Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Números pró-Lula nas manchetes: cadê o complô?

Por Luiz Weis em 10/07/2006 | comentários

Se a imprensa tivesse mesmo feito um pacto contra a reeleição de Lula – como parecem acreditar os defensores da teoria do “complô da mídia” – as manchetes de dois dos três principais jornais brasileiros, justamente no domingo, quando mais vendem, poderiam ser qualquer coisa menos:

”Aumento da renda tira 6 milhões da classe D/E” (Folha) E “Sete milhões de pessoas sobem para classe média” (Globo).

Nem a manchete de hoje do Valor, o melhor diário econômico do país, cujos donos são a Folha e o Globo, seria “Crescimento faz trabalho dar um salto de qualidade”.

O que chama a atenção não são nem as matérias em si – mas o fato de terem recebido destaque à altura de sua importância.

Em outras palavras, as decisões editoriais de promover ao mais alto posto da hierarquia do noticiário reportagens inequivocamente favoráveis ao governo Lula.

No caso da Folha, tem mais. Dentro, o título da primeira do pacote de matérias a respeito é nada menos que “Lula promove 6 milhões de eleitores para a classe C”. Parece feita sob medida para exibição no horário de propaganda eleitoral, em agosto.

E tem mais ainda. A numeralha da Folha – que inclui o fortíssimo dado de que “praticamente a metade dos 125,9 milhões de eleitores (49%) considera hoje que sua situação econômica vai melhorar” – é produção da casa. Resulta de pesquisa do Datafolha.

Faz muita diferença. Uma coisa é divulgar números do IBGE, ou do Ipea, ou da FGV – porque seria um vexame ignorá-los quando sorriem para o governo, e, de resto, algum grande jornal os daria – outra coisa é o próprio braço pesquiseiro do jornal levantá-los, e o jornal mandar vê-los lá onde merecem estar.

Decerto nem os donos da Folha nem os do Globo, para não falar nos do Estadão, querem mais quatro anos de Lula. Ainda assim, mesmo se tivessem a fantasia de usar os seus veículos para tentar atropelar a reeleição, pensariam duas vezes antes de fazê-lo, por imperiosas razões de mercado – leia-se “o leitor não é burro”.

Para a grande imprensa, credibilidade é coisa séria. Muito diferentemente do que conta para a pequena imprensa dos grotões, que destaca, oculta ou distorce os fatos da esfera local e estadual, sobretudo, conforme a vontade dos coronéis que a controlam.

Se assim é, nem a percepção de que o noticiário, em geral, é mais anti-Lula do que pró, supondo que ela corresponda à realidade, deveria induzir os leitores a falar em complô da mídia.

Porque isso não prova necessariamente que exista nexo de causa e efeito entre uma coisa e outra. Sem provas, dá no que os estatísticos chamam “correlação espúria”.

Exemplo: hospitais são lugares cheios de doentes, mas seria uma correlação espúria deduzir daí que hospitais são lugares onde as pessoas adoecem.

Em suma, há mais coisas entre o céu e a terra, no Brasil de hoje, do que supõe a apressada teoria conspiratória da mídia.

***

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