Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CÓDIGO ABERTO > Desativado

O contrafogo de Don Antonio

Por Luiz Weis em 17/11/2005 | comentários

Nem matando, nem morrendo – como escrevi aqui ontem cedo, criticando o tom apocalíptico dos jornais do dia –, o ministro Antonio Palocci saiu da sala da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, no começo da madrugada de hoje, melhor do que nela entrou.

Quando a oposição avisou que nada lhe perguntaria sobre os mensalinhos de Ribeirão e o caixa 2 da campanha de Lula, a pretexto de aquele não era o lugar próprio para isso, e a liderança petista o exortou a falar aos brasileiros, para deixar tudo aparentemente em pratos limpos, o jogo ficou do jeito que o ministro gosta.

A oposição fez o que fez, ou melhor, deixou de fazer o que poderia ter feito, porque está atolada nas suas próprias contradições. Quer a caveira do presidente, mas não quer desmanchar nem um fio de cabelo do seu ministro da Fazenda, condutor e fiador da política econômica dos sonhos tucanos e pefelistas.

Podem eles até encenar para o distinto público o espetáculo “Lugar de Palocci é na CPI”. Podem até, no limite, levá-lo até lá. Mas precisará ficar provado que Palocci matou e esquartejou a senhora mãe dele, e a substituiu por um clone, para que não tenham outra saída se não levá-lo ao patíbulo e torcer por um improvável paloccismo sem Palocci.

Ciente disso e de que o seu depoimento seria o fato de mídia do dia e do que resta da semana, para não ir mais longe, o ministro usou nada menos do que a própria política econômica que lhe deu tantos adversários no PT para se auto-blindar – o proverbial contrafogo.

Primeiro, para tirar da cabeça de Lula qualquer idéia de ficar com Palocci e descartar os excessos de paloccismo, disse para todo o país ao qual lhe interessava se dirigir que nem vem que não tem:

“A minha força é para realizar esse projeto [a política econômica do fiscalismo e do monetarismo] e não outro.”

Depois, fez um defesa tão convincente desse projeto, jogando nisso todo o seu decantado talento e habilidade, que deixou a oposição de calças na mão como que se perguntando: “É esse ministro que a gente quer ver pelas costas?”

Não me entendam mal: quando elogio as palavras de Palocci não estou necessariamente concordando com as suas ações. Estou assinalando que ele mais uma vez deixou escrachado que o governo Lula não tem um quadro que se lhe compare.

Collor, o de triste memória, ficou famoso também por dizer que deixaria a esquerda atônita e a direita perplexa. Perplexa, Palocci deixou a direita ontem – com requintes de crueldade. Atônita, ele há de ter deixado a sua nêmese no Planalto, ministra Dilma Roussef, ao dar-lhe o trôco em público: “Ela está errada.”

Compartilho aqui da sensação com que desliguei a TV: nem a direita, se quisesse, nem a esquerda, se ousasse, tem bala na agulha – bala de verdade, não tiro de pólvora seca – para abater Don Antonio.

E Lula, que a tem, só apertará o gatilho na muito improvável hipótese de que a permanência de Palocci venha a ser revelar um estorvo e não um ajutório para a reeleição. Se ficar provada – outra improbabilidade – a metafórica hipótese do matricídio a que me referi acima.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 19/11/2005 Raimundo Afonso Cardoso Delgado

    Todos sabemos, incluindo a oposição, da competência de Palocci para defender sua política econômica e sua integridade. Portanto, quando os oposicionistas quiseram evitar perguntas sobre as acusações das quais o ministro tem sido alvo, pensaram, a meu ver, simplismente em prolongar ao máximo possível a onda de denúncias sem prova e sem argumentação mais convincente que têm lançado com o propósito de desgastar o governo, visando as próximas eleições presidenciais. Ora, sem provas e nem argumentos fortes a oposição seria colocada no chinelo pelo ministro, como foi. Seria o mesmo que fazer ‘gol contra’. A onda de denuncismo contra Palocci não confirma o que diz a matéria. O que eu percebo é uma oposição despreparada e desesperada para desgastar um governo que no campo econômico está acertando. Algumas contradições da oposição, reveladas durante o debate no senado, demonstram bem isso, e, em alguns casos, vindas do mesmo senador. Afirmar, por exemplo, que não é possível crescimento com a política de juros altos promovida pelo governo e depois de alguns poucos argumentos de Palocci afirmar que o governo vai mal ‘das pernas da ética e a única que vai bem é a econômica’ (mais ou menos isso) me parece bantante contraditório e sintomático das intensões da oposição hoje.
    Para encerrar, gostaria de parabenizar a iniciativa de proporcionar este espaço.
    Obrigado

  2. Comentou em 17/11/2005 Antonio Mello

    Prezado Luiz,
    o curioso é que a oposição ainda saiu cantando vitória, dizendo que foi brilhante a estratégia que adotaram de não tocar nos assuntos de Ribeirão com o ministro. Eles acham que assim vão continuar sangrando Palocci e Lula.
    Mas desse jeito vão acabar reelegendo o presidente. Aí terão de sangrá-lo até 2010…
    http://blogdomello.blogspot.com

  3. Comentou em 17/11/2005 Sandro Luís Wodzik Verone

    Essa guerra do Palocci e da Dilma é a típica de marido e mulher em que , nem o presidente quer meter a colher. A situação é de dualidade, onde Lula prefere não tomar posição sabendo que é uma questão delicada, pois atacaria dois pilares mestres de seu governo.Concordo que o Palocci é um mestre na retórica e sempre se sai bem de situações ameaçadoras, sem tocar na figura máxima do seu presidente.

  4. Comentou em 17/11/2005 Haertel Duarte

    Caro Luiz

    Plagiando seu comentário eu diria que estamos diante de Don Antonio, o surpreendente. Surpreendeu a oposição que esperava um ministro da Fazenda despreparado e que ao tentar reinventar a roda colocasse o governo trabalhador a perder. Surpreendeu também alguns membros do próprio PT e grande parte daqueles que votaram no Lula acreditando que fosse realizar uma mudança radical na economia, algo parecido com o que fez a Argentina. Nada mudou, apenas o Brasil melhorou em vários aspectos e é isso que perturba aqueles setores que sempre estiveram no poder no nosso país.

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