Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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O Brasil é isso aí

Por Luiz Weis em 03/03/2007 | comentários

Uma das atividades mais gratificantes neste blog é compartilhar com os leitores textos saídos na imprensa que são usinas de idéias. É o caso do artigo do ex-ministro da Educação, Cristovam Buarque, publicado hoje no Globo, sob o título ‘Sociedade hedionda’.


 


O Globo tem a menos amigável edição online dos jornais brasileiros. Não é preciso pagar nem ser assinante da edição impressa para ler o jornal na net. Mas dá um trabalhão – experimentem para ver -, com a a agravante de que o sistema usado impede que se selecione e copie qualquer de seus textos.


 


Driblando o bloqueio – não perguntem como – copiei o artigo para publicá-lo aqui. Leiam e digam se não é um dos textos mais inteligentes, sensíveis e humanistas já publicados na imprensa brasileira sobre o horror cotidiano deste país, pelo menos na sua versão 2007.


 


Por isso mesmo, a sua leitura deixa um gosto amargo na boca. Não há como adoçar a realidade produzida por essa sociedade hedionda. O Brasil é isso aí. O artigo:


 


‘Estudos recentes mostram que a probabilidade de que um preso brasileiro tenha vindo de uma família miserável é o dobro do que para o resto da população.


 


Revelam também que pessoas com menos de seis anos de estudo têm duas vezes mais chances de estarem presas do que pessoas educadas. Por isso, a desigualdade social tem sido apontada como a principal causa da violência, ao lado da falta de escolaridade. Dessa forma, medidas mais duras contra o crime, inclusive a redução da maioridade penal, seriam, aparentemente, medidas contra os pobres.


 


Até porque os ricos, com seus advogados e sua influência sobre a polícia e a justiça, terminam escapando da prisão. Mas os que defendem o maior rigor das leis insistem que suas propostas não são contra os pobres, porque eles são pacíficos.


 


De fato, os pobres brasileiros são pacíficos. Há séculos, no campo, pobres brasileiros sem-terra assistem, pacificamente, aos seus filhos morrerem de fome, enquanto as grandes empresas exportam comida. Nas cidades, pobres pedem esmolas com filhos esfomeados em frente a supermercados abarrotados de comida; ou com filhos doentes, em frente a farmácias repletas de remédios. Pacificamente, famílias inteiras vivem embaixo de viadutos, ao lado de luxuosos condomínios.


 


Os pobres brasileiros são obviamente pacíficos. Pacíficos até demais, diriam alguns. Afinal, assistir pacificamente aos filhos morrerem de fome ou doença, ao lado da comida e do remédio, é um pacifismo tão radical que chega a ser antinatural. É um admirável respeito pacífico à lei dos homens, porém, totalmente contrário às leis da natureza. A história do Brasil é um romance de pacifismo, aceitação e conformismo da multidão de pobres, ante a desigualdade e o acinte da riqueza de poucos.


 


Assassinar é um crime gravíssimo, não importa a idade do criminoso. Assassinar um menino arrastando-o pelas ruas do Rio de Janeiro é um crime mais que gravíssimo — horroroso.


 


Mas também é um crime hediondo deixar milhares de meninas, a partir dos nove anos de idade, serem arrastadas vivas pelas ruas e praias do Brasil como prostitutas infantis.


 


Um jovem educado, com futuro assegurado, tem muito menos incentivo para cair no crime; mesmo assim, alguns terminam caindo. Um jovem sem futuro, sem educação para buscar uma alternativa na vida, assistindo à violência maior da abundância ante a miséria, tem um incentivo imediato para aderir criminalidade; mesmo assim, nem todos caem no crime. E aqueles que tiverem caído devem ser punidos. Porque os pobres são pacíficos, mas a pobreza é violenta em si, e fabricada.


 


Nem todos resistem às necessidades, aos desejos de consumo, ao abandono, à ostentação dos outros. E terminam contaminados pela maldade da sociedade perversa, até caírem na perversidade individual do crime.


 


Alguns bandidos são violentos, outros assim ficaram. E ficaram por causa de alguma falha na sua formação, no decorrer de sua infância e adolescência. Os que cometem os crimes têm de ser punidos. Principalmente os que fabricaram os criminosos que poderiam ter tido outro rumo na vida.


 


Têm razão os que defendem que todos os criminosos sejam punidos, independentemente da classe social, se pobres ou ricos.


 


Até porque o perdão a criminosos é uma injustiça contra imensa massa de pobres, que são as maiores vítimas da maldade dos bandidos. Mas também devem ser punidos aqueles que fabricam a violência, por ação ou omissão; aqueles que constroem uma sociedade perversa, hedionda, criminosa ela própria. Porque os pobres são pacíficos, mas a pobreza é uma violência. E mais, é uma fábrica de mais violência.’


***


Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/03/2007 Carlos N Mendes

    Os pobres brasileiros são mansos, sim. Tem tão pouco a perder em mesmo assim, evitam arriscar esse pouco. Por quê será ? Talvez seja a esperança. De alguma forma, essa gente conserva a esperança. Esperança não é poesia; esperança é a expectativa que amanhã pode ser melhor. Sem se alongar, é o que mantém nossa sociedade sem explodir. De alguns, ela foi tirada. Essa gente dificilmente passa dos 30 anos de idade. Estão mortos ou na cadeia. O que o Estado pode fazer é dar esperança a todos, igualmente. Á imprensa resta dar tratamento igual aos crimes, independente contra quem foi cometido. Alguns sinais foram vistos essa semana, quando deram grande destaque à criança de 2 anos morta no colo do avô. Mas isso é cíclico, logo esquecem…

  2. Comentou em 06/03/2007 jorge cordeiro

    O sistema do Globo online é mais do que pouco amigável, é burro. É fácil entender: ele só impede os usuarios comuns de copiarem um texto, aquele pessoal que quer apenas copiar e colar a informacao num email e repassar a alguem. Quem realmente quiser piratear o conteudo deles vai no Page Source da página e copia tudinho, sem maiores problemas. Só eles não percebem isso… (www.escriba.org)

  3. Comentou em 04/03/2007 marina chaves

    existem criminosos que possuem doenças psiquiatricas serias…. nao importa, serão criminosos pois as doenças que os acometem os levam a praticar atos violentos… ok…. mas ai entra um outro problema: o problema social, e a divida é imensa…. pois para a elite desse pais, pouco importa, a economia crescendo ou nao, com inflaçao ou nao, com altos impostos ou nao, nao perde nunca… eu queria sabr qual é o milagre ….. temos leis que sao avançadas no que diz respeito aos direitos sociais, mas simplesmente nao sao cumpridas, ou pouca coisa se faz…. pecamos por omissao, é isso! outro dia eu li, nao me lembro onde, uma entrevista com a proprietaria daquela loja famosa, daslu… o reporter perguntou como era os negocios na época em que o brasil tinha uma inflaçao muito alta… e ela respondeu; nao senti esse periodo em meus negocios, pois a clientela continuava comprando normalmente….

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