Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Notícia e Opinião diante do desafio da transparência

Por Carlos Castilho em 30/05/2006 | comentários


A crise dos jornais e a polêmica sobre o blogs ressuscitaram o debate sobre os limites entre notícia e opinião, num momento em que a imprensa, principalmente os jornais, quebram a cabeça para descobrir qual a preferência do público.


Notícia e opinião foram o tema central de um debate realizado na semana passada no Museum of Television & Radio (Museu de Televisão e Rádio), em Nova Iorque, e que foi transmitido via internet.


O fato novo foi a polêmica desatada em torno do surgimento dos weblogs plataforma para a manifestação de opiniões pessoais. Como já são quase quarenta milhões de blogs em todo mundo, teoricamente teríamos igual número de opiniões, ao acesso de um bilhão de internautas em todo mundo. Ou seja uma fantástica cacofonia opinativa.


A maior parte dos quase 30 participantes, em sua maioria jornalistas e blogueiros famosos nos Estados Unidos, concorda que a tendência moderna é no sentido de valorizar a opinião pessoal, como prova a enorme audiência de alguns blogs políticos, cujos autores não escondem suas opções ideológicas ou partidárias.


Quase todos acreditam que a crise de credibilidade na imprensa norte-americana não é uma consequência da maior incidência de opiniões no noticiário corrente e sim de problemas surgidos na apuração de notícias e reportagens.


O consenso para aí. A questão da transparência dividiu os participantes entre os que acreditam ser esta uma pré-condição para que a imprensa reconquiste a confiança do público, e os que não vêem relação alguma entre credibilidade e a identificação de antecedentes, hábitos pessoais e relacionamentos de um reporter.


Jeff Darvis, um jornalista e blogueiro, defende a transparência como uma forma de ‘acabar com os segredos da fábrica de salsicha‘ (trata-se de uma referência à composição de uma salsicha comum, que muitos consideram no mínimo enigmática).


Outros defensores da transparência afirmam que um dos elementos para avaliar a credibilidade de um repórter ou comentarista é o conhecimento de suas preferências pessoais, círculos de amizade, histórico profissional e pessoal. Citou-se, por exemplo, a necessidade de informar se o autor de uma reportagem contra o cigarro é ou não fumante.


Os críticos da tese da transparência afirmaram que este tipo de rigor na aplicação da transparência informativa viola a privacidade do repórter, da mesma forma que a confiabilidade de uma reportagem não poderia ser determinada pelo currículo do autor.


Defendo a idéia de que as notícias transmitidas por um jornalista não podem ser consideradas quimicamente puras, porque sempre há o fator humano, onde entram em jogo elementos como formação cultural, valores individuais, experiência, capacidade fazer juizos críticos etc etc.


Os jornalistas também não podem ser considerados os donos da verdade e nem os juízes sobre quem está certo e quem está errado, ao informar sobre um fato noticioso. A função de um repórter ou comentarista é ajudar o público a tomar decisões. Jeff Jarvis, por exemplo, acha que o público tem o direito de conhecer os fatores que podem estar influenciando o trabalho do profissional.


A grande questão parece ser não o problema de como diferenciar opinião e notícia mas sim quando ocorre uma infiltração de preferências pessoais dentro de uma reportagem que os leitores usarão para tomar decisões.


Visto por este ângulo, o problema é como separar o joio do trigo. Ai sim, a questão do histórico e das preferências pessoais do autor ganha importância porque permite ao leitor maiores possibilidades de identificar preconceitos, o que os americanos chamam de ‘bias’, ou seja preferências ocultas, favoritismos ou beneficiamento intencional.


A transparência passa a ser uma ferramenta essencial não para impedir a manifestação de opiniões, o que é legitimo no jornalismo, mas sim evitar que ela se dissimule dentro de uma notícia ou comentário, influenciando de forma oculta as percepções do público.


Conversa com os leitores: Fiquei alguns dias sem colocar nenhum texto novo porque iniciei a preparação de um evento sobre observação da mídia e acabei ficando sem tempo para pesquisar e escrever o Código. Houve acúmulo com outras atividades, como aulas e a preparação de um livro que estou escrevendo sobre jornalismo e cultura digital. Esta explicação é necessária porque acho que o autor de um blog cria entre seus leitores uma expectativa permanente por material novo para reflexão e informação. Quando esta expectativa é frustrada, a consequência é a perda de confiança. Há momentos em que somos obrigados a correr este risco, mas vou tentar minimizá-lo o máximo possível. Obrigado.   

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/06/2006 Márcia Cristina

    Não sou nenhuma pesquisadora da área do jornalismo. Mas como leitora interessada na cultura midiática, minha percepção é a de que o leitor vem descobrindo que a imprensa não é neutra. Até porque a imprensa parece vir optando muito mais pela divulgação de ‘fatos’ construídos do que com a realidade circundante. Parece-me claro que o problema maior é, além do da apuração, da própria opção por determinadas pautas, que sofrem cada vez mais a interferência de assessores de comunicação e estrategistas de marketing. O fato é que as notícias que lemos são cada vez mais condicionadas por estratégias de visibilidade midiática.Tais estratégias passam, muitas vezes, pela espetacularização do próprio real. No caso do mensalão, por exemplo, a imprensa ficou enebriada com o palco armado pelos parlamentares. E não saiu disso, ainda que as milhares de opiniões que pipocassem na internet afirmassem que não reconheciam autoridade naqueles senhores quando o assunto era ética. Por quê a imprensa não optou, então, por investigar a prática ampla da corrupção por caminhos que não refletissem apenas a voz da oposição? Por quê ela focou-se apenas em personagens cujo discurso em prol da ética parecia mais um texto farsesco? Não consigo pensar em outras respostas que não passem ou pelo despreparo dos jornalistas, ou pela profunda contaminação de ideologias e interesses econômicos na prática jornalística.

