Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O desafio da mídia é fazer você entender para crer

Por Luiz Weis em 30/01/2007 | comentários

Na sexta-feira, sai o que tem tudo para ser, desde já, um dos documentos históricos deste século.

Trata-se do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), organizado pela ONU.

Produto do trabalho de 2.500 cientistas, o texto de 1.644 páginas em espaço simples a ser divulgado em Paris resume o mais completo estudo já feito sobre o aquecimento global e os seus efeitos previsíveis. Tem a pretensão, ao que tudo indica fundamentada, de ser a palavra final sobre o assunto.

E se não for, será antes por prudência do que por soberba.

Para não serem acusados de catastrofistas, os cientistas – e, mais ainda, os representantes dos governos membros do painel – resolveram que a versão final só afirmará o que os seus autores considerarem, por consenso, incontestável.

‘O que aterroriza no documento é o fato de ele ser muito conservador’, disse ao semanário londrino Observer um especialista em clima, familiarizado com o texto, que preferiu o anonimato por ser funcionário da ONU.

Conservador como é, o estudo acaba com quaisquer dúvidas que ainda pudessem subsistir sobre os seguintes dados essenciais do problema:

1. O efeito estufa – o aprisionamento do calor solar na atmosfera terrestre – não só é uma realidade, mas se acentua:

* 12 dos últimos 13 anos foram os mais quentes de que se tem registro;

* a temperatura média mundial subiu 0,6 grau no século passado;

* o aumento das temperaturas oceânicas já chegou a 3 mil metros abaixo da superfície; o nível do mar vem subindo à razão de 2 mm por ano;

2. O presente surto de aquecimento global não é um evento climático natural, parte dos ciclos de esfriamento e aquecimento do ambiente terrestre. Em 2001, no terceiro relatório do IPCC, a margem de confiança dos cientistas nessa afirmativa foi estimada por eles mesmos em 66%. Hoje, falam em 90%.

3. O aquecimento é consequência direta do acúmulo, na atmosfera, de gás carbônico, resultante da queima de volumes colossais – e crescentes – de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, as fontes de energia que movem o mundo contemporâneo. Delas dependem praticamente todas as atividades produtivas e de prestação de serviços e a vida cotidiana de todas as populações que já deixaram o estágio tribal.

4. As emissões industriais de gases que provocam o efeito estufa afetam o clima da Terra cinco vezes mais do que as mudanças naturais na intensidade do calor solar. E mais de 90% do aquecimento global registrado nos últimos 50 anos se deve à concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Antes da Revolução Industrial, essa concentração era da ordem de 280 ppm (partes por milhão). Hoje é de 380 ppm. A tendência é chegar a 550 ppm até o fim do século.

5. O efeito estufa atinge o ecossistema por inteiro, provocando mudanças de todo tipo na natureza e vida selvagem, com consequências catastróficas para a existência humana.

6. Essas consequências virão antes e serão mais devastadoras – e duradouras – do que se previa.

Segundo trechos do relatório do IPCC que começaram a vazar na imprensa desde dezembro – primeiro no El Pais de Madrid, depois no Toronto Star, no New York Times, no já citado Observer, no Independent de Londres – e até no Fantástico de domingo, da Rede Globo – a humanidade que se prepare para:

1. Aumento da temperatura média do planeta da ordem de 3 graus, ao longo do século, acompanhado de ondas mais frequentes de calor letal.

2. Elevação do nível do mar de mais de meio metro.

3. Desertificação em ampla escala.

4. Derretimento acelerado de geleiras e da neve, salvo a das montanhas mais altas do mundo.

5. Acidificação dos oceanos, com a destruição de atóis e recifes de coral.

6. Tempestades, ciclones e furacões mais frequentes e intensos. [O tsunami que varreu a Ásia em dezembro de 2004 não teve relação com o efeito estufa. O furacão Katrina que arrasou Nova Orleans em novembro de 2005, sim.]

Em consequência, meio bilhão de pessoas, se não mais, serão obrigadas a fugir das suas regiões devastadas, particularmente nos litorais intensamente povoados dos trópicos e das terras baixas (Bangladesh é o exemplo clássico).

O resultado – já previsto no recente Relatório Stern, do governo britânico – será uma recessão econômica mundial, portanto mais fome, pobreza e doenças.

Atenção: essas não são profecias de ecoxiitas de olhos esbugalhados. São conclusões científicas mais embasadas que as dos relatórios anteriores do IPCC. Antes, os cientistas usavam termos como ‘provavelmente’. Agora, dizem ‘muito provavelmente’ e ‘quase certo’.

Estamos irremediavelmente condenados? É possível, mas não é de todo certo – embora até aqui os pessimistas, em matéria de razão provada, venham goleando os otimistas.

No documentário fora de série sobre o assunto, ‘Uma verdade inconveniente’, o ex-vice americano Al Gore, personagem central do filme que mostra o efeito estufa acontecendo, adverte para que não se passe da descrença ao desespero (‘from denial to despair’, no original).

Já o cientista inglês Peter Cox nos compara a alcoólatras que finalmente começam a reconhecer o seu problema. ‘Agora’, diz, ‘precisamos parar de beber, o que significa reduzir as emissões de carbono’.

Como é que se chega a isso?

O ponto de partida é acreditar nos cientistas quando dizem que nenhum outro problema com que a humanidade se defronta é mais grave que o do aquecimento da Terra. Nem o terrorismo, nem a proliferação nuclear, nem a pobreza e a desigualdade, nem o narcotráfico.

Para acreditar nisso é preciso acreditar nas conclusões dos estudiosos do clima. Para acreditar nelas, é preciso entender as relações de causa e efeito entre o aquecimento, o seu impacto sobre a natureza e dela para a vida humana.

Para que se entenda isso, a mídia tem um papel absolutamente decisivo. Não bastam imagens, tabelas e palavras assustadoras (embora corretas). O desafio da mídia é fazer as pessoas compreender porque um planeta 3 graus mais quente em média é destruição garantida em proporções colossais.

Tempos atrás, ouvi do diretor de um dos mais importantes jornais brasileiros o seguinte: ‘Sinceramente não sei o motivo para tanto barulho porque a Terra ficou 0,6 mais quente. Que diferença faz isso?’

É o passo-a-passo do efeito estufa que tem de ser mostrado uma vez e outra e outra ainda para que as pessoas se convençam da sua gravidade sem precedentes – e pressionem o Capital e o Poder a fazer a revolução que se impõe em matéria de uso de energia. E para que elas mesmas, na sua vida cotidiana, criem hábitos menos destrutivos para o ambiente – e si próprias.

A combate ao efeito estufa é importante demais para ficar restrito aos ambientalistas.

Ou o ser humano passa a crer na ‘verdade inconveniente’ de que fala Al Gore, ou ‘o mundo começou e acabará sem o homem’, na frase do célebre antropólogo francês Claude Lévi-Strauss que serve de título para o artigo do economista Gilberto Dupas na Folha de hoje.

Ele resume o drama em poucas palavras:

Urge aos governos e às instituições internacionais tomarem medidas preventivas drásticas imediatas em nome dos óbvios interesses dos nossos descendentes. Mas, como fazê-lo, se o modelo de acumulação que rege o capitalismo global exige contínuo aumento de consumo e sucateamento de produtos, acelerando brutalmente o uso de recursos naturais escassos? O dilema é ao mesmo tempo simples e brutal: ou domamos o modelo ou envenenamos o planeta, sacrificando de vez a vida humana saudável sobre a terra.’

***

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