Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CÓDIGO ABERTO > Código Aberto

O debate sobre o diploma pode nos ajudar a entender melhor os novos desafios do jornalismo contemporâneo

Por Carlos Castilho em 09/10/2008 | comentários

A conversa iniciada no post anterior sobre a questão da obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão de jornalista merece continuar, não com o intuito de polemizar, mas para buscar esclarecer um tema que ainda está carregado de muitas dúvidas.


 


A grande maioria dos comentários vai direto para a comparação entre o jornalismo e profissões como médico, engenheiro e advogado.  Mas para comparar precisamos saber primeiro o que entendemos por jornalismo, porque senão caímos na expressão ‘comparar alhos com bugalhos’.


 


O jornalismo é uma atividade na qual um profissional desenvolve habilidades e competências.  A habilidade de comunicar por escrito, sons e por imagens, notícias e informações que ajudem os cidadãos a tomar decisões conforme os seus interesses e necessidades. Competência para transformar esta habilidade em conhecimento e em projetos lucrativos ou não. A missão do jornalista é comunicar.


 


Até agora a função de comunicador era restrita a um reduzido número de pessoas porque as ferramentas de comunicação eram limitadas pelo fator econômico. As pessoas comuns não podiam ter a posse de um jornal, ou obter uma concessão de emissora da rádio ou de televisão.


 


Todas essas atividades exigiam e ainda exigem recursos, o que as tornou privativas de empresas e organizações com capital para investir. Os comunicadores se tornaram assalariados destas empresas que passaram a determinar o que, como e para quem comunicar, tendo em vista os seus interesses financeiros necessários para a sobrevivência econômica.


 


Esta é a base sobre a qual se apóia o conceito de profissão de jornalista. E até ai não há diferenças radicais entre um jornalista, um médico e um engenheiro, a não ser as suas habilidades e competências.


 


O problema é que a internet mudou o contexto da comunicação, no momento em que os usuários passaram a poder publicar da rede. Com isto milhões de pessoas assumiram um papel proativo na produção de dados, notícias e informações.


 


As demais profissões também foram afetadas pela internet, mas nenhuma delas com a intensidade e profundidade do jornalismo. Nesta realidade já não é mais possível falar em reserva de mercado para o jornalista porque significaria tentar frear a inovação e o livre acesso aos meios de comunicação para resguardar uma exclusividade no manejo da notícia.


 


A internet também mudou o caráter da notícia. Ela já não é mais um produto acabado, mas um processo em constante evolução e modificação graças ao aporte da novos dados fornecidos por cidadãos de todos as categorias.


 


Gostemos ou não, o jornalista perdeu a exclusividade no feijão com arroz da profissão, ou seja, a busca e publicação da notícia. Mas em compensação, a internet gerou novos desafios para o jornalismo.


 


Desafios que têm a ver com o processo de capacitação dos cidadãos comuns no manejo da informação, com a produção de narrativas jornalísticas multimídia, no desenvolvimento de novos sistemas de recombinação de informações, sem falar na busca de novos mecanismos de certificação de credibilidade.


 


Estes são apenas alguns dos  reais problemas da profissão e não o debate se o diploma é ou não é obrigatório ou se o jornalista é igual ao advogado ou engenheiro. São questões desafiam a nossa capacidade criativa e a nossa posição diante da demanda da sociedade por novas formas de lidar com a informação. 


 


 

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/10/2008 Ricardo Frugoli

    Acho que ainda falta uma questão intocada. Talento. Isso é essencial em qualquer profissão. E o mercado de comunicação de um modo geral está sendo inundado todos os anos com pessoas desavisadas do que o mercado cobra. Não diplomas. Mas talento, criatividade. É nestas horas que os diplomas viram papel de parede. E dos mais caros, pois foram investidos anos sem uma orientação adequada. Não existe faculdade que possa fazer isso, se não houver sequer uma vocação, por menor que seja. Mas elas continuam formando milhares de profissionais todos os anos mesmo assim. É por isso que a conta não fecha. O talento surge de onde menos se espera. Precisamos de idéias novas, de pessoas criativas, e o ambiente acadêmico não é uma área de preservação e/ou restrição desta espécie. É mais que justo reconhecer um profissional que recebeu uma formação técnica, mas não podemos deixar ou descartar pessoas talentosas e criativas que não tiveram esta formação. Precisamos das idéias e dos talentos de todos.

  2. Comentou em 13/10/2008 Luciano Prado

    O nobre jornalista esqueceu-se de abordar ponto importante sobre o tema, sem o qual tudo se esvai; o jornalismo e a comunicação com responsabilidade.

