Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O desafio das ‘redações de vidro’

Por Carlos Castilho em 29/07/2006 | comentários


A expressão transparência, quando aplicada ao jornalismo, transforma-se num divisor de águas capaz de provocar debates apaixonados. A avalancha de denúncias de corrupção no ambiente político, no poder executivo e também no meio corporativo privado acabaram criando uma espécie de clamor público pela transparência.


As pessoas não querem mais ser enganadas e acreditam que o melhor antídoto contra novas desilusões e frustrações seria a visibilidade absoluta, quase que uma sociedade de vidro.


Como a imprensa é parte deste processo e também enfrenta problemas de credibilidade pública, inevitavelmente ela acabou envolvida na polêmica, fato que acabou gerando uma discussão específica, cujo alcance ainda não está bem claro.


No caso da imprensa, a transparência não é apenas um remédio tópico para uma situação emergencial. É uma questão estrutural porque está associada à contextualização das informações.


Atualmente é cada vez maior a consciência de que o valor de uma informação depende de sua contextualização, ou seja, identificação de causas, consequências, beneficiados e prejudicados, só para citar os elementos mais comuns.


Dependendo do tipo de notícia, o contexto passa a ser mais importante do que o fato concreto, e muitos já estão julgando uma informação pelas suas causas, consequências e interesados. É o caso das pessoas que reduzem a importância de uma notícia sobre combate ao fumo, por exemplo, pelo simples fato dela ter sido redigida ou apresentada por um repórter que fuma.


Mais complicados são os casos das amizades políticas de um jornalista que cobre o parlamento ou os trabalhos privados de quem cobre a área econômica. Política, economia e também esporte são editorias críticas porque lidam com notícias que envolvem interesses de personalidades poderosas e com acesso fácil à direção da empresa de comunicação. A transparência nestes casos é tão importante quanto complexa.


A maioria do público leitor de jornais ou espectadores de televisão ainda é pouco exigente em matéria de contextualização. Mas os segmentos que têm maior influência na formação da opinião pública estão mudando rapidamente de atitude, passando a cobrar transparência como um fator essencial para a credibilidade do veículo.


A reação do público está levando as empresas de comunicação a adotar sofisticadas políticas de transparência . Desde a simples menção de que o repórter viaja a convite de uma empresa para fazer uma reportagem, até normas extremamente detalhadas que já estão sendo usadas por jornais norte-americanos e até por blogueiros.


Quando há uma referência a uma empresa ou personalidade numa reportagem, o autor é obrigado a revelar suas relações pessoais e profissionais com a fonte, imediatamente após a menção. Também é compulsória a menção de eventuais ligações passadas ou presentes entre a empresa jornalística e a fonte..


Mas a questão da transparência vai além do problema da desconfiança. Mesmo que a imprensa e os políticos voltassem a ter níveis saudáveis de credibilidade pública, nem assim desapareceria a necessidade de transparência informativa.


Trata-se de um processo novo de avaliação das informações recebidas através de meios jornalisticos. O leitor está deixando de ser um consumidor passivo de notícias e isto acaba inevitvelmente mudando rotinas e valores dentro das redações.


Os observatórios da mídia, como o nosso, tornam-se peças essenciais neste novo processo pois passam a exercer uma dupla função: ajudam o público a examinar a contextualização das informações e auxiliam as redações, bem como jornalistas autônomos, a detectar erros, omissões e percepções equivocadas, numa ecologia informativa cada vez mais complexa e inevitavelmente sujeita a falhas.


A necessidade de contextualização e transparência está transformando os observatórios e organizações de monitoramento da mídia, em instituições obrigatórias no processo da informação.

Conversa com o leitor : Neste domingo (30/7) viajo para Caracas para participar de um encontro sobre a responsabilidade da imprensa de prestar contas à opinião pública. É o que os norte-americanos chamam de media accountability. Estarei de regresso na quinta feira (3/8) pela manhã.  

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