Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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O ciclo dos mensalões põe grandes jornais brasileiros diante de dilema

Por Carlos Castilho em 30/11/2009 | comentários

Depois do mensalão do PT vieram os do PSDB e agora o dos Democratas, no governo do Distrito Federal. Todos os três seguem mais ou menos o mesmo script mostrando que o uso do suborno em dinheiro é generalizado e, mais do que isto, virtualmente institucionalizado, porque os acusados e suspeitos reagem como se não estivessem cometendo um delito. Simplesmente tiveram o azar de serem flagrados.


 


O ciclo dos mensalões mostra também que, como a prática é generalizada, há um farto material disponível para retaliações, denúncias anônimas e deduragem a granel. Alimenta igualmente a engrenagem denuncista da mídia, que se transformou no palanque ideal para ajustes de contas entre desafetos políticos.


 


Para o leitor de jornais, a sucessão de mensalões deixou de provocar escândalo e indignação para gerar uma coisa muito pior: indiferença. É o sintoma de que a política e os políticos já não representam quase nada para a população, tal o grau de degradação moral a que chegaram os nobres deputados e senadores.


 


Passamos a olhar Brasília como uma espécie de circo onde atores canhestros procuram fazer de conta que trabalham para o eleitor quando, na realidade, preocupam-se apenas com a manutenção do próprio emprego e a ampliação de seu patrimônio.


 


Neste circo, a mídia é um coadjuvante pouco expressivo porque se limita a oferecer os microfones, câmeras e manchetes para que a troupe de excelências promova a pantomina de sempre, trocando acusações descontextualizadas que, em geral, acabam em nada.


 


A indiferença do leitor é o sintoma de cansaço com a sucessão de escândalos nos poderes Legislativo e Executivo, onde quotidianamente alguém acusa alguém de algo só para aparecer na mídia. Pura performance.


 


Os jornais acham que estão prestando um serviço ao leitor ao afogá-lo com informações, vídeos, gravações e fotos sobre atos ilícitos cometidos por funcionários públicos, parlamentares e governantes. Só que o público passou a rejeitar também a imprensa porque começou a vê-la como uma ferramenta inútil para mudar o estado de coisas.


 


O que a imprensa parece não ter percebido é que o tão falado “mar de lama”  na política tupiniquim já foi longe demais. Os editoriais dirão que não cabe à imprensa mudar as coisas, simplesmente noticiar o que está acontecendo. Mas o público quer mudanças e se não encontra elementos na imprensa para ajudá-lo nesta busca, vai seguramente procurar noutro lugar.


 


A desilusão do publico com os políticos se soma à queda nos índices de circulação dos jornais. Se estes insistirem na estratégia de usar a política como forma de tentar manter sua participação no jogo do poder, podem se afastar ainda mais do público, agravando o seu déficit de receita com venda avulsa.


 


A sucessão de denúncias e escândalos de certa forma criou anticorpos no leitor, que não se impressiona mais com as maracutaias em Brasília. Uma forma de reconquistar a atenção do público seria identificar-se com o desejo de mudança, mas é aí que as redações tropeçam na inércia das suas direções.


 


Os laços com a elite político-partidária do país são fortes demais para serem rompidos repentinamente. Os jornais pareciam esperar que os eleitores fizessem a mudança, via urnas, para buscar depois uma reacomodação com os novos mandantes. Foi assim no início do governo Lula, mas quando o establishment brasiliense percebeu que a tendência era o fortalecimento do ex-metalúrgico, ficou difícil resistir à tentação conservadora. 

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/12/2009 Ibsen Marques

    A sensação que eu tenho é exatamente essa, que desenvolvemos anti-corpos. É claro que todos comentam o noticiário, mas os comentários não passam de ironias e piadas sobre o ocorrido, ninguém que conheço está seriamente empenhado em entender tudo isso (se é que se pode entender). Todos temos a certeza prévia de que nada vai acontecer. Impunidade total; pior, estamos certos que as próximas eleições só servirão para trocar as moscas. Além de tudo isso, estamos sempre desconfiados que esse sensacionalismo tem segundas intenções, tais como minar o governo federal, atingir esse ou aquele político ou facção ou vingança por não ter obtido essa ou aquela benesse. O Brasil precisa mesmo, não de uma reforma, mas de uma profunda revolução em seu sistema político-partidário, pois o que vemos hoje são somente os partidários do toma lá dá cá. Esse pessoal inclusive me deu uma idéia para montar um pequeno negócio, mas que pode crescer muito repidamente: a fabricação de cuecas com bolsos internos com fecho e bem reforçados e meias de dupla camada. Elas poderiam vir com folhas de jornal como forração. Acho que essa seria a única utilidade para eles atualmente.

