Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Nós e eles – e a mídia

Por Luiz Weis em 06/11/2007 | comentários

Uma reportagem da jornalista Eliane Cantanhêde na Folha de hoje me faz pensar que a imprensa se ocupa menos do que devia de uma feia realidade nacional. Embora não seja exclusivamente nacional e já tenha sido pior no passado, é um dos divisores de águas entre o Brasil e os países socialmente avançados, com os quais gostaríamos de nos parecer.

A realidade são as injustificáveis diferenças entre nós e eles. Nós somos nós, a população. Eles são a elite do poder – a estatocracia.

Para evitar mal-entendidos: não me conto entre os defensores do Estado mínimo e me conto entre os defensores da existência de um robusto corpo de servidores públicos topo de linha, não menos bem pagos e respeitados do que os seus semelhantes no setor privado.

Isto posto, as diferenças entre nós e eles podem até embutir uma questão de vida ou morte.

Eliane Cantanhêde descobriu que o Campo de Marte, em São Paulo, de onde levantou vôo o Learjet 35 que instantes depois causaria a morte de seus dois pilotos e de seis moradores das vizinhanças, “é proibido para aeronaves iguais às que a Aeronáutica usa para transporte de ministros e outras autoridades federais”.

A jornalista ouviu de um brigadeiro que “há um rigor maior [na segurança de vôo] para as autoridades, e os limites e parâmetros para permitir vôos e decolagens são muito mais restritivos.”

Vá contar isso a um escandinavo, ou mesmo a um alemão, para ver como arregalariam os seus olhos azuis.

É muito pior do que os ministros conhecerem só de ouvir falar o que se passa nos aeroportos brasileiros porque eles só voam nos jatinhos da FAB. E como voam!, mostrou o Globo de domingo.

E vejam só o argumento para a mordomia salva-vidas que impede suas excelências de usar aeroportos como o de Marte, na capital paulista:

Um dos motivos da proibição é que os jatos do governo não tem reversor, equipamento que auxilia a frenagem em pistas curtas. E não tem porque encarece e aumenta o peso do avião.

Pois eu, contribuinte, não protestaria se soubesse que um farelo dos meus impostos ajuda a pagar a conta de equipamentos do gênero para a parte da frota da FAB que não os tem.

Se algum jornal teimasse de querer pautar, apurar e publicar todo dia uma amostra das diferenças entre nós e eles, como essa, não correria o risco de ficar com um espaço em branco. E quem sabe, apenas quem sabe, depois de algum tempo, diminuiria o abismo entre os mais iguais que os iguais e nós outros, meros iguais.

P.S. O terceiro mandato e as segundas intenções

Me ocorreu uma hipótese para a atitude daqueles setores da mídia que ficam enchendo a bola do factóide da re-reeleição do presidente Lula – digam ele e os seus quantas vezes quiserem que a idéia é uma “insensatez pura”, “sarna para se coçar” [Lula] e “fora de qualquer padrão democrático” [Jaques Wagner, o governador petista da Bahia] só para citar o que está nos jornais de hoje.

Wagner, por sinal, foi mais longe. “Se houver qualquer movimento nesse sentido, eu me insurgiria contra”, afirmou [não se dando conta de que ninguém se insurge a favor, mas isso é detalhe].

Quando os pefelistas, renascidos democratas, e a banda tucana contrária à aprovação da CPMF invocam o espectro do terceiro mandato, é para ter um argumento em defesa de seu oposicionismo, no caso – como se fosse possível, por falar nisso, acabar com o imposto do cheque de uma só canetada, supondo que o certo fosse acabar com ele.

Mas as segundas intenções de parcelas da mídia me parecem outras. Elas torcem – e essa é minha hipótese – para que Lula embarque nessa canoa.

Primeiro, para “desmascarar” o chavista que ele traria dentro de si.

Segundo, para ter o que dizer contra ele, nesse período em que o noticiário econômico só traz coisas boas.

Terceiro, para tornar a endurecer o velho anti-lulismo da classe média, que ficou flácido exatamente por causa do espetáculo de crescimento em cena. [A propósito, quanta gente mesmo foi ao recente ato público contra a CPMF, no centro de São Paulo?]

Quarto, para acuar o seu governo, tendo em vista a sucessão de 2010.

O eventual leitor há de saber que se tem uma coisa que abomino são teorias conspiratórias. Mas, ou muito me engano, desta vez “aí tem”.

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/11/2007 Norton Drongek

    Ancelmo, por reflexão, encontre a ´pura abstração ontológica´ que é a mídia (segundo seu argumento). Quer dizer que ela (a mídia) não existe, ou que não têm forma? Ah, vai ver porque a transmissão se dá, principalmente, via ondas – pra não falar das escritas, que circulam por aí concretamente – e portanto não são reais (não a vejo logo não existe). Ela não interfere em nada? Não existe, numa retrospectiva, momentos onde esta forma ´abstrata´ interferiu na realidade? Aí têm, Weis, e a mídia vai perder, nem precisa apostar..

  2. Comentou em 06/11/2007 Carlos N Mendes

    Aí tem, Luiz. Sempre houve. O meu grande desejo e daqueles que amam esse país é saber até que ponto essas (poucas) pessoas estão dispostas a ir para retornarem ao poder. Só peço que não arrastem a Nação para a cizânia. Sabe Deus o que será gestado nestes próximos 3 anos. Apesar das cabeças serem mais ventiladas esses dias, isso não é garantia que desgraças não voltem a acontecer.

  3. Comentou em 06/11/2007 Marco Antônio Leite

    Na livre iniciativa os bons salários são pagos para um restrito e seleto número de funcionários. Essa diferença brutal das poucas pessoas que recebem salários condizentes e, a grande maioria que recebem migalhas, é o gerador de conflitos de classes sociais, ao ponto de vivermos numa guerra de guerrilha urbanocidade. Todavia, com sucessão ou sem sucessão nada mudará em termos políticos e econômicos para a grande massa de trabalhadores. Poderemos vislumbrar uma luz no fundo do poço se houver uma mudança de sistema, ou seja, do capitalismo canibal, para um “capitalismo” “humanizado”, onde a distribuição de renda seja mais eqüitativa e, não esse lixo que é hoje. Perguntar não ofende, pôr onde anda o Mauro Malin?

  4. Comentou em 06/11/2007 Ancelmo Ribeiro

    O Observatório da Imprensa é o celeiro das mais absurdas teorias conspiratórias que circulam no Brasil. Todos os o colunistas estão sempre dispostos a enxergar algo na entrelinhas com o intuito de denunciar ‘interesses escusos’ dessa abstração ontológica que vocês chamam de ‘A Mídia’.

  5. Comentou em 06/11/2007 Lausamar humberto

    Meu camarada,
    Apenas para que o debate se dê nos seus devidos termos quem está propondo plebiscito sobre um terceiro mandato é um deputado petista e não a oposição ou setores da mídia.

  6. Comentou em 06/11/2007 Mateus Toledo Gonçalves

    Weis, não sei se voçê é a pessoa mais apropriada para responder minha pergunta, mas pergutarei mesmo assim.
    É sobre a estatocracia que voçê cita. Eu li ‘Os Donos do Poder’ de Faoro, gostei bastante do livro, no entanto a teoria de um estamento burocrático que controlaria o país , me parece, carece de comprovação empírica.
    Voçê concorda com a ideia de que quem exerce o poder de fato em nosso país seria essa alta burocracia?
    Naturalmente comprenderei se não quiser responder.

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