos os procedimentos de segurança são adotados.

  9. Comentou em 29/01/2007 Marnei Fernando

    Já faz muito tempo que existem fatos em abundância de notícias escandalosas merecedoras das primeiras páginas dos jornais vindas da ala político oposicionista tucana e pefelista… Essa é apenas mais uma que será sorrateiramente escondida do grande público.

  10. Comentou em 28/01/2007 João Carlos Lopes Lopes

    Primeira página dos jornais tendenciosos politicamente, nunca mais
    veremos notícias sobre responsabilidades dos governos atual e ante-
    rior. Alguma matéria escondida no interior pode ser.

  11. Comentou em 28/01/2007 Miguel do Rosario

    pois é, weis, uma pena essa atitude da imprensa paulista, que só confirma o que muitos leitores
    apontavam, e pelo que, voce sabe, foram ofendidos ou etiquetados, mesmo discriminados,
    muitas vezes mesmo neste espaço.

  12. Comentou em 28/01/2007 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Tomo a liberdade de postar aquium projeto de Lei para discusão:Art. 1) Todos os relatórios, inquéritos sigilosos, anotações, cadastros, ordens de serviço, prontuários médicos de prisioneiros ou suspeitos, etc… produzidos pelos órgãos civis e militares encarregados da repressão no período 1964 a 1988 ficarão sob a custódia da Secretaria Nacional de Direitos Humanos;Art. 2) Os servidores civis e militares, da ativa ou aposentados, que tiverem custódia privada ou pública de quaisquer documentos referidos no item anterior, ficam obrigados, independentemente de qualquer intimação, a entrega-luz à Secretaria Nacional de Direitos Humanos no prazo de 30 dias a contar da publicação desta Lei;Art. 3) Os servidores civis e militares, da ativa ou aposentados, que não cumprirem o prazo acima prescrito, que destruírem ou adulterarem quaisquer documentos referidos no art. 1 que estejam em seu poder, perderão seus cargos, aposentadorias e quaisquer outros benefícios por ordem do Secretário Nacional de Direitos Humanos proferida em Inquérito Administrativo aberto com a finalidade de apurar sua responsabilidade;Art. 4) Todas as disposições em contrário ficam revogadas, também fica revogada a Lei de Anistia em relação aos crimes cometidos por civis e militares encarregados da repressão no período referido no art. 1 desta.

  13. Comentou em 27/01/2007 Ivan Moraes

    ‘modelo foi definido de comum acordo ‘por todos os envolvidos’, afirmou Rebelo em e-mail ao repórter, porque seria ‘o mais apropriado”: ah, bom, esclarece muito, o contrato entao foi meramente uma ‘conspiracao’ de circumstancias. O contrato caiu no lugar onde esta por causa da gravidade terrestre! Quem nao sabe a traducao de strong-arming continua feliz, mas quem conhece provavelmente ja leu ‘As veias abertas da America Latina’, e sabe que contratos industriais e comerciais internacionais atravez dos seculos em sua maioria colocam colonias em desvantagem. Pra mim ja esta esclarecido o suficiente. QUanto aa porcentagem do lucro da operacao do metro cedida aa construtora, a Folha e o Estadao ja estao em corrida desenfreada pra saberem vai chegar a esse assunto primeiro?

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