  2. Comentou em 03/12/2009 Alexandre Pastre Gonçalves

    A nomenclatura hermética, e não só os escândalos e os problemas estruturais, faz parte do cansaço. O brasileiro, com razão, dificilmente consegue reagir de outra maneira quando ouve ou lê sobre ‘Anões do Orçamento’, ‘escândalo da pasta rosa’, ‘máfia dos sanguessugas’, ‘escândalo dos precatórios’ e tantos outros gafanhotos e sucessivas CPIs. A informação sem acessibilidade dificilmente será transformadora.

  3. Comentou em 02/12/2009 Alan Correia deAlmeida

    Comcordo com essa afirmação que ‘ o leitor criou anti corpos, ‘ é nítida a falta de confiança que nois os leitores temos, até por que somos bombardeados constantemente com escandalos político, esta se tornado já um costume algum político, um grande líder de uma grande empresa desviar, sonegar e burlar regras da constituição. Vejo a mídia como ajudadora de tais escandalos, só aparace nas manchetes o que já quase obvio, que os anos vam passando e a falta de onestidade vem almentando. Quando chega as épocas de eleição eu fico louco só de pensar que as escolhas que tenho, é de votar em um partido que acima de tudo visa seu benefío mesquinho e prórpio, que grandes discuçães abertas no plenário não chagam nem perto de algum bem maior, nem dos leitores, nem de populção alguma ! Para encerrar eu quero colocar uma pergunta, como minimizar esses tipos de escandalos políticos, se quem elege é agente, se quem escole o partido somos nois ? Cabe a gente decidir o nosso futuro, não estou pedindo uma revolução, estou pedindo os meus direitos como cidadão !

  4. Comentou em 02/12/2009 Dante Caleffi

    Mar de Grana supera o mar e lama. Quem desses periódicos pode afirmar que o que divulgam e ‘informam’ é ‘escandaloso e ‘inédito’?
    Todos são participes e continuam sendo ,beneficiários de recursos públicos,de concorrências dirigidas,de ‘mensalões’ sob forma publicitária aos seus aliados,
    favorecendo políticos e grupos que defendem seus interesses.

    Mais grave ,ainda, hoje,mais do que em qualquer época pautam os partidos de oposição,cobram atitudes e estratégias,comportam-se acima da cidadania e das instituições. Claro, longe de câmeras,gravadores,grampos e leis…

  5. Comentou em 02/12/2009 Herman Fulfaro

    Não tenho visto indiferença popular em relação ao chamado DEMensalão. Não moro em Brasilia para participar mais ativamente, mas vi pela televisão inúmeros protestos de indignação. Agora, no que diz respeito à imprensa talvez não seja cansaço, desgaste ou excesso de anticorpos na corrente sanguínea, mas omissão pura e simples, o que talvez se explique pelo fato de haver muito jornalista, gente ligada à mídica ou dono de jornal diretamente envolvidos na maracutaia. Li o processo de cabo a rabo e fiquei impressionado com esse particular. Basta notar que o sujeito que enfia o dinheiro na cueca, Alcyr Collaço, é dono de um dos três jornais de Brasília, existindo referencias comprometedoras, ademais, embora não necessariamente traduzidas em vídeo, quanto o dono do Correio Brasiliense e um dos sócios da Band-News do Rio. Trata-se de uma espécie de abreugrafia (refiro-me ao tamanho reduzido da chapa, já que esses meios são relativamente pequenos perto da Globo, Veja, Folha, Estadão) do funcionamento do PIG.

  6. Comentou em 02/12/2009 Cristiana Castro

    …de reiventarem-se para manter-se como poder paralelo, não eleito dentro do Estado. Embora arvorem-se de grande executivos, não souberam lidar com aprimeira pedra no sapato. Problemas à vista, obviamente, não são grupos nacionais e vão matar aqui dentro mas não vão perder o conrole da AL. Recebemos informações de pessoas ou instituições que não tem nada a ver com os interesses do país e menos ainda da população, e não temos como dar credibilidade a nada que venha daí, a menos que se mostrem. São covardes, tem medo e são poucos, mas promovem matança, guerra, genocídios, pelo mundo afora. Castilho, a Imprensa brasileira é esta que está aqui na internet. Essa estrutura ‘ midiática’ tem que ser varrida da AL, não importa se o governo é de direita ou de esquerda, não existe uma estrutura desse tamanho dentro de um Estado e pior, vindo de fora dele. Pode escrever aí, Castilho, essa estrutura vai levar a AL ao inferno mais uma vez dentro de muito pouco tempo, eles não vão perder a AL, sobretudo o Brasil. Vai ser o caos pq ninguém está disposto a entregar mais nada a eses porcos. Nem os ouvidos estamos emprestando mais.

