Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Novos milionários assumem jornais em meio a dúvidas sobre seus reais interesses na imprensa

Por Carlos Castilho em 02/07/2010 | comentários

Com a venda do jornal Le Monde, há dias, todos os grandes jornais franceses trocaram de dono nos últimos quatro anos e passaram a ser controlados por grupos de milionários cujo interesse na imprensa ainda é um grande mistério.


 


O caso francês é talvez o mais ilustrativo da grande mudança corporativa que está acontecendo em quase todo mundo, envolvendo a indústria de jornais e revistas de atualidade. As grandes famílias que dominaram a imprensa mundial durante décadas estão sendo substituídas por investidores e personalidades do mundo econômico cujo envolvimento com os jornais se limitava às colunas sociais.


 


Entre os sobrenomes importantes que ainda sobrevivem encontram-se os Sulzberger, que lutam desesperadamente para manter o controle do The New York Times, a família Murdoch, do império anglo-americano News Corporation e o grupo alemão Axel Springer, da família Springer que controla 150 jornais em 30 outros países europeus.


 


O Le Monde foi no passado um ícone da intelectualidade francesa, com uma posição de centro-esquerda e o único dos grandes jornais mundiais a ser dirigido por uma cooperativa de seus jornalistas. A partir dos anos 1990, o matutino francês ingressou num período de turbulência financeira e sindical, causa e conseqüência da queda contínua de receitas publicitárias e de vendagem.


 


Após várias trocas de diretores e de tentativas frustradas de salvamento financeiro, o Le Monde chegou ao final de maio com seu caixa reduzido a zero e sem condições de pagar salários. O fechamento definitivo era inevitável quando o presidente Nicolas Sarkozy resolveu transformar um problema corporativo numa questão político-eleitoral.


 


O presidente francês juntou um grupo de simpatizantes endinheirados para assumir o controle do jornal, mas aí veio a reação dos jornalistas que saíram à cata de apoios financeiros e acabaram votando majoritariamente por associar-se a dois milionários, um deles ligado a uma empresa telefônica e outro ao grupo econômico criado pelo estilista Yves Saint Laurent (1936-2008). Ambos são desafetos de Sarkozy mas prometeram manter a independência editorial da redação do Le Monde.


 


Com isso, toda a imprensa francesa caiu na mão de milionários. O jornal Le Fígaro, o maior do país, é controlado desde 2004 por Serge Dassault, que controla a mais importante fábrica de armamentos da França, enquanto o banqueiro e aristocrata Edouard de Rotschild dita as regras no Libération, um jornal que já foi a bíblia da esquerda francesa.  Outro sobrevivente da antiga imprensa socialista francesa é o L’Échos, foi comprado em 2007 pelo milionário Bernard Arnault.


 


O que intriga neste processo de mudança de controle corporativo na indústria dos jornais é o real interesse dos novos donos. A imprensa, como negócio, perdeu seu charme como geradora de grandes lucros desde que a internet provocou uma crise no modelo de produção adotado pelos jornais convencionais. Nenhum dos novos donos de jornais pode, em sã consciência, pensar numa rápida volta da euforia financeira dos anos 1970 e 80.


 


Resta a hipótese de que os novos barões da imprensa estejam pensando mais em adicionar o título de mecenas à sua biografia; ou então que eles tenham assumido a função de sucateadores de impérios jornalísticos em agonia. Esta última possibilidade é descartada em nome da sanidade mental, pois ao que tudo indica nem Dassault e nem Arnaud ou Rotschild estão queimando dinheiro.


 


Nos Estados Unidos e na Inglaterra, as famílias Sulzberger e Murdoch, este última de origem australiana, estão tentando manter os seus respectivos negócios por meio de inovações tecnológicas que procuram manter vivos os títulos mas sacrificando quase toda a estrutura tradicional dos jornais que serviram com estandarte corporativo durante décadas.


 


Aqui no Brasil, as famílias Mesquita, Frias, Marinho e Sirotsky, para citar apenas as mais poderosas,  já não têm mais a vida tranqüila de outros tempos, mas não enfrentam os mesmos dilemas imediatos de suas congêneres na Europa e Estados Unidos. A questão é que a crise no modelo de negócios dos jornais não é exclusiva da Europa e Estados Unidos. É um fenômeno mundial porque afeta uma estrutura de produção.


 


Nossas famílias da imprensa procuram fazer os ajustes da forma mais silenciosa possível para não chamar a atenção de investidores ou milionários estrangeiros. Elas agem com um invejável espírito de grupo, como pode testemunhar Nuno Vasconcellos, diretor do grupo português OnGoing, que comprou o jornal carioca O Dia.


