Domingo, 17 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CÓDIGO ABERTO > Desativado

O custo e o benefício de ler os leitores

Por Luiz Weis em 05/01/2006 | comentários

O colunista Clóvis Rossi, da Folha, teve uma boa idéia para ocupar o seu espaço de hoje: produzir uma pensata sobre o que mudou nos anos recentes na relação entre os jornalistas, em especial os com redação própria [a expressão, que no caso é minha, costuma designar os profissionais que têm o privilégio e a responsabilidade de manifestar opiniões pessoais na mídia], e os seus leitores.

O assunto é rico. Antes da internet, compara Rossi, citando um jornalista europeu, “o trabalho do jornalista assemelhava-se ao ato do náufrago que coloca uma mensagem na garrafa e a lança ao mar. Não sabe se a garrafa chegou a algum lugar, a qual lugar, se a mensagem foi lida, se foi entendida, como foi entendida.”

Isso mudou radicalmente – e cada vez mais intensamente, acrescento – desde que, tendo acesso ao endereço de e-mail do mensageiro, o público passou a lhe “dar retorno”, como se diz em mau português, muitas vezes em cima da bucha.

A constatação está longe de ser nova, nem nela reside a boa idéia que atribuí ao veterano Rossi, repórter de classe mundial e talvez o mais cético analista da imprensa brasileira.

O que dá o que pensar é a sua revelação de que, ao adotar a Folha o hábito de publicar o e-mail dos seus comentaristas, ele se queixou de estar “perdendo duas horas por dia, em média, para ler e responder a correspondência”.

Mas, em pouco tempo, ele reviu o verbo, como escreve. “Em vez de `perder´, sei agora que `invisto´duas horas nesse diálogo. Descobri também que, na troca de idéias com o leitor, ganho eu”, afirma.

Não fosse Rossi rabugento e sincero como é, se poderia imaginar que estava dando, com essas palavras, uma barretada aos seus leitores. Mas não é disso que se trata, como deixa claro ao se voltar em seguida contra os “idiotas de plantão que escrevem tonelada de asneiras”, que já desistiu de ler e responder.

Como blogueiro, sei perfeitamente do que ele está falando.

Já os outros leitores, “a grande maioria”, assegura, “aporta informações que estão fora do radar da mídia, vê ângulos que mesmo olhos treinados de sociólogos deixam passar e acima de tudo expressa sentimentos que o mundo político parou de processar faz tempo”[grifo meu].

Com experiência pessoal no gênero imensamente inferior à dele, me faltam elementos para bancar a tese de que a vista da grande maioria dos leitores é mesmo tão apurada. Mas é impossível discordar da dissintonia entre o sentimento dos leitores que se exprimem e o dos políticos em geral.

Por isso Rossi diz que os primeiros formam “uma multidão de outros náufragos” – os desiludidos da política.

A “grande conversação”

Escrevi acima que o assunto é rico e, acrescento, mais complexo para ser plenamente coberto num único comentário.

Decerto por isso, faltou Rossi tratar de outro aspecto crucial da mudança de que se ocupa. Antes da nova tecnologia da informação, a única indicação sistematicamente ao alcance do jornalista-náufrago sobre a repercussão de suas mensagens era a das cartas que chegavam ao jornal ou revista onde escrevia.

Ele pelo menos tinha – e tem – acesso a todas as cartas provocadas por seus textos. Não é nada, não é nada, é alguma coisa. Já o leitorado tinha – e tem – acesso apenas às cartas publicadas; e, ainda assim, de forma resumida.

Na chamada blogosfera, isso acabou. Pela própria natureza do meio, os leitores deste texto lerão também os eventuais comentários que ele tiver suscitado – exclusive aqueles que contiverem termos literalmente impublicáveis.

Mais: os leitores-comentaristas poderão comentar os comentários alheios – e todos poderão ser interlocutores ou espectadores dessa “grande conversação”, como dizem os teóricos do bloguismo.

Talvez seja cedo para avaliar o efeito cumulativo dessa interação. Mas é muito provável que algum efeito (no singular ou no plural) ela produzirá – embora às vezes me assalte a idéia pessimista de que a maioria já tem a cabeça feita e a interlocução acaba servindo principalmente para cada qual repetir os seus pontos de vista, não raro com contudência crescente.

De qualquer forma, esse é um preço plenamente aceitável a pagar pelas perspectivas que a nova mídia oferece aos seus frequentadores, de ambos os lados do balcão eletrônico. Apesar dos “idiotas de plantão” mencionados por Clóvis Rossi.

***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/01/2006 Marcelo Monteiro

    Brilhante post do Nordeste do Brasil contra a arrogância de um jornalista do ‘sul maravilha’. Show de bola Fortal! Por que será que a imprensa paulistana sofre desse complexo de superioridade ? Algum Prêmio Nobel de São paulo ?

  2. Comentou em 06/01/2006 Marcelo Monteiro

    Todos , jornalistas incluídos, podem tornar-se ‘idiotas de plantão’ na Blogosfera. Contudo, o dono do Blog, terá o direito de definir o que é segundo ele próprio, e suas convicçôes, políticas inclusives, seus anunciantes e interesses o que finalmente será o ‘ofensivo’ e o ‘malicioso’ e tirar ou editar o que os leitores escrevem nos seus posts. Relação ainda injusta entre a mídia e o leitor, mas afinal de contas, já faz tempo que Karl Marx : liberdade de expressão só tem o dono do jornal, ou de qualquer mídia eletrônica. Neste momento eu contribuo para alguém que terá um software com o número de meu IP, tenho uma sensação de que ao mesmo tempo de que posso opinar como leitor, serei censurado, e estarei exposto, numa relação de forças que só favorece o dono do blog…..Me parece assustador o que um grnade computador pode reunir sobre a privacidade de todos, através de Ip´s, não seria por isso que os americanos não abandonam o controle da internet? Quanto a muitos jornalistas, estes são infelizmente no Brasil, frequenteente bons competidores para ‘idiotas de plantão’ como seus leitores e jornalistas também têm opinião formada como qualquer ser humano, só que ele aprende a posar de imparcial na faculdade, coisa que leitor não aprende. O leitor segue sendo o lado fraco da relação, mesmo com toda a teconologia parecendo indicar o contrário.

