Quinta-feira, 26 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº984
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Novas mídias e estudantes colocam o ensino do jornalismo diante de um duplo desafio

Por Carlos Castilho em 14/04/2008 | comentários

Os professores de jornalismo enfrentam atualmente uma tarefa inglória: transmitir para jovens de 18 a 20 anos as regras, rotinas e valores de uma atividade que está sendo drasticamente alterada pela generalização da internet.


 


Isto tudo num contexto onde a popularidade dos cursos de jornalismo está em alta, segundo os dados dos últimos vestibulares em todo o país, mas, ao mesmo tempo, a atividade emprega cada vez menos profissionais e os recém-formados não têm outra alternativa senão o trabalho autônomo para o qual não foram preparados.


 


Este paradoxo desaparece quando se descobre que os jovens, na verdade, estão mais preocupados com a comunicação do que com o jornalismo. Eles não lêem jornais, nem revistas, esnobam a televisão e preferem a internet, o YouTube, as comunidades online e os sites de música digital, onde passam interagir.


 


A nova geração de estudantes procura nas faculdades de comunicação primeiro um ponto de encontro e, secundariamente, um ambiente de estudo. Isto causa arrepios em muitos professores, mas a realidade é que a preocupação dos alunos com a convivência está condicionando a forma como eles aprendem.


 


Aqui pode-se ver com clareza o conflito entre as aulas expositivas e as participativas. Na primeira, o professor tem o comando absoluto e o aluno, no máximo, pergunta e questiona. Numa aula participativa, o professor propõe projetos de comunicação que os alunos executam em grupos, somando habilidades.


 


Na aula expositiva, predomina a voz do professor. Na participativa, a ruidosa interação entre alunos é a marca registrada. Numa, a ordem, na outra uma aparente desordem, onde se combinam a necessidade de conviver e interagir com a vontade de criar.


 


Esta nova realidade bate de frente com a grade de horários e de disciplinas. A duração das aulas foi determinada pelo caráter expositivo, mas mostra a sua inadequação quando o professor tenta torná-la participativa. Aí o tempo é curto demais e os alunos freqüentemente invadem os intervalos e o horário de outras disciplinas, na tentativa de concluir o trabalho que iniciaram.


 


Isto é só uma amostra mínima das alterações que estão acontecendo dentro das faculdades e salas de aula em conseqüência de mudanças no exercício do jornalismo e na cultura informativa, principalmente dos jovens com menos de 23 anos.


 


O que acontece nas salas de aula das faculdades de comunicação afeta a situação das redações, pois é nelas que desembocam as contradições do ensino superior. Os projetos jornalísticos baseados em multimídia exigem um profissional polivalente, com experiência de trabalho em grupo, e o mercado está carente deste tipo jornalista.


 


Por outro lado, a super-oferta de recém-formados, que não encontram emprego em redações formais, torna inevitável a opção pelo trabalho em redes virtuais.


 


Os professores de jornalismo, e eu sou um deles, não têm alternativas senão mudar o sistema de ensino para ampliar o tempo dedicado às atividades criativas em grupo, dando aos alunos melhores condições de entrar no mercado de trabalho — seja em empresas, seja como autônomos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/06/2008 Thiago Porto

    Muito interessante as colocações de Carlos Castilho. Na minha posição como acadêmico do Comunicação Social, faço, porém, algumas ressalvas. Acredito que a rotina profissional de um jornalista é fantástica por não ser algo linear e rotineiro, razão pela qual contribuiu para a minha escolha quando estudante secundarista. Entretanto, a transmissão das regras, rotinas e valores dessa profissão só passarão a ser inglórias no momento em que nós nos intitularmos como auto-suficientes e destemidos enquanto profissionais e cidadãos. Corrijam-me se eu estiver enganado, mas a minha formação enquanto membro de uma classe detentora de poderes neste mundo em constantes mutação, não se restringirá a essa minha fase de aprendizagem.
    Esse contraste apresentado por Castilho só reforça a minha opinião a respeito das mudanças nas redações. Os profissionais mais experientes olham com desconfiança para os recém-formados porque lhes faltam prática (sem generalização, pelo amor de Deus) ou ainda, pior, trazem consigo deficiências que deveriam ser sanadas na universidade. Por outro lado, quando afirma que não lemos jornais, revistas e esnobamos a televisão, aponto para a utilização da internet e a adequação dos veículos de comunicação para essa mídia. Infelizmente, não temos mais o prazer de sentir a materialização das noticias em nossas mãos. Tudo acontece simultaneamente e somos cobrados por isso.