  2. Comentou em 02/06/2006 José de Souza Castro

    Sobre essa questão de opinião, informação e credibilidade, gosto de reler o que escreveu o então editor-chefe do Jornal do Brasil, Walter Fontoura, em outubro de 1980: ‘Nosso mais importante asset é a credibilidade, conquistada numa luta que tem de ser ganha todo dia, na qual a grande arma será sempre a informação precisa, judiciosa, responsável. Somos, queremos ser, um jornal sério. Não temos jogadas, não nos subordinamos a grupos. Esses tais interesses da empresa não existem, ou existem, mas não nos impedem, não são empecilho à prática do jornalismo de alto padrão que devemos a nossos leitores (…) Este é o ideal: todas as informações de uma reportagem – mesmo que não se usem aspas, ou não se cite declaração de ninguém – podem ser provadas. Não podemos é chegar ao extremo oposto: ao nos libertarmos da entrevista como única fórmula, não podemos admitir que o repórter diga o que quiser, sem ter como comprová-lo. (…) Quando um repórter faz uma afirmação é porque viu, uma ou mais fontes (mesmo que não sejam citadas) lhe disseram ou deduziu, a partir de indícios insofismáveis’. Durante alguns anos, essas orientações de Fontoura foram seguidas pelo JB. Quando não mais o foram, deu no que deu…

  3. Comentou em 02/06/2006 Sérgio Troncoso

    O mais perigoso que vejo no jornalismo é a exposição de números inexatos ou parciais que ajudam a corroborar reportagens que tratam mais de ilações do que de verdades apuradas no rigor dos fatos.Vide a chamada crise do gás e outras tantas reportagens baseadas no chute e no achismo,sem que haja o menor rigor em estudar o assunto que está se expondo.Partidarismo não é pecado,mas falsear e dizer meias verdades é.

  4. Comentou em 02/06/2006 michel chad

    Não existe 100% de insenção em nossas manifestações.
    É importante o senso crítico nas leituras que realizamos. O Princípio da descrença é fundamental para todo material que estudamos e principalmente que criamos.

    Michel Chad é engenheiro químico e voluntário do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC).

  5. Comentou em 01/06/2006 Douglas Puodzius

    Primeiro, parabéns por tudo que escreve com a lucidez, a independencia e a coragem de poucos. Depois, vejo que é um debate pertinente até mesmo para este blog.
    Veja bem, analisando e debatendo a imprensa, este espaço (OI), por vezes, a meu critério, cai no indivisivel fator humano e notica que vc muito bem coloca no texto. Senti muito disso, na defesa cerrada, feita por varios analistas aqui, do sigilo do caseiro contra todas as manifestações de leitores sobre a necessidade de tambem investigar a ‘estoria’ do Pai. Por outro lado, acompanhei uma pesquisa, aqui realizada, sobre a de quem seria a responsabilidade de analisar a imprensa. O resultado foi acachapante em favor da Sociedade contra os jornalistas. Eu acho que nessa perspectiva poder-se-ia abrir mais espaços para a sociedade convidando gente que aqui manifesta sua opinião, e são muitos, e de alta qualidade, para escrever artigos, participar dos debates na tv e no radio. Enfim, um espaço próprio na internet, um dia no radio e um dia na tv onde só falariam os leitores. Inverteriamos o papel por um curto espaço de tempo.
    Abraços

  6. Comentou em 01/06/2006 ubirajara sousa

    O que mais me chamou a atenção em sua matéria foi o fato de incomodar a alguns a violação da privacidade do repórter. Interessante. Não é disso que vive a maioria deles? Da violação da privacidade dos outros? Esse é um fenômeno bastante conhecido da psicologia humana: para nós tudo; para os outros nada. Ou seria o contrário?

  7. Comentou em 01/06/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    A polêmica sobre blogs x jornais me parece um tanto desproposital, fruto de um espírito de corpo mesmo. Em princípio, a todos é dado o direito à liberdade de consciência e de expressão, de maneira que os jornais não podem de maneira alguma achar que tem o monopólio da difusão de informação. Usei o termo ‘informação’ de propósito, porque ele é mais amplo que os termos ‘notícia’ e ‘opinião’. Muito embora os limites entre ‘notícia’ e ‘opinião’ sejam bem tenues porque dentro a opinião está sempre dentro da notícia (quer na seleção dos fatos considerados noticiosos ou na maneira de expô-los), a ‘opinião’ pode ser emitida sem o rigor técnico jornalistico (o que, onde, quem, quando e porque). Os seres humanos gostam de notícias e de opiniões, por isto há espaço para blogs e jornais (mas é claro que os jornais terão que resolver seus problemas econômicos, os quais não estão relacionados necessariamente a existência dos blogs). A coexistência entre blogs e jornais é possível se os jornais resistirem à pressão econômica imposta pela Internet. Não toquei na questão da credibilidade de propósito. Afinal, cada qual tem o direito de atribuir credibilidade a quem bem entender, seja um jornalista, seja um blogueiro. Talves seja difícilmpara o jornalista admitir isto, mas é isto que a liberdade de consciência e expressão lhe impõe.

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