  3. Comentou em 13/10/2008 Haroldo Mendes

    O Castilho acertou na mosca!
    Enquanto essa turma retrógada da fenaj e cia ficam aí tentando impor uma reserva de mercado, a internet avança a cada dia. No mundo de hoje é ridículo exigir diploma para escrever e se expressar.
    Parem de andar na contra-mão da história!!!

  4. Comentou em 13/10/2008 Luciano Porciuncula Garrido

    O Castilho tem absoluta razão. A questão do diploma é um assunto menor, quase superado. A polêmica em torno do tema é uma bobagem tipicamente brasileira, que esconde temores quanto à inserção e sobrevivência profissional dos greduados. Desconheço país no mundo que exija diploma para o exercício do jornalismo. Na França, por exemplo, a lei considera jornalista todo aquele que tira a maior parte de seus proventos do jornalismo.

  5. Comentou em 13/10/2008 Jorge Cortás Sader Filho

    O jornalismo informativo deve ser exercido pelos que passaram por faculdade, e estão inscritos. Até muito tempo atrás, os melhores jornalistas eram quase todos advogados. Lacerda, Castelinho e Mário Martins, por exemplo, não fizeram o curso. São menores por causa disto? O mesmo se dá com o notável João Ubaldo. Mas todos foram colunistas. Ubaldo ainda é, e um dos melhores. Afinal, tratra-se do melhor escritor do país, atualmente. É preciso distinguir-se uma fato: jornalismo informativo é uma coisa, comentarista é outra, muito diferente.

  6. Comentou em 13/10/2008 Orestes Ianuzzi

    Excelente artigo, que traz luz ao contexto da profissão e torna ainda mais corroídos e surrados, como trapos velhos, os argumentos dos defensores do “diploma”. É bom repetir que a nossa Carta Magna de 1.988 não faz restrições à liberdade de expressão, da produção intelectual, qualquer que ela seja, em qualquer veículo, e se equipara a todos os países democráticos ocidentais, inclusive a grande maioria (senão todos) do bloco latinoamericano, onde não existe reserva de mercado aos “diplomados”. A única exceção é o Brasil. Também vale repetir que o Decreto famigerado é um entulho autoritário feito pela Junta Militar de 1.969 para controlar os Cursos de Jornalismo das universidades da época e as editorias dos grandes jornais. Os “sem diploma” daquele triste período de nossa história que tiveram a coragem de se inscrever no MTb para obterem “licença para se expressarem” foram também “inscritos” no DOPS, SNI, DOI-CODI e outros órgãos dos serviços de informação e passaram a ser controlados. Milhares não se inscreveram e não se “regularizaram” com medo do controle de opinião e expressão imposto pela ditadura. E muitos foram torturados e mortos, porque se insurgiram contra o controle da censura. Varrer esse entulho é o que se espera do STF.

  7. Comentou em 13/10/2008 Roberto Ribeiro

    A única questão que se levanta é: como diplomados em jornalismo vão ganhar dinheiro? Por isso a luta dos sindicatos e faculdades de jornalismo é garantir um mercado para determinadas pessoas que não sabem fazer outra coisa. Eu mesmo tenho doutorado em grego antigo, muitas vezes já achei que o governo deveria proibir pessoas de estudar grego antigo se elas não são sagazes o suficiente para não se dedicar a isso. O governo deveria ter me proibido de ter dedicado tantos anos a algo que não me dá camisa, ou então criar um cargo exclusivo de doutor em grego antigo. Ou não? O caso é todo e apenas esse: empregos para pessoas que sabem tão somente serem jornalistas. Empregos, empregos, empregos. Todo o resto é conversa mole.

  8. Comentou em 09/10/2008 Gilberto Marotta

    O professor continua ‘fora de foco’. Empresas jornalísticas só deveriam poder empregar JORNALISTAS. No caso dos blogs, desde que seja um blog pessoal e não use a propaganda de jornalismo ou jornalista, o cara escreve o que quiser sendo ele formado ou não. Da mesma forma, qualquer um poderia fazer um jornalzinho particular impresso e sair distribuindo, o fato de ser outro meio e mais fácil de disseminar, porque barato, não muda o centro da questão. Mais: a Internet é um meio novo, maravilhoso no que tem de potencial e terrível, de fato, no que traz de porcaria pela falta de critério na seleção de conteúdo. Natural: o leitor está aprendendo, vai se educar, com o tempo. Mas tirar as faculdades da jogada, eliminar a necessidade de uma formação melhor, só vai aumentar ainda mais a porcaria a que somos/seremos submetidos…

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem