Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

O contexto do palavrão

Por Luiz Weis em 06/02/2006 | comentários

A Folha publicou ontem matéria de seu correspondente em Londres, Fábio Victor, a que deu o título de página inteira “Assessor de Lula critica o PT e o governo’.


O assessor é o professor Marco Aurélio Garcia, conselheiro do presidente para assuntos internacionais.


Segundo a matéria, confirmada por outra, no Estado de hoje, Garcia disse cobras e lagartos do PT e deu pelo menos um par de estocadas no chefe.


As suas declarações fazem parte de um depoimento para o estudo [que a Folha chama dossiê] “No olho do furacão – militantes de esquerda discutem a crise brasileira”, patrocinado por um instituto holandês de pesquisa.


Garcia foi entrevistado pelas pesquisadoras inglesas Hillary Wainwright e Sue Branford. O seu trabalho foi publicado em janeiro. Está no site www.tni.org


Segundo a Folha, o professor teria dito em dado momento que o PT tem “uma liderança de m…” [por extenso, no original].


Hoje o jornal publica uma carta do assessor e outra da dupla de autoras.


Garcia diz que a matéria cita “supostas e desconexas declarações” suas, mas só vai se pronunciar sobre o conjunto depois de ler o dossiê.


Mas assegura com todas as letras: “Os conceitos grosseiros que me são atribuídos sobre a direção petista são fantasiosos.”

Já Hillary e Sue escrevem: “Fábio Victor afirmou que Garcia nos disse, depois de falar das enormes reservas sociais e políticas do PT, é que ele se lembra sempre de uma frase que viu numa manifestação, pouco antes da derruba do governo Allende [no Chile, em 1973]: `Es un gobierno de m…, pero es nuestro gobierno!`. Ele acrescentou: `A mesma coisa que eu posso dizer do partido: é uma direção de m…, mas é nosso partido`.”


É como a referência aparece também na matéria de hoje do Estado, “Assessor do presidente critica líderes do PT”.


A Folha reconhece que, “por falha da Redação” [portanto, não do repórter] a frase sobre a “liderança de m…” foi publicada fora de seu contexto.


Do quiproquó fica claro que não são “fantasiosos”, como escreveu Garcia, “os conceitos grosseiros” a que se refere. Garcia efetivamente acha o que está no estudo – ou achava, quando foi entrevistado em agosto – mas nem por isso deixou de ser solidário com o seu partido.


Na sua carta, ele se diz também solidário com o governo, “caso contrário dele teria me afastado”.


Nem por isso ele deixou de comentar no depoimento que o governo gastou com reforma agrária “quatro vezes mais do que se havia gastado” no governo anterior “porque havia pressão do MST e outros movimentos”.


E comentou ainda, como se lê no Estado, que “Lula fez tanto esforço para ganhar o apoio destes grupos [o empresariado] que quando chegou ao governo teve medo de fazer o que poderia’.


A ver o “pronunciamento” prometido por Garcia para quando tiver lido o estudo.


***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/02/2006 Dermeval Vianna Filho

    Aliás, já que o texto trata de palavras pinçadas do contexto, o jornal da Record de ontem deu uma demonstração de como alterar o sentido de uma frase, numa demonnstração de surrealismo. Lá pelas tantas, o apresentador noticia: Presidente Lula comete deslize em pronuncimanento e diz que concorrerá à reeleição. Pois bem, o tal ‘deslize’ era uma frase, editada, em que Lula dizia que a sua viagem à Àfrica, seria, provavelmente, a última daquele ano. Apenas isso. Só que o apresentador se esqueceu completamente, por desídia ou mal caratismo, fica a dúvida, que a continuação, pronunciada no programa Café com o Presidente, era: ‘espero que aquele que vier a me suceder continue a fazer viagens à África, como forma de manter os laços com aquele continente (etc)’. Ora, fica evidente que alteraram completamente o sentido do pronunciamento do presidente para produzirem um ato falho que, de fato, não ocorreu.
    Fica então o questionamento: haverá retratação? Ou a Record dirá que não houve nada de errado com a notícia? Do jeito que as coisas vão, se não houver um controle mais efetivos destes deslizes cometidos por meios de informação (controle posterior e de caráter reparatório, diga-se), corremos o risco de, novamente, como em 1989, termos um pleito presidencial ditado pelos meios poderosos de mídia. Que Deus (para quem nele o crê) nos ajude!

  2. Comentou em 07/02/2006 Haroldo M. Cunha

    Há muito deixei de acreditar em Papai Noel, Fadas, Gnomos, Duendes, Jornalismo isento, imprensa livre e todas essas coisas de realidade fantástica, igual as novelas do Dias Gomes dos anos 1970. Pero, em bruxas eu creio!

  3. Comentou em 07/02/2006 rodrigo siqueira

    E o Roberto Jeferson, minha gente? Cadê o homem que tanto abalou a República? Ironia do destino. Agora anda confinado na Carta Capital, voz destoante da imprensa brasileira. http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=3947 Alô alô. Responde, responde… O Roberto Jeferson agora deve estar cantando Carmem Miranda às portas das redações de jornalões e revistinhas. hahahaha. >>>Alô, alô, responde
    Se gostas mesmo de mim de verdade.
    Alô, alô, responde,
    Responde com toda sinceridade.

    Tu não respondes, e o meu coração é lágrima
    Desesperado, mas dizendo alô, alô.
    Ai se eu tivesse a certeza deste seu amor
    A minha vida seria um rosário em flor.

    Alô, alô, responde,
    Responde com toda sinceridade.
    Alô, alô, responde
    Se gostas mesmo de mim de verdade.
    Alô, alô, continuas a não responder
    E o telefone cada vez chamando mais.
    É sempre assim, não consigo ligação, meu bem.
    Indiferente, não te importas com meus ‘ais’.

    Alô, alô, responde
    Se gostas mesmo de mim de verdade.
    Alô, alô, responde,
    Responde com toda sinceridade.

  4. Comentou em 06/02/2006 Eduardo Guimarães

    Gostaria de saber para que é preciso ler o blog de um site chamado Observatório da Imprensa e encontrar um artigo igualzinho às centenas de artigos que saem o tempo todo na Veja, no Estadão, na Folha, na ISTOÉ, na Época, no Correio Brasiliense, no Globo…
    Melhor mudar o nome de vocês para Observatório do PT. Mas, daí, ninguém vai ler, com a grande concorrência que vocês têm.

  5. Comentou em 06/02/2006 Liliam Santos

    Hontem por várias vezes coloquei num blog uma frase sua que achei boa para todos meditarem:’Não é porque tenho o direito de dizer o que penso, devo dizer o que penso quando e como bem entender’. Parabens pela frase. Se todos pensassem assim o mundo seria melhor.

  6. Comentou em 06/02/2006 Mauro Malin

    A reportagem, apesar de ter cometido erro de transcrição numa frase, não inventou nada. Está tudo no texto (www.tni.org). Havia elementos menos folclóricos na análise de Marco Aurélio, mas ela perde muito especialmente quando imagina que o PT inventou a luta social no Brasil.

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