Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Notícia, dados, jornalismo e o cubo de Boisot

Por Carlos Castilho em 03/01/2014 | comentários

A relação entre estes quatro conceitos pode parecer meio esotérica e abstrata, mas ela está cada dia mais presente no quotidiano de quem trabalha em redações jornalísticas. Noticia e jornalismo são ideias que todo profissional da imprensa identifica e define com relativa facilidade. Já dados é um tema mais complicado e o cubo de Boisot parece uma imagem enigmática tirada de algum livro de física.

A relação entre os quatro conceitos tornou-se concreta em consequência da mudança radical ocorrida em nosso ambiente informativo a partir da digitalização da informação e do surgimento do fenômeno das redes virtuais interligando pessoas e bancos de dados. Para a maioria dos jornalistas, notícia e dado, até agora, eram coisas diferentes. Notícia é algo inédito e relevante. Dado é um número, fato ou evento.

Hoje a diferença está desaparecendo rapidamente, porque a notícia perdeu valor já que é fácil obtê-la, a custo quase zero, enquanto surgiu a corrida pela busca de dados capazes de alavancar decisões individuais e coletivas, públicas ou privadas. Antes da era digital, as notícias eram a matéria-prima para processamento de dados, ao passo que hoje ocorre o contrário: os dados processados servem de base para notícias jornalísticas. Esta inversão ainda não foi totalmente digerida pelas redações que ainda tratam o processamento de dados como uma atribuição de engenheiros, estatísticos e economistas.

Como a indústria do jornalismo era muito lucrativa no final do século passado (anos 1990), ela não deu muita atenção ao acelerado desenvolvimento das pesquisas sobre produção e processamento de dados. As redações se acomodaram a rotinas e valores que acabaram entrando em crise já na primeira década do século 21. Daí a surpresa que muitos profissionais ainda exibem quando confrontados com uma nova forma de exercer a atividade, e que passou a ser conhecida como jornalismo baseado em dados.

Esta modalidade ainda não teve tempo de desenvolver a sua própria base teórica; assim, para entendê-la é necessário recorrer às pesquisas desenvolvidas em torno da produção de conhecimento a partir do gerenciamento de dados e informações. [De forma muito simplificada: dado é um número ou fato bruto, sem contexto. Informação é um dado contextualizado (causas e consequências). Conhecimento é uma informação recombinada com outras informações gerando capacidade de interferir na realidade.]

Como o foco do jornalismo é a comunicação, o estudo dos fluxos de informação desenvolvido pelo britânico Max Boisot (ver aqui um perfil na Wikipedia) é talvez o que melhor ajude a mostrar como as novas teorias sobre conteúdos digitais alteram o trabalho da imprensa e dos profissionais autônomos.

Boisot estudou como uma informação circula de um emissor para um receptor dentro de um ambiente que ele chamou de Espaço Informativo. Neste espaço, que ele materializou num cubo tridimensional, para que um dado bruto possa ser difundido pelo processo da comunicação ele precisa ser estruturado por meio de dois procedimentos – codificação e abstração –, ambos realizados tanto por humanos como por softwares (algoritmos). O processo de estruturação de um dado (codificação e categorização) e sua difusão é cíclico, ou seja, se repete num formato elíptico, dando origem a um Ciclo de Aprendizagem Social (Social Learning Cycle, ou SLC).

A codificação consiste em associar o dado (número, fato ou evento) ao maior número possível de códigos ou conceitos escritos, imagens ou sons. Esta associação permite desenvolver categorias, que são conceitos abstratos e abrangentes que ajudam a situar o dado num contexto mais amplo. Por exemplo, quando um repórter vai cobrir um acidente de trânsito, a primeira percepção é a de um veículo destroçado e vítimas. A codificação começa quando ele associa o veículo a uma determinada marca ou característica e conta o número de feridos ou mortos. A categorização ocorre quando ele, com base nos fatos e números, conclui que o acidente foi grave (categoria abstrata) e provocado por embriaguez do motorista (outra abstração resultante da interpretação dos dados do bafômetro).

O fluxo dos dados dentro de um Espaço Informativo depende da relação dinâmica entre a codificação e a categorização, com consequências diretas na difusão (comunicação). Quanto mais rápida e detalhada for a codificação, mais fácil será identificação de categorias abstratas e, consequentemente, mais ampla a difusão do dado. Dito assim, não é difícil associar esses procedimentos às rotinas jornalísticas. Quanto mais bem investigada (codificada) uma história, mais rápida é a sua contextualização (categorização), ou seja, associação a conceitos e valores de domínio comum, o que facilita e amplia a sua disseminação (difusão) entre o público-alvo.

O procedimento jornalístico se esgota na produção e publicação da notícia ou reportagem em algum veículo comercial de comunicação. A pesquisa de Boisot foi além porque sua preocupação era saber como os fluxos de informação dentro de Ciclos de Aprendizagem Social participam da nova Economia Política da Informação, um projeto que monopoliza as atenções de dezenas de cientistas porque visa criar um framework (marco ou enquadramento) para as relações econômicas e políticas no meio ambiente digital.

Se os jornalistas como um todo estivessem mais antenados no que ocorre nos círculos pensantes da internet, eles poderiam constatar que a amplitude de difusão de uma notícia é muito mais relevante por conta de suas consequências sociais do que o resultado financeiro da venda da commodity notícia. Quanto mais ampla a circulação de uma informação, maior o número de pessoas que a incorporam nas suas decisões diárias.

A realidade atual está mostrando que a corrida atrás da notícia já não permite mais a sobrevivência prolongada de empresas e profissionais autônomos. Os novos tempos impõem ao jornalista a necessidade de trabalhar mais com dados do que notícias – e aí a academia pode ensinar algumas coisas capazes de ajudar a sair do beco sem saída em que a imprensa se meteu.

 

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