Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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O apagão aéreo e os outros apagões

Por Luiz Weis em 05/07/2007 | comentários

Os jornais do dia apresentam as conclusões (ainda não definitivas) da CPI do Apagão Aéreo. Sobra para Deus e todo mundo: Anac, Infraero, empresas, Aeronáutica, controladores…

Deve ser tudo verdade. Ainda assim, o problema é mais embaixo: em um número cada vez maior de países onde voar se tornou uma trivialidade para legiões de pessoas, o sistema de transporte aéreo está rebentando as costuras.

O Brasil, onde nunca se voou como de uns tempos para cá, vai pelo mesmo caminho. A jato, se me permitem o jogo de palavras.

Descontando as peculiaridades nacionais – que nem são tantas assim – a matéria resumida a seguir, do New York Times de hoje, parece falar da gente. Tem por título: “A feia matemática das aéreas: aviões atrasados, passageiros mais atrasados ainda”:

“Como qualquer um que tenha voado recentemente decerto pode lhe dizer, os atrasos estão ficando piores este ano. A pontualidade das aéreas nunca esteve pior, mas mesmo os números oficiais nem começam a dar conta da severidade do problema.

Isso porque essas estatísticas registram os atrasos dos vôos, não das pessoas. As demoras mais longas – que resultam de conexões perdidas e vôos cancelados – exigem passar horas ou até dias em aeroportos e hotéis e não são oficialmente computadas.

Pesquisadores do Instituto Massachusetts de Tecnologia [MIT] descobriram anos atrás que, se conexões perdidas e cancelamentos de vôos fossem incluídos nos cálculos, a demora média seria 2/3 maior do que a consta nas estatísticas.

Eles constataram também que, com os aviões cada vez mais cheios – e nunca estiveram tão abarrotados como hoje -, a demora se estende porque fica mais difícil achar lugar nos vôos seguintes.

Os mesmos pesquisadores estão atualizando o seu estudo. Mas eles já sabem que, com a lotação dos vôos domésticos na casa de 85% a 90%, o que significa que virtualmente todos os aviões nas rotas dedsejadas estão cheios, os atrasos vão aumentar muito.

Cerca de 1/3 dos passageiros domésticos fazem pelo menos uma conexão entre o ponto de partida e o destino final.

Nos cinco primeiros meses do ano, mais de um 1/4 de todos os vôos nos Estados Unidos chegaram pelo menos 15 minutos atrasados.

Aos vôos cheios devem-se acrescentar fatores climáticos, um sobrecarregado sistema de controle de tráfego aéreo – sem falar no mau humor dos atendentes, depois que os seus salários foram reduzidos enquanto os executivos das aéreas embolsam gordos benefícios.

Ainda sobre as falhas estatísticas, se um vôo sai do portão, fica parado horas a fio, acaba voltando e sendo cancelado, o atraso não é registrado. O mesmo para vôos desviados para outros aeroportos.

Isso explica por que, no caso de determinada companhia, a Continental, levantado pelo MIT, em agosto de 200 o atraso médio foi de 15,4 minutos. Mas, incluindo o tempo total perdido pelos passageiros, a média alcançou 25,6 minutos – 66% a mais. Num único dia, 1.658 passageiros perderam suas conexões.

A aérea adotou um novo sistema de envio de e-mail – e, a partir do mês que vem, de mensagens de texto a celulares – informando os passageiros com conexões para que vôos foram transferidos.

Só que esses novos vôos são daí a três dias.

A empresa tenta hospedar em hotéis próximos os que não conseguem reembarcar no mesmo dia. Mas faltam quartos perto dos aeroportos. Quando isso acontece os funcionários tiram do depósito alguns dos 600 catres para que os passageiros durmam nos próprios terminais.”

Agora, olhem em volta e vejam se outros sistemas da chamada vida moderna não estão também saturados. O trânsito nas cidades é o primeiro e mais óbvio exemplo.

Em São Paulo, nos anos 1970, imaginou-se que a construção desse câncer urbano chamado minhocão e a degradação das margens dos rios em vias de tráfego dariam um respiro duradouro à circulação estrangulada. Ontem, em plenas férias de julho, a cidade teve o segundo maior congestionamento do ano.

Essa é a questão que a mídia deveria ressaltar, ligando os pontos: por onde quer que se a examine, a infra-estrutura de transportes, edificações e energia está batendo pino em toda parte, pressionada, de resto, pelo atual ciclo de prosperidade no mundo globalizado.

Vai ficar pior. Porque as populações que passaram a desfrutar dos mais avançados confortos materiais da modernidade não querem, naturalmente, voltar a viver como viviam quando não tinham acesso a eles. E as populações que ainda deles não desfrutam tanto como gostariam não vêem a sua hora também chegar.

Resumo da ópera: ‘Relaxar e gozar’, só em casa – e olhe lá.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 06/07/2007 Ivan Moraes

    Um coisa mais que nao pode ficar sem ser explicitada: populacoes aterrorizadas de todos os paises do mundo aonde votacoes existem votam conservativamente, isso eh, na direita. O apagao da seguranca brasileira do ponto de vista historico sempre foi conveniente para a direita. Depois que parou de funcionar descobriu se que a inseguranca nao foi embora. Que a violencia nao se ausentou.

  2. Comentou em 06/07/2007 Gabriel Sitônio

    Caro articulista, você está querendo que os números de registro mudem de porcentagens de aeronaves em atraso para registro de pessoas que sofreram com o atraso, correto? Eu também concordo e vou mais além. Tem que se calcular também o caos que estão nossas metrópoles com engarrafamentos quilométricos. Imagine como seria um engarrafamento numa metrópole média (Recife)? ‘Engarrafamento na volta ao trabalho deixa 100 mil pessoas na rua’. E em SP? ‘Engarrafamento com mais de 1 milhão de paulistanos pára São Paulo’. Sem condições né? Caro articulista, eu já estou relaxado e gozando a muito tempo. Essa eterna briga política entre OPOSIÇÃO x GOVERNO x IMPRENSA x GENTE DO POVO só está demonstrando o quando precisamos evoluir. A Imprensa é importante para uma democracia, mas essa mesma imprensa não está muito interessada em querer entender o cidadão. Olhe ao seu redor, existe vida, gente, lazer, trabalho, família, amigos… Falo isso não para a Imprensa parar de fazer o seu papel de fiscalizador dos poderes, mas que olhe e reflita também o seu papel nessa democracia tão defendida por todos.

  3. Comentou em 05/07/2007 tony knopp

    Louie – will it change after a horrific accident? … in the US we can always sue which tends at times to move things – what are the options in our wonderful country

  4. Comentou em 05/07/2007 Ivan Moraes

    Porque ninguem faz comparacao historica e porque ninguem faz comparacao com outros campos? Eh sempre a mesma estrutura de falha, seja ela privadas pra populacao, construcao de estradas, importacao de bens, gerenciamento de **qualquer** industria brasileira de pequeno porte, hospitais, educacao, transporte aereo, transporte urbano, e facilmente mais uma dezena de coisas. Pode ir checar todas uma por uma. A UNICA INFRAESTRUTURA QUE FUNCIONA BEM NO BRASIL EH A INFRAESTRUTURA DA EXPORTACAO DE BENS A PRECOS MAIS BARATOS DO QUE OS BRASILEIROS PAGAM –E NADA MAIS. Ninguem acha esquizito que os precos da alimentacao estao ‘previstos’ a subirem exatamente agora?

  5. Comentou em 05/07/2007 Luiz Carlos Bernardo

    ‘Relaxa e goza’ disse a ministra Marta Suplicy. É isso o que os políticos pensam e desejam para nós. Eles são bonzinhos, tão prestativos, tão amáveis e extremamente solidários com o povo. ‘Relaxar e gozar’ é uma prática saudável e diuturnamente exercida por todos. Obrigado ministra, jamais vou esquecer deste seu gesto de solidariedade. Fiquei deveras emocionado. E o que importa os atrasos dos vôos e a insegurança aérea, diante da nobreza de nossa ministra?

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