Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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“O cerco é uma dramaturgia”

Por Mauro Malin em 19/06/2007 | comentários

Eis a entrevista dada ontem (18/6) por Paulo Baía.


Um arquiteto chamado Luiz Carlos Toledo diz em reportagem do Estadão de domingo (17/6) sobre verbas do PAC para áreas faveladas do Rio: “Isso é o preço que nós estamos pagando por ter ignorado a Rocinha durante oitenta anos”.


Paulo Baía – A nossa tese é o inverso. É a de que o Estado está presente: para oprimir e massacrar.


Eu gostaria de ouvi-lo a respeito da situação desde 12 de março, quando fizemos nosso debate.

P. B. – O cerco no Alemão se mostra absolutamente ineficaz. O que acontece lá é o que tem acontecido sempre. Não há um planejamento policial adequado. Dizer que estão tomando os territórios para o Estado ocupar também não é verdade, porque o Estado já está lá com aquela maneira displicente e discricionária com que trata aquela população. E sem objetivos definidos, com resultados muito baixos. Por exemplo, se o foco é o combate à criminalidade e o fim do narcovarejo naquela região, até agora os resultados são pífios. Quantos narcovarejistas foram presos; quantas armas foram apreendidas; quantos quilos de drogas? O que se tem é uma quantidade imensa de violação de direitos daquela população que não é reconhecida como população, revistas abusivas a todos, idosos, crianças, gestantes, tiroteios inócuos: da polícia atirando para cima sem objetividade e dos bandidos de cima atirando exclusivamente no blindado. Se os bandidos quisessem, matavam os policiais: atiravam nas Blazers ou nos Gols, que não são blindados.


As pessoas ficam discutindo a eficiência e a eficácia, e eu acredito que é para ser assim mesmo, aquilo é um jogo de cena. Há uma dramaturgia de cerco policial como há uma dramaturgia do avanço dos narcovarejistas em relação à polícia. Se a polícia quisesse, efetivamente, acabava com os narcotraficantes, e se os narcotraficantes quisessem, efetivamente, havia um massacre contra as tropas policias.


A cena que mais me chocou foram os tiros com o Comandante Geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro lá. Que não foram dados em cima dele, foram dados por sobre ele, porque se quisessem atiravam nele.


Mas não deixa de ser chocante.


P. B. – É chocante a cena de você ver o chefe do policiamento ostensivo do segundo Estado da Federação andando nem ande tão rápido para não parecer covardia, nem tão devagar para não parecer provocação. Mas ele sendo expulso simbolicamente daquele território.


E que desfecho o senhor imagina que isso possa vir a ter?


Cerco na Rocinha durou nove meses


P. B. – O desfecho será semelhante ao cerco da Rocinha, que as pessoas, isso eu insisto sempre, a imprensa e nós temos memória curta, nós não refletimos sobre o que nós vivemos há pouco tempo.


A Rocinha teve um cerco policial-militar de nove meses durante os anos de 2003 e 2004. Em que três mil e tantos homens foram mobilizados para o grande cerco da Rocinha. Aí você cruza com a matéria que saiu ontem e o que vem saindo sobre a questão da Rocinha. No início dos anos 80, teve um grande cerco – aliás, teve o maior engarrafamento da história do Rio de Janeiro –, que acabou com a morte da presidente da associação de moradores de lá, Maria Helena. As coisas são recorrentes. Qual é o desfecho do cerco do Complexo do Alemão, Penha, Olaria e Ramos? Será o mesmo do cerco da Rocinha, será o mesmo do cerco da Maré. Será o mesmo de todas as demais incursões. Cairá no esquecimento e aquela população continuará tendo a presença do Estado na sua face mais perversa: professores que não querem dar aula porque acham que aquela população não merece ter aula, médicos que tratam mal a população, policiais que tratam mal aquela população, um serviço de coleta de lixo inócuo, um saneamento que existe e é mal-tratado porque é daquela comunidade – se fosse em outra área seria bem-tratado.


Eu reajo a esta idéia da ausência do Estado. Você chega lá em todo o Complexo do Alemão, você vê as ruas asfaltadas. Alguém asfaltou aquilo. Quem foi? Foi a Prefeitura. Você vê postes com iluminação pública. Quem foi que colocou ligações domiciliares de luz? Ligações domiciliares de água tratada da Cedae [Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de janeiro]? O Estado está lá! Dizer que o Estado não está lá, não é verdade. O que não está lá é o respeito e a inclusão com direitos daquela população. Porque o Estado brasileiro – e esta idéia também é velha, já o Victor Nunes Leal falava nisso, o Tavares Bastos falava nisso, o Raimundo Faoro falava nisso: concentra riqueza, renda, prestígio e poder em muito poucos, e tem como contrapartida uma imensa concentração de miséria, de indigência e de desclassificação social. Este é o modelo anacrônico da sociedade brasileira. E o que tem acontecido é que essa população de desvalidos começa a rebelar-se, independentemente da presença dos criminosos.


(Transcrição de Tatiane Klein.)


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