  2. Comentou em 07/06/2008 Daniela Takahashi

    Concordo e acho a coisa mais correta, nós como estudantes de comunicação, em qual seja a especialização,
    não devemos nos preocupar somente com o ‘jornalismo’ em si, ou as práticas de RP por exemplo.
    Devemos sim olha a comunicação como um todo, se tivermos capacidade e ética no ato de comunicar, teremos sucesso no nosso trabalho.
    E nao se pode fechar um cerco pelas práticas comuns ao jornalismo, se fazemos faculdade, aprendemos comofoi, como é e pra onde está sendo direcionada a comunicação social, ficar limitado aos presentes jornais, revistas, e etc.
    É preciso inovar, com novos métodos de se comunicar, e aí entra os meios virtuais nos quais o texto diz que os estudantes estão mais focados.
    ‘Por outro lado, a super-oferta de recém-formados, que não encontram emprego em redações formais, torna inevitável a opção pelo trabalho em redes virtuais. ‘ descordo deste pensamento, onde parece querer dizer que os profissionais que atuam nos meis virtuais são profissionais frustrados em empregos ‘formais’, ou seriam ‘normais’?
    Estamos vivendo num novo mundo, de novas oportunidades, cabe aos cursos de jornalismo se adequar a essas novas oportunidades de trabalho para o profissional de comunicação, seja jornalista, publicitário…
    Mesmo por que, é preciso ter conteúdo teórico para este meio também.

  3. Comentou em 07/06/2008 felipe borges

    Eu, como estudante universitário de comunicação social, com enfase em jornalismo, concordo com alguns pontos prorpostos no texto acima. o mercado de trabalho está cada vez mais dificil e exigente, e para sermos um bom profissional da area, precisamos ter um ensino de qualidade, desde o campus ao professor. contradições do ensino superior, também está presente no mundo academico. cabe anós, estudantes e futuros comunicólogos tentarmos reverter essa situaão, e fazer do nosso jornalismo , o melhor, o mais eficaz e o de maior qualidade

  4. Comentou em 27/04/2008 Amanda Alves

    Em constante transformação vamos nos adequando e sobrevivendo ao momento digital. Se é difícil para o professor de mídia digital e outréns se atualizarem e passar isso aos alunos, imagine para a faculdade que oferece para turmas de jornalismo um currículo pronto e fechado para quatro anos?
    Muita coisa muda, as pessoas mudam e o mercado cada vez mais empreda menos.
    Na faculdade Estácio de Sá, onde estudo o perfil é empreendedor, vistas às nossas demandas por profissionais da comunicação, por exemplo…cada qual na sua realidade. Mas falta muito e para citar mais um exemplo d enecessidade por profissionais multimídias. Aprendi na 4 fase a utilizar o Pagemaker para diagramações. Já era há dois anos um programa defasado, mas a instituição não dispunha para nós. Hoje, as novas turmas estão utilizando o InDesign e tenho que correr atrás e aprender sozinha…
    Hoje estamos muito mais abertos às novas tecnologias. E temos, pois já fazemos parte dela.

