Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

O cidadão midiático e a era da confusão informativa

Por Carlos Castilho em 24/01/2011 | comentários

O norte-americano Dan Gillmor acaba de publicar um livro que está dando o que falar. Depois de funcionar como o grande arauto da revolução informativa no seu livro We, the Media [1], lançado em 2004, Gillmor usa agora um tom bem mais cauteloso ao analisar o que ele chamou de “era da confusão informativa”.


O ex-cronista de tecnologia do jornal San José Mercury News e atual consultor da Fundação Knight para empreendedorismo jornalístico online, reconhece que a avalancha informativa na web ultrapassou todas as previsões e que o público começa a dar sinais de uma preocupante tendência: uma ressaca cognitiva.


As pesquisas consultadas por Gillmor em seu novo livro, intitulado MediaActive [2], mostram que os consumidores de informação começam a demonstrar crescente intolerância diante da enorme quantidade de notícias que circulam na web e na imprensa ao constatar que a maioria delas são meias verdades ou totalmente falsas.


Este é um comportamento que já havia sido previsto por vários autores mencionados aqui nos posts do Código, há algum tempo, como um desdobramento inevitável da avalancha de dados, informações e conhecimentos publicados na web. Os dados são impressionantes. Em 2002, todo o acervo [3] de documentos digitalizados na internet não passava de 5 bilhões de exabytes. Em 2009, este total disparou para 281 bilhões de exabytes [4].


As informações produzidas por indivíduos e publicadas na web sob forma de blogs, tweets, fóruns, chats, redes sociais, bancos de dados, páginas web, noticias etc aumentaram 15 vezes entre 2006 e 2009. Segundo Mark Hurd, presidente da empresa de informática Hewlett Packard, nos próximos quatro anos a quantidade de informações publicadas na web será maior do que tudo o que foi produzido pela humanidade até agora em matéria de conhecimento.


Estatísticas como essas causam impacto, mas as pessoas comuns estão se dando conta muito lentamente do que isso significa no nosso quotidiano. Elas só começam a sentir os efeitos da avalancha informativa quando percebem sua incapacidade de poder contextualizar as notícias diante da diversidade de versões.


Gillmor é um dos muitos estudiosos da informação online que depois de se deslumbrar com as incríveis potencialidades do mundo digital e da internet começa a agora a dar-se conta do potencial de incertezas e desorientação gerado pela democratização cada vez maior na produção de conteúdos noticiosos, tanto no formato escrito como no audiovisual.


Está ocorrendo um fenômeno curioso. Os deslumbrados com a revolução digital tornam-se agora mais céticos e desconfiados enquanto os tecnofóbicos, contrariando as expectativas, tornam-se cada vez mais presentes nos fóruns, comunidades virtuais, twitter e blogs, como mostram as pesquisas sobre participação crescente da terceira idade na internet.


Mas não é só isso. Não dá mais para voltar atrás e não nos resta alternativa senão enfrentar os dilemas da era da confusão informativa desenvolvendo os recursos necessários para tornar mais confortável a convivência com a dúvida e com a incerteza.


É o que propõe o exercício da leitura crítica, um recurso informativo que até agora era considerado privilégio dos intelectuais e acadêmicos, mas que começa a ser praticado até mesmo pelos leitores de jornais, revistas ou telespectadores. Sem a leitura crítica fica difícil conviver com o tiroteio informativo presenciado diariamente em nossos jornais, revistas e telejornais.


Quem não se dispuser a desenvolver o seu próprio kit de leitura critica, provavelmente será empurrado para duas opções, ambas igualmente arriscadas: a descrença total, o que equivale a um autismo informativo, e a credibilidade incondicional, similar a um ato de fé cega. Ambas muito próximas do fanatismo.






[1] Traduzido para o português pela editora lusitana Presença, com o título Nós, os Medias (2005).



[2] O texto integral do livro, em inglês, pode ser baixado no endereço: http://mediactive.com/wp-content/uploads/2010/12/mediactive_gillmor.pdf



[3] Dados divulgados em agosto de 2010 por Marissa Mayer, vice-presidente de pesquisas da empresa Google.



[4] Cada exabyte equivale a  1.152.921.504.606,84 de megabytes Bytes (um trilhão de megabytes) ou 1 152 921 504 606 846 976 Bytes.