  3. Comentou em 05/01/2006 Iolando Fagundes

    Notícias sobre o Blog Contra-pauta?

  4. Comentou em 05/01/2006 manoel cavalcante

    por onde adará o genoino?????????

  5. Comentou em 05/01/2006 Iolando Fagundes

    Caro Weis se souber me informe aonde foi parar o CONTRA PAUTA do Alceu Nader?

  6. Comentou em 05/01/2006 Rogério Ferraz Alencar

    Caro Luiz Weis:

    Há um ditado do qual gosto muito: o que dá pra Chico, dá pra Francisco. Clóvis Rossi fala dos “idiotas de plantão” supondo (supondo, não, que isso não é coisa de “jornalista”), tendo certeza de que ele, Clóvis Rossi, não é idiota nem escreve toneladas de asneiras. Ele deve ter certeza, também, de que, se ele pode desistir de ler e responder a “idiotas”, os “idiotas jamais deixarão de ler o que ele escreve. E isso é rematada idiotice. O “idiota” aqui, por exemplo, já desistiu de ler as toneladas de asneiras que Clóvis Rossi vem escrevendo há tempos. Me cansei de ser retratado como idiota ou descerebrado, quando não concordo com o que Clóvis Rossi escreve, pois ele desqualifica dessa forma a quem não concorda com o que ele diz. Ele é arrogante, e, não, rabugento.

    Quanto à frase: “é impossível discordar da dissintonia (não seria “dessintonia”?) entre o sentimento dos leitores que se exprimem e o dos políticos em geral” : acho que a dessintonia maior é entre os leitores que se exprimem e os jornalistas.

  7. Comentou em 05/01/2006 Luiz Seixas

    ‘me faltam elementos para bancar a tese de que a vista da grande maioria dos leitores é mesmo tão apurada’
    ‘a maioria já tem a cabeça feita e a interlocução acaba servindo principalmente para cada qual repetir os seus pontos de vista’
    ‘Apesar dos “idiotas de plantão” mencionados por Clóvis Rossi’
    Caro Weis, pelos trechos copiados percebe-se um estado de espírito que repudia a consideração de outros pontos de vista. Ou seja, se o ‘start’ da grande conversação é dado por uma ‘cabeça feita’, só resta aos leitores comentaristas se comprazerem no contraditório e na manifestação à cata de outros leitores comentaristas. Vira um fórum onde todo mundo é japonês, menos uma vaca premiada. Sem reflexão e espírito desarmado por parte do blogueiro, a coisa fica pobre.

  8. Comentou em 05/01/2006 Alex Dias

    Completando – Estamos em um país ‘em desenvolvimento’ para poucos. Não há mais tempo para esperar que uma minoria dessida pelo destino de todos. Está na hora de aumentar e repartir o bolo.

  9. Comentou em 05/01/2006 taciana oliveira

    Interessante! Uma das vantagens do blog é eliminar 70% da reação daqueles jornalistas que só publicam cartas de leitores que lhes criticam para espinafrar com elas e reduzi-las a ‘pó de asa de borboleta fême’. A outra é realmente a pescaria das informações de diferentes partes do País e também,do pensamento das pessoas( do Norte e Nordeste, por exemplo, que a grande imprensa localizada de Minas prá baixo(no mapa)acha que, acha que, acha que….sei lá o que acha: que não pensa, talvez!) Concordo que para alguns é uma catarse: falo, desabafo, saio do anonimato, alguém me vê, me lê, me ouve. É também, sair do isolamento: sou parte de uma comunidade. Eu mesma, conheço já vários frequentadores do seu blog(meu favorito) e até listei alguns para remeter E.Mails, convidando-os a trocar idéias para ver se não ‘emburreço’ mais do que já aconteceu, frente ao FEBEAPÀ que nos assola e não estou falando só das novas gerações. Quanto a aprender coisas novas, aprende-se muito, desde que se queira. A propósito de trocar idéias, gostaria, se possível, de deixar uma pergunta:Num exercícío de passado-do-futuro ou futuro-do-passado, como seria o Rio de hoje, se o programa dos CIEPS não tivesse sido extinto?

  10. Comentou em 05/01/2006 Alex Dias

    O grande problema é só haver um ângulo para apresentar as questões políticas e ainda se tratar de uma abordagem tão tendenciosa. Da forma que os fatos estão sendo mostrados, presta-se um desfavor a sociedade por omitir parte da história política do país e inocentar corruptos que hoje posam de empresários bem-sucedidos e bons moços. Outro problema é apropriar-se da expressão “opinião pública” e “o censo comum” para manifestar opiniões particulares. Sou uma família que presa a honestidade e a justiça e acho um absurdo o que está sendo feito com o governo federal. Acredito na alternância de poder por isso não acho justo que a situação volte a ser como antes. O PFL e seus aliados tiveram várias chances de mostrarem o trabalho deles e o que vimos foi lamentável. Ainda faço parte da elite mas, no rumo que as coisas caminham, com o desastroso governo FHC em algumas áreas, a classe média está fadada à extinção.

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