Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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CÓDIGO ABERTO > Desativado

O direito de saber e a resistência a saber

Por Luiz Weis em 09/03/2008 | comentários

Como diz o outro, não tenho a solução, mas admiro o problema.


 



E o problema é o seguinte:


 



1)  Todos temos nossas idéias preconcebidas – para tentar resumir em duas palavras uma infinidade de estados mentais/emocionais através dos quais filtramos a realidade, torturando os fatos até que eles se rendam às nossas verdades.


 



2)   Nas inumeráveis atividades em que isso pode prejudicar o seu exercício, se espera dos que as praticam que, até onde isso for humanamente possível, policiem a sua subjetividade para que não interfira no seu desempenho; essa norma muitas vezes não é seguida ao pé da letra, mas seria muito pior se ela nem fosse considerado parte essencial das respectivas éticas profissionais.


 



3)   Jornalistas, por exemplo, são treinados a se pautar pelo princípio da objetividade, especialmente quando se trata de recolher e transmitir informações; de novo, apesar da eterna distância, menor ou maior, entre o aprendido e o praticado, menos mal que o certo seja não brigar com os fatos.


 



4)   Já o leitor, espectador ou ouvinte nem sequer tem a obrigação de ser objetivo diante da notícia; está livre para registrá-la e integrá-la ao seu estoque de conhecimentos como os seus juízos de valor e suas paixões ditarem – o que não quer dizer que estes prevaleçam invariavelmente sobre a nossa capacidade de discernir entre o que as coisas são, ou parecem ser, e o que gostaríamos que fossem.


 



5)   Daí que nos informamos mal não apenas por culpa ou dolo de quem a repassa, mas também – e às vezes até muito mais – pelas imperfeições dos nossos “aparelhos receptores”, quando não tentamos compensá-las, mediante uma disciplina como a que exigimos dos fornecedores de notícias.


 



6)   Eis enfim o problema por inteiro: erm conseqüência, o direito social à informação, que fundamenta a legítima exigência da honestidade jornalística ­– mas nada exige, nem poderia, do destinatário do material jornalístico – não raro colide com a propensão individual, induzida ou espontânea, a distorcer a informação recebida; com todos os males que isso acarreta, seja para o modo como percebemos e julgamos o jornalismo, seja para o debate público das questões levadas à ordem do dia pela mídia.


 



7)   No limite, é o direito de saber correndo o risco de ser solapado pela resistência a saber.



 


Nada do que foi escrito aqui teve a intenção de absolver a mídia de suas freqüentes mazelas. Ao contrário, confrontar o que ela faz com o que ela diz que se propõe a fazer – a premissa maior da observação da imprensa – é o que se diz da educação: dever de todos.


 



A intenção foi só a de atrair o interesse do eventual leitor para a parte que nessa história toca ao proverbial “outro lado” – o dele.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/03/2008 Conceição Oliveira Oliveira

    Por falar em o ´outro lado´ estou aqui esperando deste Observatório e de jornalistas do calibre, do de Venício, Bucci e profissionais que tanto respeito uma discussão séria sobre o que ocorreu ontem entre IG e PHA.
    Sugiro a esse Observatório fazer a lição de casa: dêem uma lida no blog do jornalista Azenha, o único na rede a manter de fato uma postura ética no episódio, o silêncio em toda a imprensa brasileira sobre o assunto é assustador, independente do jornalismo que PHA faça.

  2. Comentou em 17/03/2008 Paulo Bandarra

    Muito lúcida a abordagem! O pior é que resistem até em ciências naturais, como se os valores subjetivos pudessem modificar os resultados!

  3. Comentou em 11/03/2008 Sérgio Henrique Cunha Zica

    LOBO! LOBO! GLOBO! (eu pretendia colocar só o lobo, mas não consegui segurar o trocadilho…) Eu estava esses dias falando com amigos sobre o ‘torturar os fatos’, de maneira tangencial ao problema tratado. Parece-me que o ser humano é obsessivo. Esbarre com alguém no ônibus e poucos são os que não remoem o acontecimento durante um bom tempo, pensando no que fez e no que poderia ter feito, esquecendo o assunto mas internalizando a irritação até surgir a oportunidade de comentar com algum amigo no bar ou com a esposa ao voltar para casa…
    Agora pensemos que se nós torturamos os fatos e somos obcecados ao fazê-lo… E quando percebemos o quanto somos feitos de palhaços e manipulados… Diariamente, semanalmente, incessantemente… Aí do meio do lamaçal surge uma pérola… Acabamos engolindo-a suja, para o nosso paladar exaurido o gosto é o mesmo. Quem dera houvesse uma clínica de desintoxicação para limpar o nosso sistema de tanta sujeira. Mas de que adiantaria se ao retornar da clínica encontraríamos os mesmos traficantes nas bancas da esquina vendendo as mesmas merlas? *é merLa mesmo, não precisa censurar*