  7. Comentou em 01/12/2009 Cristiana Castro

    Castilho, eu não acredito que os escândalos sucessivos tenham criado anticorpos nos leitores, eu penso que nós, leitores, estamos mais preocupados com o resultado que a Imprensa deseja obter com a produção de um detrminado escândalo do que com o escândalo em si. Deveria ser um momento de reflexão para a Imprensa, como está sendo paa os leitores. O imponderável aconteceu, a única certeza que se tem é que não se pode acreditar em nada do que é publicado, tudo pode ser um mais um factóide. E o mais assustador e que desperta a desconfiança geral, é o fato da Imprensa que sempre calou a todos e que ainda fala sozinha, estar querendo colocar-se numa posição de impedida. A imprensa é livre e não está muda mas está sem função, não fazmais sentido. Ela é parte dos que acusa, esconde-se no Judiciário e culpa a população por sua incompetência. Perderam a mão e estão atirando para todos os lados. A postura de qq leitor/telespectador, deve ser sim, de precaução. Eu sugiro a leitura do Arnaldo Jabour do Globo de hoje ( eu sei que é duro ), mas é a revolta do sujeito que não é ouvido, saiu do centro e tá pirando. Mas, em nenhum momento, o grande gênio, consegue perceber que assim vive a população há décadas e ninguém teve um surto burguês por causa disso. A imprensa não está sendo ouvida pq não tem nada a dizer e os grupos que controlam ‘ isso’, que não sei o que é, não tem capacidade….

  8. Comentou em 01/12/2009 Jaime Collier Coeli

    Ainda não descobrimos que o bom-mocismo e a corrupção são fenomenos complementares. Na medida em que fingimos acreditar numa coletividade ‘dobem’, de fato alimentamkos a ‘coletividade do mal’. Vale lembrar uma estoria contada por Mario de Andrade, sobre duas adolescentes da pequena cidade do interior. Uma vivia na janela, horrorizando-se com o que observava na rua; outra, participava dos acontecimentos e não tinha ilusões sobre o carater e a personalidade dos adultos que observava. Um dia aparece na cidade um circo, com o palhaço, ‘ladrão de mulher’. É a recatada moça da janela que foje com ele.

  9. Comentou em 01/12/2009 Rammom Monte

    Faço minhas as palavras dos colegas Nilson e Arnaldo, pois aqui em meu estado os meios de comunicação estão nas mãos dos dois grupos políticos que comandam a Paraíba, porém não vejo que o leitor fique alienado diante disso. Os jornais impressos daqui, em especial, defendem claramente cada um os seus interesses políticos, porém os leitores ao saberem disso vão atrás de outros meios para se informar e com isso os jornais perdem a credibilidade. E defendo que a imprensa tem que atacar mais esse politicos sem defender interesses.

  10. Comentou em 01/12/2009 Artur Nobre

    Realmente estamos assistindo gradativamente à passagem do modelo ‘rouba mas faz’, muito frequente no passado, para o modelo ‘rouba mas tanto faz’. A causa dessa indiferença é tanto o cansaço da opinião pública quanto a parcialidade no tratamento das informações por parte da imprensa, hoje em dia mais partidarizada do que nunca.

  11. Comentou em 01/12/2009 Edilson Lopes

    A meu ver as observações do senhor Carlos Castilho estão mais baseadas em opiniões de quem não tem contato com a população de um modo em geral.
    Desde domingo, intensificando ontem, ouvi muita gente, aqui neste interior de Minas Gerais repudiar as atitudes daquilo mostrado nos telejornais.
    Acredito que a imprensa está no rumo certo. Talvez haja algum deslize, num ou outro veículo, mas o caminho é este. Aliás, como, a não ser através da imprensa, é que a população vai tomar conhecimento das falcatruas ‘cuequísticas/’ e ‘meísticas ‘Brasília e Brasil afora?
    Entre os prós e contras, continuo acreditando que a impresnsa é fundamental para a melhoria da qualidade de vida no Brasil, assim como do resto do mundo. O problema é que temos 5oo anos de roubalheira nas costas e esta circunstância só será debelada com muita educação, informação e democracia plena.

  12. Comentou em 01/12/2009 Arnaldo Costa

    Compartilho da opinião do Nilson. Esses meios de comunicação, ao perseguirem seus adversários e serem omissos e coniventes com as falcatruas de seus afetos, vêem perdendo a credibilidade. Viraram panfletos de partidos e de interesses de uma minoria. Estão completamente fora de sintonia com a sociedade, que anseia e vislumbra o desenvolvimento e a evolução do país. Estão alinhados ao que de pior na política e usam a mídia para isso. Dessa forma, representam o retrocesso.

  13. Comentou em 01/12/2009 Nilson Dimas

    Não concordo com o ‘sintoma de cansaço’ e a ‘queda da circulação’ pela avalanche de informação de ilícitos de figuras públicas, acredito que a imprensa ao omitir os escândalos de seus protegidos enquanto amplificava as ‘tapiocas’ menosprezou a inteligência dos leitores, que buscaram novas fontes para se manter informado ou alienaram-se no vácuo formado pela falta de um noticiário confiável. Não é crime um jornal declarar sua posição política, mas a omissão dos fatos é imperdoável e mortal para uma empresa especializada na ‘venda de informação’.

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