Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Nos jornais, um ministro pára-raios

Por Luiz Weis em 07/09/2007 | comentários

Folha e Estado trazem hoje praticamente a mesma matéria sobre os bastidores do lançamento, no Palácio do Planalto, do livro-relatório Direito à memória e à verdade sobre os horrores nos porões da repressão da ditadura de 1964.


O protagonista central das reportagens – e, ao que tudo indica, a sua principal ou única fonte – é o ministro da Defesa, Nelson Jobim.


“Jobim ameaçou demitir comandante do Exército se fosse desautorizado por nota”, anuncia o Estado. “Jobim ameaçou afastar cúpula do Exército”, informa a Folha, com um sub-título mais esclarecedor que o do concorrente: “Ministro exigiu receber antecipadamente a nota do Alto Comando [sobre o livro] e a leu para o presidente Lula antes que fosse divulgada”.


Jobim aparece bem na foto. As duas matérias, de Eliane Cantanhêde, na Folha, e de Tânia Monteiro, no Estado, contam que ele funcionou, por iniciativa própria, como um pára-raios, chamando para si o descontentamento dos militares, de modo a poupar o presidente Lula.


Isso explicaria a sua declaração, considerada uma provocação desnecessária, de que ‘não haverá indivíduo que possa reagir [contra o livro] e, se houver, terá resposta’.


Eliane: “Ao chegar ao Planalto [no dia do lançamento], o ministro avisou o presidente que já havia reações da reserva e que poderia haver também da ativa, mas que ele se anteciparia para evitá-las. Pediu para falar por último. Avaliava que era importante que ele próprio assumisse o ‘tranco’ e ficasse na linha de frente. Se houvesse confronto, fosse entre ele e os militares, preservando Lula.”


Tânia: “A cerimônia de lançamento do livro, marcada para as 15h30 de 29 de agosto, só começou às 17 horas. Boa parte do atraso se deveu ao tempo gasto na negociação de Jobim com Lula para definir como iria responder [aos militares]. Jobim pediu autorização a Lula para discursar na solenidade. O discurso […] serviria para evitar que o problema se alastrasse para o Planalto e outras áreas do governo.”


Graças ao papel que o ministro assumiu e à ameaça de demissão que proferiu, é o que se conclui forçosamente das matérias, a nota do Exército, apresentada previamente a ele e lida por ele a Lula pelo telefone, foi considerada nos conformes pelo presidente.


Razões de Estado decerto ditaram o “OK” de Lula. Mas, pensando no mea-culpa dos gorilas argentinos e chilenos, que fizeram coisa muito pior do que os seus equivalentes brasileiros – sem esquecer que nos países vizinhos os crimes do passado não têm ficado impunes -, não há nada de OK em ler, na nota dos milicos, que o Brasil só tem um Exército, ontem e hoje, e que “fatos históricos têm diferentes interpretações”.


Como se fosse possível interpretar de mais de uma forma os suplícios a que foram submetidos, por torturadores civis e militares, sob o comando destes últimos, os que ousaram resistir à tirania que se seguiu à derrubada de um governo constitucional.


A resistência à opressão é um direito consagrado desde a Revolução Americana, há mais de 200 anos.


O que se pode interpretar de mais de uma forma foram os meios – pacíficos ou violentos – adotados por setores diversos da resistência. Mas as torturas praticadas pelos agentes do então regime terrorista brasileiro, além dos “desaparecimentos”, “mortes em combate” e “suicídios”, são fatos incontroversos.


Nenhuma instituição do Estado nacional redemocratizado deveria ter permissão para justificá-los, mesmo sob a capa de eufemismos.


Sem o conhecimento exaustivo e a aceitação honesta da verdade dos fatos – e é uma lástima que a mídia não tenha aproveitado o episódio para dizê-lo – a superação do passado e a falada “reconciliação” entre o lado das vítimas e o dos algozes ficarão para sempre incompletas.


***


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Todos os comentários

  1. Comentou em 11/09/2007 Marcelo Safadi

    O Ministro Nelson Jobim esta se deliciando no vazio de poder que existe entre o Estado e o Executivo brasileiro. Cheio de bravatas o Ministro ao deixar vazar sua estratagema, reforça que seu interesse maior é aparecer do que resolver o problema do Presidente.
    Vai se consolidando como um grande marketeiro, deixando de construir a lógica da Defesa do País. Um fato deste deveria ter uma contestação grave, mas deveria ter sido feito de maneira solene, sem que fosse declarado um jogo combinado, para que sua indignação fosse fruto de sua ideologia, e não apenas vaidade pessoal.

  2. Comentou em 08/09/2007 Geraldo Câmara

    É lamentável ver que nas forças armadas tenha prevalecido homens sem honra ou dignidade. Capazes de aguentar tamanho desrespeito por parte de um indivíduo de trajetória no mínimo duvidosa. Suportar calado aos estragos que este atual governo impinge ao país. Tudo em nome de uma democracia de direito. O hilário disto é que a mesma ‘democracia’ seja apenas unilateral! Conclamo aos militares de verdade que levantem-se e assumam as rédeas deste desgovernado país para bem da nação.

