Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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O desafio das ‘redações de vidro’

Por Carlos Castilho em 29/07/2006 | comentários


A expressão transparência, quando aplicada ao jornalismo, transforma-se num divisor de águas capaz de provocar debates apaixonados. A avalancha de denúncias de corrupção no ambiente político, no poder executivo e também no meio corporativo privado acabaram criando uma espécie de clamor público pela transparência.


As pessoas não querem mais ser enganadas e acreditam que o melhor antídoto contra novas desilusões e frustrações seria a visibilidade absoluta, quase que uma sociedade de vidro.


Como a imprensa é parte deste processo e também enfrenta problemas de credibilidade pública, inevitavelmente ela acabou envolvida na polêmica, fato que acabou gerando uma discussão específica, cujo alcance ainda não está bem claro.


No caso da imprensa, a transparência não é apenas um remédio tópico para uma situação emergencial. É uma questão estrutural porque está associada à contextualização das informações.


Atualmente é cada vez maior a consciência de que o valor de uma informação depende de sua contextualização, ou seja, identificação de causas, consequências, beneficiados e prejudicados, só para citar os elementos mais comuns.


Dependendo do tipo de notícia, o contexto passa a ser mais importante do que o fato concreto, e muitos já estão julgando uma informação pelas suas causas, consequências e interesados. É o caso das pessoas que reduzem a importância de uma notícia sobre combate ao fumo, por exemplo, pelo simples fato dela ter sido redigida ou apresentada por um repórter que fuma.


Mais complicados são os casos das amizades políticas de um jornalista que cobre o parlamento ou os trabalhos privados de quem cobre a área econômica. Política, economia e também esporte são editorias críticas porque lidam com notícias que envolvem interesses de personalidades poderosas e com acesso fácil à direção da empresa de comunicação. A transparência nestes casos é tão importante quanto complexa.


A maioria do público leitor de jornais ou espectadores de televisão ainda é pouco exigente em matéria de contextualização. Mas os segmentos que têm maior influência na formação da opinião pública estão mudando rapidamente de atitude, passando a cobrar transparência como um fator essencial para a credibilidade do veículo.


A reação do público está levando as empresas de comunicação a adotar sofisticadas políticas de transparência . Desde a simples menção de que o repórter viaja a convite de uma empresa para fazer uma reportagem, até normas extremamente detalhadas que já estão sendo usadas por jornais norte-americanos e até por blogueiros.


Quando há uma referência a uma empresa ou personalidade numa reportagem, o autor é obrigado a revelar suas relações pessoais e profissionais com a fonte, imediatamente após a menção. Também é compulsória a menção de eventuais ligações passadas ou presentes entre a empresa jornalística e a fonte..


Mas a questão da transparência vai além do problema da desconfiança. Mesmo que a imprensa e os políticos voltassem a ter níveis saudáveis de credibilidade pública, nem assim desapareceria a necessidade de transparência informativa.


Trata-se de um processo novo de avaliação das informações recebidas através de meios jornalisticos. O leitor está deixando de ser um consumidor passivo de notícias e isto acaba inevitvelmente mudando rotinas e valores dentro das redações.


Os observatórios da mídia, como o nosso, tornam-se peças essenciais neste novo processo pois passam a exercer uma dupla função: ajudam o público a examinar a contextualização das informações e auxiliam as redações, bem como jornalistas autônomos, a detectar erros, omissões e percepções equivocadas, numa ecologia informativa cada vez mais complexa e inevitavelmente sujeita a falhas.


A necessidade de contextualização e transparência está transformando os observatórios e organizações de monitoramento da mídia, em instituições obrigatórias no processo da informação.

Conversa com o leitor : Neste domingo (30/7) viajo para Caracas para participar de um encontro sobre a responsabilidade da imprensa de prestar contas à opinião pública. É o que os norte-americanos chamam de media accountability. Estarei de regresso na quinta feira (3/8) pela manhã.  

