Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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O fernanduto no feudo do carlismo

Por Luiz Weis em 02/11/2005 | comentários

Das vantagens da internet: enquanto os jornais não tomam conhecimento da reportagem da revista Carta Capital sobre “um esquema semelhante ao duto de Marcos Valério montado na Bahia”, por meio de uma conta fantasma que teria movimentado R$ 101 milhões desde 2003, o assunto recebe o merecido destaque na blogosfera – e assim, por via transversa, começa a entrar na mídia impressa.

Hoje, o colunista Nelson de Sá, da Folha, citando dois sites e um político baiano, o deputado Geddel Vieira Lima, do PMDB – “Vamos ver se ACM, ACM Neto e outros vão cobrar apuração com a mesma veemência” – levou o caso para dentro do jornal.

A ver se a partir disso os jornais se interessam por uma história impossível de ignorar. Se não pelo que a revista alega, baseada no trabalho de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, sobre o que parece ser algo de muito, muito podre no feudo de Antonio Carlos Magalhães, ao menos pelo papel do carlismo nas CPIs que apuram malfeitorias federais.

O deputado ACM Neto e o senador César Borges, ambos do PFL, fazem parte da tropa de choque da oposição, da mesma forma, aliás, que o ACM avô. Este só não aparece mais porque a idéia é deixar o espaço livre para o suave netinho, seu herdeiro político – que ontem deixou claras as suas origens ao dizer que o tucano-carcará Artur Virgílio pode contar com ele para surrar o presidente.

A matéria da Carta Capital pode não ser um primor de clareza jornalística, tanto mais necessária quando se trata de fazer o leitor acompanhar o trânsito de dinheiro público para bolsos privados e quando as supostas maracutaias se referem a situações diferentes, com protagonistas diferentes e valores muito desiguais — de R$ 39,1 mil aos citados R$ 101 milhões. Faz muita falta um infográfico mostrando o caminho (ou os caminhos) das pedras.

Ainda assim, o trabalho do conselheiro do TCE Pedro Lino, base da reportagem assinada por Leandro Fortes, é um tiro de canhão. Expõe, segundo a matéria, “estranhas relações contratuais entre o governo baiano [chefiado pelo pefelista Paulo Souto], a agência de publicidade Rede Interamericana/Propeg, do publicitário Fernando Barros e organizações não-governamentais formadas por servidores públicos.

E mais: “O caminho do dinheiro configura um esquema clássico de caixa 2. A Bahiatursa [empresa estatal vinculada à Secretaria de Cultura e Turismo] recebe recursos do Tesouro estadual e os repassa para pagamentos de despesas e transferências para empresas privadas por meio de convênios pouco ou nada confiáveis.”

Dos R$ 101 milhões que circularam por uma conta bancária comprovadamente não registrada no sistema de controle do Erário baiano, R$ 48,1 milhões [quase tanto quanto os R$ 55 mi do valerioduto que abasteceu petistas e aliados] foram depositados nas contas da Propeg.

Fernando Barros, o dono da agência, é sabidamente ligado ao carlismo. Segundo a reportagem, é também “um campeão local de licitações”. De janeiro a abril passados, “62% de todos os recursos da Bahiatursa foram para a Propeg.

No caso do valerioduto, sabe-se, em parte, para quem foi o dinheiro, mas não se sabe de onde veio (a menos que se acredite no conto de fadas dos empréstimos bancários). No caso do fernanduto, sabe-se, ao que tudo indica, de onde veio o dinheiro (da Bahiatursa), mas não se sabe para onde foi – ou irá – depois.

Cadê o resto da imprensa para continuar contando a história?

***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/11/2005 ruth cambeses pareschi

    Essa é a única revista no momento, talvez com Caros Amigos, sob outro prisma, que merecem confiança. Inexite atualmente jornalismo investigativo e há o desinterêsse dos donos de jornais revistas em revelar assuntos que podem inclusive envolvê-los, ou prejudicar a publicidade. Por que não identificam as mazelas com a privatização daas estatais no governo FHC, como o fez o muito saudoso Aloysio Biondi

  2. Comentou em 08/11/2005 Pedro Carlos da Silva

    Esta história de corrupção na Bahiatursa é fantasiosa, estão tentando criar uma cortina de fumaça para encobrir os verdadeiros escândalos do país. Basta ver os indicadores econômico sociais da Bahia, para constatar a probidade das administrações bahianas. Mentirinha, os caras são o que há mais safado na política brasileira.

  3. Comentou em 08/11/2005 Aguinaldo P. Aguiar Muniz

    A atitude da imprensa frente as denúcias na Bahia é um evidência perigosa da imparcialidades da mídia nacional. Pois, se tais fatos fossem creditados (ou debitados) a políticos de esquerda, certamente, se seguirião rios de reportagens ‘investigativas’, que não causariam outros danos, senão, eleitoreiros aos denunciados. Porém, essa abstinência dos meios de comunicação, denunciar aqueles que sempre mandaram neste país, os dá a certeza da impunidade.

  4. Comentou em 06/11/2005 Norma Santos

    Incrivel que nenhuma nota foi citada em nenhum outro jornal, Globo, Folha, Veja, Epoca, Isto é… Não saiu nenhuma letra sequer sobre o assunto.

    Porque será?