 

A única coisa que parece certa é que os novos donos de jornais estão decididos a manter a falta de transparência dos negócios da imprensa que caracterizou as gestões familiares. E hoje, quem gerencia a informação pública precisa ser transparente para que o seu produto tenha credibilidade junto aos leitores. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/07/2010 Roberto oliveira

    Castilho,cá pra nós,não tem misterio,não é?
    Dinheiro,Muuuuito dinheiro,se não é para ganhar é para manter ,se não vejamos :Imprensa Livre,Liberdade de Expressão etc…existe?!
    Como diz o J.L.Datena até os cachorros da rua sabe que isto não existe e o pior é uma utopia, estara sempre condicionada a interesses
    que diretamente ou não leva a muito dinheiro
    Por falar no Datena lembrei que ele foi demitido da Globo por que foi apresentar um comicio do candidato Lula em 1989 porque a globo estava fechada com Color
    Porque será que nenhum reporter vai aos sem terras acampados em beiras de rodovias entrevistar as familias que lá estão,passar um mes vivendo com eles e depois pegar um avião e olhar pela janela e filmar quantas terras ociosas tem só entre São Pulo e Minas e depois
    se sua conciencia (dinheiro) permitir escreva as suas impreessões??
    ESTARÀ NA RUA

  2. Comentou em 05/07/2010 Vinícius Mendes

    Dinheiro não é tudo. A família Sarney que o diga, pois suas posses falam bem menos que sua influência.

  3. Comentou em 05/07/2010 Boris Dunas

    A elite esquerdista mundial que afeta tanta indignação e finge combater a tal “hegemonia dos outros” na verdade nada faz para impedir a existência dos grandes oligopólios da informação (isso quando não atuam decisivamente para o seu fortalecimento) pela simples razão de que é muito mais fácil submeter à sua vontade meia dúzia de “grandes” do que centenas de milhares de “pequenos” inconvenientes que, dessa forma, nunca correrão o risco de se tornarem “grandes”. O mesmo teatro se dá diante dos editorialistas dos “jornalões” – como adoram dizer – acusando-os de “porta-vozes da zelite-dominante”. O resto do “trabalho” é garantido desde dentro dos próprios veículos de comunicação pela imensa e infatigável militância a serviço. Afinal, é essencial que assim seja e assim permaneça para que possam perpetuar a pantomima do Davi oprimidinho contra o Golias do Grande Capital. Se um dia “eçça imprençça” deixar de existir a esquerda terá de inventar outra.

  4. Comentou em 04/07/2010 Ricardo Dias

    Com o pai Capital há muito dominado, e a mãe Informação prestes a ser totalmente possuída, temos a aurora do que virá por aí: gerações e gerações de filhos de um estupro fragmentado, malandro, impercebível à maioria, dissimulado e muito bem calculado em rotineiras orgias financeiras do andar de cima (ou cobertura), sempre em busca de “inovação”. Só o começo da “ditasoft” contemporânea mostrando suas bem feitas unhas. No fundo, no fundo, e devidamente adaptados, nossos “caras-capitais-gerentes” agradecem e futuros “neo-caras” também vibrarão.

  5. Comentou em 04/07/2010 Roberto Ribeiro

    Errata: onde se lê ‘trás’, leia-se, evidentemente ‘traz’. Uma rata vergonhosa…

  6. Comentou em 03/07/2010 Dante Caleffi

    Faltaram os ‘Civita’ nessa relação do oligopólio ou cartel de comunicação.Talvez ,o mais pernicioso dessa plêiade. Os Syrotsky, são uma sucursal das ‘Organizações Globo’.Sua TV não tem conteudo próprio,é primária e sua imprensa lembra a redação de um ‘house-organ’ de condomínio de balneário.

  7. Comentou em 03/07/2010 Roberto Ribeiro

    Sucatear nem sempre trás prejuízos, muito pelo contrário, um sucateamento inteligente trás lucros. Em geral, estes não são extraordinários, mas seguros. Um grande jornal tem ativos valiosos, como a marca, e outros menos valiosos, como imóveis e máquinas. Separados, muitas vezes, eles valem menos que juntos. Muitas vezes um jornal grande tem revistas semanais subsidiárias que podem ser desmembradas e revendidas, às vezes tem a propriedade de pequenos jornais locais e sempre tem um sítio eletrônico, que pode valer algo. Desmanchando bem a coisa, algum lucro pode ser obtido pela decomposição de um grande jornal.

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