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/08/2006 guilherme pessanha mary

    O clamor público no Brasil hoje é pela transparência não só no jornalismo, como na política, nos atos do cotidiano, no exercício de todas as profissões e atividades.
    O clamor é pela Ética. Poucos (que se locupletam) toleram o ‘País do Vale-Tudo’ do ‘Salve-se Quem Puder’.
    A grande maioria não suporta mais tanto escândalo, negociata, trapaça, sanguessuga, mensalão, ‘pizza’, mensalinho, nepotismo, clientelismo e quejandos.
    Parabéns pela iniciativa de provocar a discussão e a transparência.

  2. Comentou em 02/08/2006 alfredo sternheim

    Parabéns, Castilho. Com extraordinária clareza, você abordou essa questão tão falada e nem sempre alcançada. EStá certo, já existe mais respeito com a almejada transparência e você coloca alguns exemplos (‘fulano viajou por conta de…’). Mas ainda há algo de podre no reino da comunicação. Quando se descobre só por denúncia de um jornalista (e não pelo próprio veículo da imprensa) que um comentarista político tem o rabo preso com umpartido ou com o congresso por causa de sua relação conjugal, a credibilidade vai para o espaço. O caso se torna grave quando nem uma explicação do apontado jornalista aparece, em evidente desrespeito ao leitor. É, Castilho, a transparência que muitos jornais exigem do poder público, as vezes é ignorada pelos prórios veículos da imprensa. Triste

  3. Comentou em 02/08/2006 Suhelen Cristina Almeida Silva

    Há muito tempo que a sociedade deixou de ser passiva com relação à informações que a atinja diretamente. Talvez pelas inúmeras falcatruas que envolvem o nosso plano político, econômico, comunicativo, etc é que a sociedade tem exigido mais transparência em relação aos fatos que caem ‘de pára quedas’ sobre seu dia-a-dia. E não para menos, né?

  4. Comentou em 02/08/2006 Bruno Silveira

    Fantástico esse seu post. Estou atazanando a vida de um jornal da minha cidade há uns dois meses. Já cobrei a “menção de que o repórter viaja a convite de uma empresa para fazer uma reportagem” (se a empresa paga), já ridicularizei um colunista (economista) por ter feito propaganda para uma concessionária de veículos, já cobrei opinião nos editoriais, que mais parecem extensões de reportagens, já corrigi erros de português no jornal inteiro (com muita vergonha, pois cometo muitos também. A minha desculpa esfarrapada: eu não tenho revisor). E o jornal tem 101 anos! E sabe o que os caras me respondem? Nada. Sou ignorado. Mando e-mail todo dia enchendo o saco deles e ainda falo “não querem falar comigo? Tudo bem, está tudo ‘salvo’”. Aprendi a ser mala assim com o OI. E percebi que nunca mais li jornal do mesmo jeito. Vou mandar outro e-mail para eles convidando-os a ler esse post. Porque já os mandei ler o OI umas cem vezes.

  5. Comentou em 02/08/2006 Fábio de Oliveira Ribeiro

    É sempre um prazer imenso retornar ao seu blog. Sua temática é diversificada e atual, você usa uma linguagem acessível ao público em geral e, sobretudo, não fica nadando na superfície dos problemas. E por falar em problemas, os nossos são muitos, grandes e parecem não ter fim. Felizmente. Sociedades que resolvem todos seus problemas estagnam e desaparecem vitimas. Quando se tornaram pacíficos cristãos os romanos declinaram e feneceram. O cristianismo mesmo parece estar fadado à extinção em razão da Igreja já admitir a impossibilidade histórica do prometido retorno do Messias. Os EUA se enterram militar e financeiramente no Oriente Médio em busca do precioso petróleo e certamente acabarão mais endividados nas mãos dos inimigos em potencial (China), que ainda por cima pressiona a alta de preços ao disputar o líquido precioso no mercado mundial com crescente avidez. Os problemas que não podem ser solucionados devem ser administrados (como a violência), protelados (como a crescente exigência de privilégios e dignidades de alguns servidores como juizes, promotores, parlamentares, prefeitos, etc…), ignorados e substituídos por outros (como a carência de petróleo), ou, ainda, discutidos, rediscutidos e reformulados (como os que dizem respeito à imprensa).

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