  4. Comentou em 10/03/2008 José Orair Silva

    ‘Eis enfim o problema por inteiro: em conseqüência, o direito social à informação, que fundamenta a legítima exigência da honestidade jornalística ­– mas nada exige, nem poderia, do destinatário do material jornalístico – não raro colide com a propensão individual, induzida ou espontânea, a distorcer a informação recebida’ Talvez essa suposta distorção da informação recebida decorra do fato de se acreditar que a informação já vem torcida e assim, o ato de distorcer, signifique apenas colocar a informação no seu patamar natural… Penso, por outro lado, que essa ausência de pluralidade, esse comportamento de manada da mídia, os linchamentos de inocentes sem a necessária retratação posterior, levam à sua rejeição em bloco, numa situação parecida com a historinha do garoto que de tanto mentir não foi acreditado quando disse a verdade… Em relação aos jornais, aquí em Minas nós costumamos dizer que a única informação em que você pode acreditar piamente é na data… Vejam que no presente momento a revista semanal de maior tiragem no país vem sendo objeto de uma série de artigos críticos de autoria de um veterano jornalista. O assunto é amplamente discutido na Internet e até objeto de um debate apaixonado entre os defensores do jornalista e da revista. No entanto, para a grande mídia, o assunto não existe…Onde é que está o direito social à informação?

  5. Comentou em 10/03/2008 Alexandre Carlos Aguiar

    Para dar um exemplo, numa análise estritamente pontual, quem sabe este texto não seja enviado para a jornalista Eliane Cantanhede. A vacina que ela recomendou cabe muito bem nessa forma de ‘ver’ e ‘repassar’ a informação.

  6. Comentou em 10/03/2008 Lau Mendes

    O óbvio que não foi dito: a qualidade do serviço de informação que pode ser classificado ora incompleto,ora tendencioso.
    Por incompleto entenda-se “achismos” ou “tentativas de hipóteses” ; o tendencioso, público e notório, privilegia e/ou prejudica pessoas, instituições, com intenções as mais variadas, cujo espectro vai do carreirismo, na esfera profissional, até a recompensa financeira para ou via empresa jornalística. Infelizmente Senhor Weis, toda a obviedade que se diga não descola do mal de origem : o jornalismo praticado atualmente, ressalvando raríssimas exceções, por óbvio que seja também precisa ser pesado nesta analise.

  7. Comentou em 10/03/2008 joão bosco

    Isto se chama cinismo! A doença que alguns jornalistas pegaram dos políticos.

  8. Comentou em 09/03/2008 Wagner Moraes

    Weis, você merece uma salva de palmas, consegiu se superar. Todo este texto cifrado, só para pedir desculpas por não cobrar da grande midia impresa, o fato de não terem repercutido o caso NassifXVeja?
    Realmente você se superou. É um grande lugar tenente do patronato da mídia.

  9. Comentou em 09/03/2008 Raimundo Fosca

    Mas o que ele quer com isso!? Dar algum carater introspectivo a tamanha obviedade nao parece fazer qualquer sentido. Ler eh interpretar (ou eh melhor nao pensar?). Acho que perco meu tempo aqui. Polemicas assim me seduziriam se ainda tivesse 14 anos.

  10. Comentou em 09/03/2008 Ivan Moraes

    8) ‘Resistencia a saber’ eh aquilo que acontece quando uma grande massa de pessoas descobre que seu proprio ‘direito de saber’ esta sendo manipulado. 9) Go to 1.

  11. Comentou em 09/03/2008 Renato Santos Passos

    Fiz um comentário no post anterior. Não foi publicado. Se o comentário foi considerado ofensivo ou sei lá o quê, desculpe-me. Não entendi a censura. Pensava que isso era coisa dos blogs de Reinaldo Azevedo e companhia bela. Este, não precisa publicar. É só uma manifestação de perplexidade.

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