Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O colunista, o juiz e o país

Por Luiz Weis em 14/08/2008 | comentários

A imprensa brasileira infelizmente não costuma gastar muito espaço com o que o colunista Fernando Rodrigues, de volta à Folha depois de um ano nos Estados Unidos, chama de “valores e costumes gerais do brasileiro”.


Jornalistas ou não, brasileiros que tenham olhos de ver tendem a voltar de um período mais prolongado no exterior exatamente com essa preocupação, e durante algum tempo se comportam com atípica civilidade – atípica pelo menos para os tristes padrões das nossas metrópoles.

Depois, a força dos maus hábitos, sustentada pelos maus exemplos, se impõe e tudo volta aos conformes.


Mas, enquanto dura o interesse de um jornalista pelo assunto que só parece incomodar uma minoria de seus colegas, ele acerta em cheio ao escrever:


‘O Brasil é um país de classe média. Vá lá. Mas tem um caminho longo para vir a ser uma nação desenvolvida”.


O acerto está em falar em desenvolvimento fora de seu sentido convencional, como sinônimo de progresso econômico e das condições materiais de existência de uma população.


Desenvolvimento quer dizer basicamente isso, sim, mas o termo será sempre insuficiente se não cobrir também a qualidade das regras que governam a vida cotidiana – afinal, a única que permeia todas as outras que se possa ter.


Sendo o que são essas regras por aqui, pega na veia a constatação do colunista de que “nem FHC nem Lula decifraram um enigma crucial: a fórmula para combinar crescimento econômico com aperfeiçoamento dos valores e costumes gerais do brasileiro”.


E tanto essa fórmula faz falta que, no mesmo jornal, duas páginas adiante, o leitor topa com uma tirada que tem tudo a ver com o comentário do Fernando Rodrigues. Foi do juiz Fausto Martin De Sanctis, o que mandou prender Daniel Dantas e outros da Operação Satiagraha.


Falando na CPI dos Grampos sobre o controle das escutas telefônicas autorizadas, ele disse:


“Temos que fazer uma lei adequada ao nosso país. Não adianta querer fazer lei de país civilizado porque esse país não é.”


Depois, segundo a Folha, De Sanctis tentou se corrigir. Assim:


“Quis dizer que não somos um país do Primeiro Mundo.”


Pior a emenda. Quer dizer que, não sendo, deve-se aceitar aqui o que ali não se aceita?


Quanto ao soneto propriamente dito, parece o juiz desconhecer um dado essencial da experiência histórica: leis civilizadas ajudam a civilizar o país que as adota.


O argumento do juiz faz lembrar a carta de um leitor do Estado de S.Paulo, em 1999, sobre o então recém-instituído Código de Trânsito Brasileiro. Inconformado com a severidade maior das punições previstas no texto, em comparação com o que havia, o cidadão saiu-se com mais ou menos as seguintes palavras:


Onde é que eles pensam que estamos? Na Suécia?


O que, por sua vez, faz lembrar uma recente nota na coluna do jornalista Ancelmo Goes, no Globo.


Num cruzamento do Rio, um tipo pôs a cara para fora do carro e esbravejou contra a motorista à sua frente, que parou quando o sinal ficou vermelho.


“Pensa que está na Suécia, sua perua?”


Deve fazer parte dos “costumes gerais dos brasileiros” em relação aos quais a mídia não está nem aí.

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