  5. Comentou em 21/04/2008 Mario Kodama

    Os cursos de jornalismo não estão obsoletos apenas no sentido do sistema de prendizagem, como também na formação de que substrato irão atuar. A internet pulverizou o que podemos chamar de meio de comunicação, abrindo uma infinidade de opções. Também não os prepara o que poderiamos chamar de engenharia de comunicação, já que o campo cibernético está aberto a criação de novas formas e sistemas comunicação de massa. Além do mais, as universidades formam o jornalista para atuar na chamada ‘grande imprensa’, limitando possibilidades e embotando criatividades. O avanço da tecnologia de comunicação de massa, se por um lado abre ilimitadas formas de comunicação, também abre a possibilidade de atuação em nichos, subnichos, e públicos até agora não imaginados. Nesta questão falta dotar os futuros jornalistas de melhor preparação crítica e investigativa, além das que comumente conhecemos, como de casos criminais e políticas. É necessário também que os cursos dêem instrumental aos seus alunos para uma visão mais sociológica, e porque não também antropológica, para que possam atuar em micro realidades como bairros e comunidades, grupos étnicos, no estímulo da organização social e cidadã, para defesa da sua história, da sua realidade, do seu mundo, e da sua transformação de simples objetos em sujeitos contra a entropia cada vez mais virulenta e sintetizadora do mundo cada vez mais global

  6. Comentou em 21/04/2008 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Não é só o curso de jornalismo que está sendo reformulado na prática em virtude da popularização da informática e da Internet. Me parece que este fenômeno está ocorrendo com todos os cursos universitários. As contradições que você aponta decorrem do fato de que a atual geração de professores foi formada AED (ANTES DA ERA DIGITAL). Quando as aulas começarem a ser ministradas pelos profissionais formados DED (DEPOIS DA ERA DIGITAL) os contratempos tendem a desaparecer e as mudanças a se aprofundar. Veja o meu caso. Sou advogado. Quando comecei na década de 1980 pesquisavamos jurisprudência predominantemente nas bibliotecas onde perdiamos horas e às vezes dias inteiros (a toa, às vezes). Hoje as pesquisas são realizadas ‘on line’ nas bibliotecas virtuais dos Tribunais. Quase tudo que faziamos requeria nosso deslocamento pessoal até as repartições do Poder Judiciário, hoje podemos acessar decisões dos Tribunais nos processos em que advogamos diretamente na Internet. Podemos até interpor um recurso através de peticionamento ‘on line’. Se os cursos de Direito não se preocuparem em fornecer aos alunos algumas noções acerca destas inovações e suas conseqüencias eles sairão das Faculdades praticamente inúteis.

  7. Comentou em 20/04/2008 nilton franzoi

    vamos falar serio ,a imprensa brasileira desaprende pelo dinheiro,entao voce como professor ,pode usar o you tube como materia para os alunos ,baseando em um vidio de violencia que muito aparece neste site quando digita-se a palavra FIGHTING GIRLs ,ai voce avalia de forma ele divulgariam uma noticia,mas vou advertindo,convencelos a divulgar de forma profissional e dentro dos parametros da lei nao so do homen ,como na lei de Deus ,sem ofender ou mentir um fato referente as pessoas envolvida,sera seu maior desafil ,por voce deve se perguntar ,o que voce divulgaria.

  8. Comentou em 20/04/2008 Marco Antônio Pires Lima

    COncordo em termos gerais com o seu entendimento. Faço uma ressalva: a idéia de aulas participativas e sempre em grupo está condicionada ao conteúdo da disciplina. Não vamos tornar uma panacéia a idéia do trabalho em grupo. A atitividade de pensar, refletir, o domínio de conteúdos filosóficos, sociológicos, antropológicos tornam indispensável o crescimento individual do aluno, o que para ocorrer, dependerá, indubitavelmente, do esforço de leitura, de dedicação, de reflexão disciplinada em torno da compreensão dos autores. A super valorização das tecnologias é um grande equívoco. Não adianta saber trabalhar em grupo se o próprio grupo não conhece a história do Brasil, não sabe escrever, não tem imaginação sociológica, não tem compromisso com a transformação da sociedade brasileira, pois faz parte, em sua maioria, de um segmento social pouco sensível aos graves problemas da falta de democracia na mídia, da concentração da propriedade midiática, dentre outras mazes brasileiras. A tarefa do professor de Jornalismo é realmente imensa! Mas não vamos ocultar traços importantes da realidade com fórmulas mágicas!