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/01/2011 paulo de almeida

    Prezado Carlos, desculpa o nível aborrecido do meu texto por causa da ‘convivência com a dúvida e com a incerteza’. Pois acredito que ‘só a verdade pode dar-nos a seguranca necessária para o desenvolvimento de nossas faculdades individuais’. Isto consta no Segundo Apêndice do texto traduzido pelo Marcelo da Veiga em
    http://bvespirita.com/A%20Filosofia%20da%20Liberdade%20(Rudolf%20Steiner).pdf
    Grato,
    Paulo

  2. Comentou em 28/01/2011 jaime collier celi

    De fato é uma imundicie de dados. Mas considerando a atualidade (hoje, 28, à tarde) há algo urgente a considerar: três provedores desligaram a internet no Egito, fato que faz pensar se os provedores merecem confiança. Não tenho interesses pessoais na navegação de Suez nem preocupação com algum possivel antepassado usufruindo da eternidade em alguma piramide, mas os provedores podem fazer alguma censura? Sei de sites que desaparecem nos povoados desse BR. Há alguma garantia sobre censura?

  3. Comentou em 28/01/2011 Roberto Ribeiro

    Há um pleonasmo no texto: ‘não nos resta outra alternativa’. A palavra ‘alternativa’ já significa ‘outra escolha’, então basta dizer ‘não nos resta alternativa’.

  4. Comentou em 28/01/2011 paulo de almeida

    Com todo respeito professor Carlos Castilho, sem dúvida alguma o texto trata de um fato incontestável,; mas cuja conclusäo é com certeza mais uma hipótese infundada a entulhar o mundo virtual… com a ‘confusäo informativa’ de que ‘näo dá mais para voltar atrás e näo nos resta outra alternativa senäo’ … ‘tornar mais confortável a convivência com a dúvida e com a incerteza’. Realmente o texto näo está ‘desenvolvendo os recursos necessários para’ tornar o cidadäo mais livre perante os fatos percebidos, e isto é provado pelo nível dos textos daqueles que tiveram o dito privilégio de desenvolver o tal do kit de leitura crítica…

  5. Comentou em 26/01/2011 Gustavo Gomes de Matos

    A dificuldade de se encontrar solução para os problemas ligados à falta de comunicação está exatamente na falta de uma educação norteada pela cultura do diálogo, pelo ato de refletir em grupo e pensar com espírito de compartilhamento, respeitando as diversidades culturais e ideológicas de cada pessoa ou grupo, para consolidar um ambiente de convivência das diferenças, aliás, esse é o princípio básico da democracia.
    É essa falta da educação mais básica, traduzida como respeito ao próximo, que gera a falta de feedback, certamente um dos maiores complicadores para o sucesso da comunicação e o estabelecimento de relações duradouras. Na sociedade informacional em que vivemos, somos diariamente bombardeados por notícias dos mais variados teores e objetivos. Porém, nossa capacidade de absorver essa fenomenal quantidade de informação e transformá-la em conhecimento é muito reduzida, devido à falta de debate e discussões sobre os temas abordados. A grande quantidade, somada à rapidez com que as notícias são divulgadas, não facilita a disposição para pensar ou refletir sobre o assunto tratado.

  6. Comentou em 26/01/2011 Emídia Felipe

    Isso só faz aumentar a importância dos comunicadores como
    organizadores do conteúdo. Acredito que escolher o(s)
    comunicador(es) em quem confiar pode fazer parte do kit leitura
    crítica do cidadão. Mas essa leitura crítica só estará completa
    quando todo cidadão tiver acesso a educação de qualidade. Nessa
    educação, também pode entrar a do exercício da comunicação: outro
    papel que podemos ter, enquanto comunicadores, a de educadores da
    comunicação – por que não dividir nossos conhecimentos com quem
    não é jornalista e, assim, ajudar cada um a enriquecer seu kit de
    leitura crítica?

  7. Comentou em 26/01/2011 Ibsen Marques

    Chegamos, então, ao ponto de termos que admitir: nem sempre informação é conhecimento, aliás, grande parte das vezes não é. É preciso estar de posse de um aparato minimamente crítico para peneirar as informações, cientes de que nesse ato de escolha muita informação boa irá para o lixo e muito lixo ficará na peneira. Esse aparato só pode se desenvolver dentro de um sistema de educação que prepare o homem em sua completude e lhe garanta condições de desenvolver e apurar seu discernimento, de tal sorte que possa identificar e interpretar as limitações e barreiras ideológicas que costumam velar o que está por trás dos conteúdos noticiosos. Agora vivemos um dilema: como desenvolver tal sistema de educação quando o interesse das classes e mídias dominantes remam em sentido contrário e procuram impor limites para que não nos reconheçamos limitados mais ou menos nos moldes daquela afirmação de que todos somos livres para ir e vir e se não temos dinheiro para os pedágios, combustível, passagens etc isso não é falta de liberdade, mas de meios.

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