Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CÓDIGO ABERTO > Desativado

‘Nunca fui pressionado a entregar o cargo’

Por Luiz Weis em 16/11/2006 | comentários

O jornalista Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás, enviou aos seus colegas da empresa a carta a seguir transcrita. Leia, a propósito, neste blog, a nota ‘A mídia e a mulher de César’, de 14/11.

O fato de que enviei uma carta ao Presidente da República pondo o meu cargo à disposição acabou sendo ventilado na imprensa. Vários veículos noticiaram o meu gesto e, em algumas das reportagens, ficou no ar a sugestão de que haveria um vínculo entre a minha possível saída e pressões supostamente articuladas para ‘partidarizar’ a Radiobrás. Não há relação direta entre uma coisa e outra e, para que todos tenham clareza sobre a real motivação da minha conduta, faço circular esta mensagem.

Não é de agora a minha intenção de abrir mão do cargo ao final do primeiro mandato. Ela já vem de um bom tempo. Numa entrevista que dei à revista ‘Caros Amigos’, em outubro de 2005, essa minha intenção já aparecia com todas as letras. Ela foi citada de novo numa outra entrevista, esta para o site ‘Comunique-se’, em junho de 2006. No prazo devido, sempre repeti, a renovação é saudável. Dentro da Radiobrás, muitos de vocês sabem que penso assim e muitos já estavam informados de que eu poria o cargo à disposição imediatamente após a reeleição de Lula, caso ela se confirmasse. Dito e feito. A minha carta, endereçada ao Presidente, com cópia para o Ministro Luiz Dulci, seguiu no dia de 31 de outubro, dois dias depois do segundo turno.

Que fique claro: nunca fui pressionado a entregar o cargo. Do mesmo modo, nunca recebi nenhuma recomendação expressa para ‘partidarizar’ a comunicação da Radiobrás. Se há setores do PT que não concordam com a linha de informar o cidadão com objetividade sobre os assuntos ligados aos seus direitos, se há setores que pleiteiam a volta da ‘chapa branca’ de comunicação, esses setores nunca se apresentaram a mim nesses termos. Caso alguém advogue o partidarismo das emissoras públicas, imagino que esse alguém tenha ficado nas sombras durante os quatro anos que estive por aqui.

Houve, sim, algumas contrariedades ao longo do caminho. São normais. Todo órgão de comunicação convive com insatisfações vindas dos mais diversos segmentos sociais. Enfrentamos debates e contestações, e não poderia ser diferente. A inércia na administração pública esperava da Radiobrás a manutenção do proselitismo governista. Nós frustramos esse tipo de expectativa quando interrompemos velhos hábitos que, no fundo, caracterizavam um desvio das finalidades legais da Empresa. Passamos a informar a sociedade com equilíbrio, apartidarismo e objetividade. Paramos de fazer propaganda dissimulada das autoridades. Claro que isso gerou incompreensões, aqui e ali, mas nada que impusesse uma alteração de rumo ao projeto adotado.

O governismo que vicejava na Radiobrás era uma forma de partidarismo e, por isso, tinha de ser repelido. Esta Empresa, com suas agências de notícias e suas emissoras, pertence ao cidadão e a ele deve servir, tenha ele a coloração ideológica que tiver. Ela não é um órgão de promoção pessoal dos ocupantes dos altos cargos do Executivo e não poderá mais ser usada como tal. A mesma democracia que não aceita que um hospital público adote critérios partidários para recrutar médicos ou internar pacientes não pode mais tolerar parâmetros partidários na direção de qualquer emissora pública. O direito à informação é sagrado, é de todos, e só a ele as emissoras públicas devem servir. A mais ninguém.