  5. Comentou em 03/11/2005 Iorgeon Heankel

    Os descaminhos do jornalismo no Brasil.Veículos de comunicação hoje neste país se acham donos da ‘verdade’, preferem ‘investigar’ fábulas, claramente montadas para desqualificar o Presidente da república,enquanto fatos verídicos,como o da Bahiatursa,são tratados com notinhas por um Blog,não merecendo uma atenção maior pelos jornais e telejornais do país. Enquanto isso, para desviar a atenção,um menino metido a gente grande(ACMinho)e um Arrogante senador(que não soube dar educação a seu próprio filho),tentam desviar a atenção acusando o governo de grampo e mais,falando em dar surra no Lula.Um desrespeito toatal a figura do presidente. Será que ninguém mais se lembra dos grampos feitos pelo ACM na Bahia?Aqueles foram comprovados.Será que ACMinho fez este contra-ataque prevendo que seria investigado pela PF pelos desvios? Com essa ameaça ele tentaria imobilizar o Ministro da Justiça, não é? Outra coisa,uma amiga americana me disse que se um presidente dos Estados Unidos fosse tratado pelos repórteres como o fazem com Lula,já teriam sido processados e impedidos de trabalhar.Aqui, repórter vira polícia e juíz. E neste momento,parece que a justiça está favorecendo apenas um dos lados. Juro que não tô gostando de nada do que estou vendo.

  6. Comentou em 02/11/2005 P. Silva

    Sr Luiz, me desculpe, mas acho muito difícil acreditar que um burburinho da blogosfera vá afetar o silêncio retumbante da nossa Grande Mídia. Tudo bem que a tal história já tenha aparecido numa coluna na Folha, mas isso não lhe garante nenhuma relevância, nenhuma repercussão. Creio que quem trabalha na Carta Capital também não ficaria surpreso com o desprezo geral; não seria a primeira vez. Nem vai ser a última. Talvez um dia, já vendo tudo isso a uma distância suficiente, possamos entender o que se passa hoje no país. Eu não tenho mais a pretensão de entender nada em meio a tantas ‘bombas’, chantagens, denúncias, bravatas, calúnias e investigações mal-conduzidas. Duvido que isso possa produzir alguma ‘verdade’. Só resta saber quem ganha e quem perde (e ‘o quanto’).

  7. Comentou em 02/11/2005 zilia lima rocha

    O grampinho está tão desesperado que avisou que ‘quem mexer com ele ou com alguém dele não ficará impune’. Essa arrogância toda é de quem possui muita confiança e isso quer dizer que ou o povo baiano é tapado, burro, manipulado, otário para acreditar neles ou está mesmo subestimando a capacidade da gentalha!

  8. Comentou em 02/11/2005 Valter Dornela da Silva

    É claro que os políticos da oposição fazem muito barulho apontando para os podres do governo. É óbvio que em seus currais eleitorais também há muita podridão bem escondida.

  9. Comentou em 02/11/2005 Dário Lopes

    Se esses 2 políticos (Artur Virgilio e ACM Neto) querem surrar o presidente, o Lula pode contar comigo p/ surrar esses 2 e mais toda a curriola do PSDB e PFL!!

  10. Comentou em 02/11/2005 José Alberto Vilela

    Luís. E o pior para nós baianos é que a revista sumiu das bancas por aqui. Quando digo sumiu, não quero dizer que foram vendidas, não quero dizer que estão em poder do leitor. Muito estranho ainda é que o comporamento de toda a mídia se iguala ao da Revista Época, citado na reportagem. Tudo indica que a Época foi obrigada a tirar a matéria Bahiatursa da pauta. Afinal ACM é dono da TV Bahia, maior canal daqui, vinculado à Globo. Resultado, ao menos aqui para a Bahia, onde a reportagem teria maior impacto político e agiria como pressão legítima para a apuração, o assunto SOME (pela AUSÊNCIA DA REVISTA e pela NÃO REPERCUSSÃO NA MÍDIA LOCAL, todos domados pelo poder do Sr.ACM). Somente consegui acesso à repostagem ontem, pela internet.Mais estranho ainda é que a mídia nacional, tão zelosa (??) pela apuração de falcatruas, tenha silenciado. Não podemos esperar nada da grande maioria dos membros do Tribunal de Contas local. A Assembléia Legislativa local também treme de medo do poder de ACM. FICA A PERGUNTA: PORQUÊ A PROMOTORIA PÚBLICA DAQUI NAO AGE? Estaria também comprometida? Temos que tirar o chapéu, com atraso, para MARILENA CHAUÍ, quando fez observações sobre quem está pautando toda a imprensa e com quais interesses. Precupa-me mais ainda, que a mídia e a oposição estejam empurrando o Brasil para uma Venezuela. As consequências serão desastrosas para o País. Necessitamos urgente que órgãos independentes, como o Observatório da Imprensa, levantem estas questões e as encaminhem a quem (Judiciário? OAB? CNBB? PROMOTORIA PÚBLICA?) pode evitar essa tragédia anunciada.

  11. Comentou em 02/11/2005 Marcos Pessoa

    É impressionante ver como uma revista destoante da grande mídia elitista é solenemente ignorada. Quanto ao ACM e ACM Neto, hja óleo de peroba.

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