Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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O contrafogo de Don Antonio

Por Luiz Weis em 17/11/2005 | comentários

Nem matando, nem morrendo – como escrevi aqui ontem cedo, criticando o tom apocalíptico dos jornais do dia –, o ministro Antonio Palocci saiu da sala da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, no começo da madrugada de hoje, melhor do que nela entrou.

Quando a oposição avisou que nada lhe perguntaria sobre os mensalinhos de Ribeirão e o caixa 2 da campanha de Lula, a pretexto de aquele não era o lugar próprio para isso, e a liderança petista o exortou a falar aos brasileiros, para deixar tudo aparentemente em pratos limpos, o jogo ficou do jeito que o ministro gosta.

A oposição fez o que fez, ou melhor, deixou de fazer o que poderia ter feito, porque está atolada nas suas próprias contradições. Quer a caveira do presidente, mas não quer desmanchar nem um fio de cabelo do seu ministro da Fazenda, condutor e fiador da política econômica dos sonhos tucanos e pefelistas.

Podem eles até encenar para o distinto público o espetáculo “Lugar de Palocci é na CPI”. Podem até, no limite, levá-lo até lá. Mas precisará ficar provado que Palocci matou e esquartejou a senhora mãe dele, e a substituiu por um clone, para que não tenham outra saída se não levá-lo ao patíbulo e torcer por um improvável paloccismo sem Palocci.

Ciente disso e de que o seu depoimento seria o fato de mídia do dia e do que resta da semana, para não ir mais longe, o ministro usou nada menos do que a própria política econômica que lhe deu tantos adversários no PT para se auto-blindar – o proverbial contrafogo.

Primeiro, para tirar da cabeça de Lula qualquer idéia de ficar com Palocci e descartar os excessos de paloccismo, disse para todo o país ao qual lhe interessava se dirigir que nem vem que não tem:

“A minha força é para realizar esse projeto [a política econômica do fiscalismo e do monetarismo] e não outro.”

Depois, fez um defesa tão convincente desse projeto, jogando nisso todo o seu decantado talento e habilidade, que deixou a oposição de calças na mão como que se perguntando: “É esse ministro que a gente quer ver pelas costas?”

Não me entendam mal: quando elogio as palavras de Palocci não estou necessariamente concordando com as suas ações. Estou assinalando que ele mais uma vez deixou escrachado que o governo Lula não tem um quadro que se lhe compare.

Collor, o de triste memória, ficou famoso também por dizer que deixaria a esquerda atônita e a direita perplexa. Perplexa, Palocci deixou a direita ontem – com requintes de crueldade. Atônita, ele há de ter deixado a sua nêmese no Planalto, ministra Dilma Roussef, ao dar-lhe o trôco em público: “Ela está errada.”

Compartilho aqui da sensação com que desliguei a TV: nem a direita, se quisesse, nem a esquerda, se ousasse, tem bala na agulha – bala de verdade, não tiro de pólvora seca – para abater Don Antonio.

E Lula, que a tem, só apertará o gatilho na muito improvável hipótese de que a permanência de Palocci venha a ser revelar um estorvo e não um ajutório para a reeleição. Se ficar provada – outra improbabilidade – a metafórica hipótese do matricídio a que me referi acima.

***

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