Ao longo desses quatro anos, o direito à informação foi o valor máximo da nossa administração, num compromisso que foi firmado no meu discurso de posse, no dia 2 de janeiro de 2003. Nunca recuamos. Ao contrário, avançamos velozmente, com resultados materiais. A quantidade de veículos da Empresa aumentou, a produção jornalística cresceu e, acima de tudo, a qualidade dos conteúdos subiu uns bons degraus. Em conseqüência, são mais numerosas as emissoras que reproduzem voluntariamente a nossa programação e as nossas notícias. Hoje, os jornalistas e radialistas da Radiobrás colecionam prêmios. A Radiobrás atual é melhor, mais ágil, mais competitiva, mais produtiva e muito, muito diferente da Radiobrás antiga. Qualidade, ética e apartidarismo andaram de mãos dadas na trilha da nossa evolução. O reconhecimento veio logo em seguida.

Outro ponto deve ficar claro: nada se fez à revelia do governo. O projeto se pôs de pé sob a supervisão do Poder Executivo, nos termos da lei. Os fatos atestam que o primeiro governo do Presidente Lula deu sustentação objetiva ao que se passou nesta Empresa. Atravessamos períodos tensos, é verdade, períodos complexos, polêmicos – mas nós os atravessamos intactos. Tenho orgulho de ter merecido a confiança do Presidente e, na carta que lhe enviei, agradeci a honra de ter sido escolhido para a função. Sem o apoio de que fui investido, o projeto não teria prosseguido.

Por fim, reitero que não me demiti. O que fiz foi pôr o cargo à disposição, o que é bem diferente. Ao Presidente e ao Ministro responsável cabe eleger a melhor hora para o meu afastamento, no ritmo e no prazo que eles julgarem adequados. Até lá, exercerei integralmente, com dedicação total, as minhas atribuições. Vocês devem seguir tranqüilos, seguros: na administração pública, o revezamento faz parte da regra, não constitui nenhuma extravagância. A Radiobrás está pronta para mais uma troca de comando. O belo trabalho que vocês realizam fala por si, tem autoridade natural. Não se esqueçam: os protagonistas dessa história são vocês.

Eu já disse que tenho orgulho de ter merecido a confiança do Presidente. Devo acrescentar agora que tenho ainda mais orgulho de ter merecido o respeito dos servidores desta casa, e sei que o mereci. O respeito só é verdadeiro quando é recíproco. E o respeito que nos une é assim, verdadeiro e recíproco.’

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 21/11/2006 Lindberg Dias

    Juntar um saco de penas, espalhadas ao vento é como procurar agulha no palheiro. Alguns preferem permanecer arredios, quando não omissos, outros a expressa imagem da incoerência, travestida de uma falsa moralidade. Isto é sem sobra de duvidas o que se pode observar em prolixos comentários. Uma turba, insistente e implacavel, sedenta de prosélitismo chulo e barato, esqueiram -se, qual horda temente e demente, saliente e incompetente, na incansavel busca de um ofício de ‘ CANDINHA ‘, buscando, como diz certo colega:’chifre na cabeça de cavalo’.rsrsrsrs.
    É claro e evidente que o exposto pelo jornalista Eugênio Bucci, então presidente da radiobrás, levado a conhecimento de diversos orgãos de informação, e aqui (OI), transcrito pelo jornalista Luiz Weis, não deixa margem para vãos comentários, isto porque a colocação clara e transparente, não reflete o descomedimento raivoso e irracional, com que alguns no afã de se fazerem notar, não cessam de meter os pés pelas mãos. Isto falo àqueles que empobrecidos pela falta de tino, não cansam de lançar mão de um partidarismo, rasteiro e barato; este, peculiar, àqueles travestidos de falsa moralidade que tentam achar onde não tem. Governantes vêm e vão, os fatos não são muito diferentes. Diferentes são aqueles que gostariam de protagonizar a história.’O respeito só é verdadeiro quando é recíproco. E o respeito que nos une é assim’ E Bucci