  3. Comentou em 08/09/2007 Luiz Rodríguez Noriega

    ‘Sem esquecer que nos países vizinhos os crimes do passado não têm ficado impunes’. Sr. Weis, eu concordo que Argentina está na frente do Brasil neste aspecto, mas nunca é demais lembrar que a justiça até agora só condenou militares de baixo ‘rango’ das forças armadas daquele país. Os verdadeiros ‘gorilas’ que arquitetaram toda estrutura repressiva estão vivos, soltos e muito longe de sentarem o banco dos réus.

  4. Comentou em 08/09/2007 Edinéa Moreira da Silva

    – Um sociedade que não sabe conviver com a democracia precisa é mais de uma ditadura. Mais que seja de tal forma tão atróz que amordace de tal forma está burguesia alienada a fim de nivelá-la às massas e se lembrem com saudade do presidente operário que sonhou dar um pouco de dignidade ao seu povo e ao seu país mais que foi duramente massacrado e humilhado! Pois sempre recordo dos dizeres da filha so Sadam Hussem quando da invasão america, ela disse: Aqueles que compactuaram com a invasão não traiu meu pai, Sadam, traiu a pátria. Pois com certeza a elite iraquiana enquanto levava vantagem não importou com os desmandos e quando chegou até eles não quis lutar para defender a pátria, agora estão pagando o preço.Com toda certeza o miseráveis não estão pior que antes muito porque tanto lá quanto cá não tememos a morte se não nos liberta a alma com certeza nos liberta o corpo!.

    Edinéa

  5. Comentou em 07/09/2007 ubirajara sousa

    ‘e é uma lástima que a mídia não tenha aproveitado o episódio para dizê-lo’. Weis, você é um homem de boa-fé. Esperar isso da mídia? Será que pelas chamadas dos jornais citados não dá para perceber a verdadeira intenção dos seus editores? Algumas vezes já encerrei os meus comentários com uma frase da qual farei uso agora: XÔ, URUBUS!

  6. Comentou em 07/09/2007 José de Souza Castro

    Parabéns pela análise, Luiz Weis. Gostaria de ser como você, quando crescesse. E gostaria que nosso exército se dedicasse à defesa da pátria, renunciando de vez ao papel de capitão do mato a serviço dos senhores de escravos, sempre pronto a ameaçar ao governo quando este, por um lapso, se coloca a serviço dos direitos humanos e dos humilhados. Parabéns também a Nelson Jobim que, pelo que se diz nas duas notícias, peitou os generais. Não é de agora que precisamos que o poder civil seja mais respeitado que o militar neste país. Os militares deveriam se preparar melhor para suas tarefas constitucionais e, sobretudo, trabalhar mais. Acabar com aquelas folgas das quartas-feiras, daquelas aposentadorias precoces a que nenhum outro trabalhador brasileiro tem direito, e de sua mania de, por ter armas – aliás, deploráveis, em comparação com as armas das grandes potências mundiais que só não nos dominam militarmente porque não precisam, pois nos dominam econômica, cultural e politicamente – achar que podem mais que o restante da população que lhes paga os salários, com os impostos escorchantes a que está submetida – impostos, por sinal, bem superiores, diga-se, ao quinto cobrado pela Coroa Portuguesa e que levou os mineiros, no século XVIII, a se rebelar.

  7. Comentou em 07/09/2007 Marco Antônio Leite

    O Brasil é o país do jeitinho, eu roubo uma grana, lhe dou metade, mas com uma condição, você não fala nada há ninguém e tudo ficará pôr isso mesmo. Os milicos mataram muitos jovens naquela época de chumbo, no entanto o tempo é inexorável, passou, porém pouca coisa mudou. Saiu a ditadura militar, e quem diria, entrou em cena a ditadura ‘democrática’ civil, cuja combinação, não aquela das mulheres, foi acertada entre às partes, vocês não serão perseguidos, em contrapartida, ficaríamos com o poder, bem como receberíamos uma aposentadoria vitalícia sobre às agressões que sofremos naquele tempo. Combinado, Combinado?

  8. Comentou em 07/09/2007 Jose Paulo Badaro

    Perfeito! No dia 29, depois de ler o “Ato Desnecessário” do O Globo, e depois de ver o Willian Hommer mudando de entonação para ler a nota dos militares, no sentido de que o Brasil só tem um Exército, ontem e hoje, e que fatos históricos têm diferentes interpretações, a impressão que ficou, ao menos para mim, é de que os milicos, com ou sem ameaça de demissão, mais uma vez impuseram-se, ganharam a parada.

    É como se o governo, num rasgo de intrepidez, tivesse resolvido de uma vez por todas deixar de lado um certo temor reverencial em relação ao episódio da luta armada e a uma certa hipocrisia de considerar que anistia implica em impunidade, e dito, com todas as letras, que daqui em diante ninguém mais será tratado como terrorista mas, no mínimo, como pessoas que lutaram bravamente por um ideal, por uma causa na qual acreditavam piamente não ser a melhor, mas a única possível naquele momento, ao que os militares teriam respondido: Se cuidem. Vejam lá o que vão falar, pois o exército de hoje e de ontem é exatamente o mesmo, e continuamos achando que eles eram terroristas e/ou assassinos comuns.

  9. Comentou em 07/09/2007 José Franco

    No sexto parágrafo:
    ‘Avliava’ ao invés de ‘Avaliava’

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