  9. Comentou em 19/04/2008 Flávia Umpierre

    Vejo essa incoerência todos os dias na faculdade onde estudo. Parte dos professores acredita na formaçao do curso superior para jornalista e continua dando o mesmo tipo de aula expositiva. Enquanto outros professores perceberam que o curso superior não está formando o estudando por completo, e tenta com isso explorar características dos jovens antes descartadas, como a facilidade de criar uma visão crítica dos acontecimentos e a total inserção nos novos modelos midiáticos. Na faculdade onde estudo esse novo modelo de aula está sendo levado bastante a sério, e me sinto privilegiada com isso. Mas ainda vejo uma grande falta de aceitação desse novo modelo de profissional por parte dos meios de comunicação.

  10. Comentou em 18/04/2008 Fabiano Melo Quirino

    Cláudio Abramo questionou certa vez a razão de ser de um curso sobre algo que nem se pode definir direito. É interessante que os questionamentos do grande Abramo – morto em 1987 e praticamente esquecido desde então – a respeito da estrutura da faculdade de Jornalismo não caducaram. Ao contrário, ante a situação descrita pelo professor Carlos Castilho, são mais atuais que nunca. Afinal, para que serve formar-se me jornalismo se o diploma não é obrigatório? Para que serve formar-se em jronalismo se o curso não chama a atenção para o poder transformador da mídia sobre uma realidade tão dura como a de países subdesenvolvidos como a de nosso país? O professor esqueceu de dizer que busca-se a faculdade de jornalismo como caminho mais curto à tevê e ao panteão de celebridades. Já antevejo vislumbres do fim do curso.

  11. Comentou em 18/04/2008 Murilo Campos

    A situação dos jornalistas está cada vez mais critica. Com as novas mídias, o jornalista tem que se desdobrar, causando assim falta de profissionais especializados em certas áreas. O mercado de trabalho está enxugando o quadro de profissionais, eu como estudante de jornalismo não vejo escolha a não ser em aprender tudo e acabar não sabendo de nada. É o que acontece nas salas de aula, os alunos não lêem mais, não existe vontade e amor pelo que estão fazendo, os professores avisam do que estamos próximos a enfrentar e faz de tudo para que não fiquemos fora desse mercado de trabalho, mas com a falta de entusiasmo e o desinteresse pelo estudo, acredito que o ‘mercado de trabalho’ não terá muito trabalho para enxugar esses profissionais, pois não vai tê-los.

  12. Comentou em 17/04/2008 julio valerio neto

    O mais engraçado é que mesmo com um mercado de trabalho extremamente rarefeito, as faculdades de jornalismo aumentem pelos quatro cantos do Brasil.
    E vale lembrar q o curso de jornalismo é sempre um dos mais concorridos: REflexo com certeza de nossa sociedade midiatica que privilegia o espetaculo ao conteudo e à reflexao, pois poucos alunos ou calouros sabem realmente o que é o trabalho de um jornalista no dia a dia.

  13. Comentou em 17/04/2008 Roberto Canetti

    Realmente, lendo o seu comentário, é de dar dó. Um terror. O primeiro quesito a ser cumprido tem de ser o do pleno domínio da língua pátria. E quem não revela gosto pela leitura, não escreve, só pensa em ficar pendurado horas e horas na internet, não deve se preocupar, pois o mercado já o selecionou. Só irão entrar nas redações dos grandes veículos da imprensa quem apresentar as credenciais do ‘saber fazer’, como afirmam Chaparro e Schonk.

  14. Comentou em 15/04/2008 Fábio Melo

    Já eu econtrei um meio termo. Desenvolvo meu trabalho jornalístico através do meu blog e ao mesmo tempo trabalho em uma assessoria de imprensa.

    Admito que só tenho essa flexibilidade graças a professores que, assim como você, adequaram o método de ensino à realidade estudantil,e não o contrário.

    Porém, essa mudança no ambiente estudantil do curso de jornalismo é mais negativa do que positiva, na medida em que vejo muito optarem pelo curso infulênciados pela utopia de mudar o mundo através do ofício de jornalista. Ainda é preciso muita mudança, mas na cabeça dos jovens, e não tanto no curso.

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