  2. Comentou em 20/11/2006 Washington Ferreira

    Se é assim que o governo Lula se relaciona com a imprensa dita ‘oficial’, fica patente que o governo espera, apenas, ‘informação com objetividade’, sem ‘proselitismo governista’, para usar as palavras do próprio Bucci. Agora, lidar com Estado de São Paulo, Veja, Folha de São Paulo e Jornal Nacional, amigo, não sei não: aqui não vai nenhuma defesa do uso da truculência, apesar de respeitar a opinião do Eduardo Guimarães, mas é preciso, como diz Marco Aurélio Garcia, que não se confunda ‘irritação’ com ‘insubimissão’ à tentativa dos repórteres destes veículos em querer contextualizar ações e declarações emanadas das autoridades do governo de forma parcial e anti-jornalística. A turma precisava saber o que o Hugo Chávez faz com a imprensa golpista na Venezuela: iriam se achar no melhor dos mundos aqui no Brasil. E olha que, a exemplo do ex-observador Alberto Dines, ainda acham que Lula é a favor de uma imprensa comprada e amordaçada. Repetindo Eugênio Bucci: ‘Eu já disse que tenho orgulho de ter merecido a confiança do Presidente. Devo acrescentar agora que tenho ainda mais orgulho de ter merecido o respeito dos servidores desta casa, e sei que o mereci. O respeito só é verdadeiro quando é recíproco. E o respeito que nos une é assim, verdadeiro e recíproco.’ E ponto final.

  3. Comentou em 20/11/2006 Ricardo Maia

    Nos dois anos que trabalhei com um portal de notícias voltado para o meio agro, sempre tivive confiança na Radiobrás. A princípio tive um pouco de receio, por tratar-se de uma emissora governamental, mas ao longo do tempo percebi a seriedade na condução do veículo. Sempre confiei na emissora. Parabéns Eugênio Bucci.

  4. Comentou em 20/11/2006 Marco Tognollo

    E o Estadão, hein???faz até editorial querendo politizar a saída do Bucci……lamentável…..os editores do OESP estão pensando ‘inho’….

  5. Comentou em 20/11/2006 ricardo feltrin costa

    duas reservas morais salvaram o governo Lula da crise política e ética: a Polícia Federal e a Radiobrás. parabéns a Eugênio Bucci e longa vida a ele à frente da emissora.

  6. Comentou em 20/11/2006 Paulo Bandarra

    Versão aceita pelos que não aceitam explicações dos outros. Pode não ter havido pressão até agora, mas isto não garante pressões no passado ou futuras. FHC demitiu o Presidente da Petrobrás que era contra a privatização da mesma e dizia isto aos quatro ventos. Outra possibilidade é o presidente da Radiobrás usar a mesma não por pressão mas por alinhamento a quem quer que esteja no governo. E não reconhecer pressão achando que é apenas orientação. Por falar em Petrobrás, quanto é que a mesma paga pelo nosso próprio petróleo?

  7. Comentou em 20/11/2006 claudia Rodrigues

    A Radiobrás teve uma melhora notável e não foi só nas aparências, como no governo FHC, foi jornalismo superior ao das corporações privadas de mídia, ultra chapa-brancas. Com ou sem Eugenio Bucci, tomara que continue no rumo certo.

  8. Comentou em 18/11/2006 Ana Maria Cerviño de Macêdo

    Parabéns a Eugênio Bucci pelo ótimo trabalho desenvolvido no comando da Radiobrás. Assisto, com regularidade, a diferentes programas veiculados pela TV Nacional e considero-os de qualidade superior à maioria dos programas de outras emissoras. Faz toda a diferença servir ao interesse público em vez de se submeter a critérios de mercado ou do lucro de alguns. A Rede Pública é um instrumento importante na consolidação da cidadania e na construção uma sociedade mais democrática, esclarecida e humanizada.

  9. Comentou em 17/11/2006 Eduardo Guimarães

    Luiz, esse é apenas mais um exemplo da monstruosa, da descomunal coluna de fofocas em que se converteu a grande imprensa. Caso pior do que esse é o do ‘novo petista envolvido no escândalo do dossiê’. Um indício esquálido, débil a não mais poder torna-se veredicto de culpa. O enorme destaque dado a esse caso é ridículo. Daqui a pouco o assunto desaparece do mesmo jeito que apareceu, mas, nas cabeças dessa hidra apavorante que é a imprensa, ela pensa que fixou um pouco mais no imaginário do público que ‘mais um petista está envolvido no escândalo’. Sério, Weis, eu, pela minha natureza, fico horrorizado com o nível do debate que se estabeleceu no Brasil no que tange a questão da mídia. Insultos, agressões as mais torpes de parte a parte… Mas quando vejo a continuidade desse complô para desmoralizar Lula, seu governo e seu partido, hesito em continuar propondo comedimento. Talvez só reste o caminho da truculência para combater a truculência, por mais triste e obscuro que seja esse caminho.

  10. Comentou em 17/11/2006 Marnei Fernando

    O Esconde-esconde – Quando fatos ou fotos importantes não são mostrados:

    – De onde veio o dinheiro para compra do dossiê ao invés de mostrar efetivamente o que há dossiê;
    – A quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo, ao invés de investigar o fato de a denúncia irresponsável dele ter sido feita depois de identificado um depósito de 30 mil reais altamente suspeito em sua conta uma semana antes das declarações;
    – Montagem do aplauso na ONU no lugar do Prêmio Estadista do Ano conferido a Lula em 2006;
    – Foto do banner de Hugo Chavez no lugar da foto da majestosa ponte sobre o Orinoco;
    – A notícia da Ponte, no lugar da notícia sobre gafe Venezuela/Bolívia, ao invés de mostrarem as faixas ‘Lula como presidente do Mercosul.”

    O que obriga aos leitores estar etentos aos acontecimentos e não confiar no que sai no jornal.

    Como diria Raul Seixas ‘Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz’.

  11. Comentou em 17/11/2006 Marnei Fernandpo

    A Inversão da Notícia – quando a boa notícia é desvirtuada:

    – Importação bate recorde, mas ainda é baixa;
    – Emprego e renda sobem, mas o ritmo é fraco;
    – Índice de cheques devolvidos cai, mas ainda é alto;
    – Consumo de combustíveis bate recorde, mas ainda é pouco;
    – Juros bancários se reduzem, porém timidamente;
    – Venda de gás atinge recorde, mas oferta pode cair em 2008;
    – Reservas superam US$ 80 bi e batem recorde, mas ainda são pequenas;
    – Inadimplência cai para menor nível, mas povo tá endividado;
    – Aumenta superavit da Balança, mas ainda é reduzido;
    – Aumenta crédito no Brasil, mas ainda há espaço pra crescer;
    – Preço da cesta básica cai, mas ainda é alto;
    – País ruma ao Grau de Investimento, mas crescimento é fraco;
    – Recua custo da construção civil, mas ainda é elevado;
    – Setor automobilístico tem melhor outubro da história, mas podia crescer mais;
    – Lucro do comércio cresce, apesar de vendas fracas;
    – Jovens chegam ao mercado de trabalho, mas falta qualificação.

  12. Comentou em 17/11/2006 Marnei Fernando

    Como o governo Lula em geral é tratado pela ‘grande’ mídia.

    O Fato Fajuto – quando um factóide é inventado ou supervalorizado:
    – A manifestação Fora-Lula em São Bernardo, com apenas 1 bandeira estendida na janela;
    – Depoimento dos repórteres de Veja; quebra de sigilo da F. de São Paulo;
    – A vaia ao presidente por 30 manifestantes, entre os milhares que o apoiavam;
    – Dólares de Cuba, milhões em garrafas de uísque, dólares em caixa de charuto;
    – PMDB e PT travam batalha campal por espaço no governo;
    – Conta de Lula no exterior. etc.

  13. Comentou em 17/11/2006 Marnei Fernando

    Fica claro mais uma vez como a mídia cria mentiras o tempo todo para prejudicar o governo Lula… e depois reclamam do presidente dizer que isto acontece… é assim que a imprensa e seu observatório ficam a cada dia menos desacreditados…

  14. Comentou em 16/11/2006 Mirna Vieira

    Muito bem, parabéns, evitou o partidarismo da radiobrás.
    Coisa que a midia dita isenta como a globo não fez, a folha não fez, estadão não fez e a veja menos ainda.
    Requião que o diga! Sofreu as penas do diabo com a campanha feroz da globo e da rpc para derrota-lo!

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