Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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O fim do “furo” e do “fechamento”

Por Carlos Castilho em 30/06/2012 | comentários

A cultura do “fechamento” está com os dias contados no jornalismo. A rotina já acabou porque as novas tecnologias impuseram o ciclo 24 horas sete dias da semana na produção de noticias. Mas um hábito entranhado há décadas morre mais lentamente. Esta é a razão para problemas como o ocorrido esta semana nos Estados Unidos, a propósito de uma decisão judicial sobre um tema complexo.

O veredito da Suprema Corte provocou interpretações divergentes entre jornais, redes de TV, sites de notícias e noticiários radiofônicos. Mas a polêmica que interessa é a que se estabeleceu entre os jornalistas sobre qual a forma correta de lidar com uma situação como esta. Pela primeira vez em muitos anos, em vez de recriminações mútuas os profissionais trataram de achar a solução.  

O caso da decisão judicial americana mostra como a pressa em ser o primeiro entra em conflito com a necessidade de informar corretamente. A conclusão geral foi de que a pressa deve ser sacrificada, o que significa uma virtual sentença  de morte para a cultura do “furo” jornalístico.  Mas a preocupação em ser o primeiro não é a única vítima nessa mudança de hábitos, rotinas e valores nas redações e fora delas.

A necessidade de imprimir notícias levou os jornais a parar a produção de informações num momento determinado, que ficou conhecido como hora do fechamento, ou deadline.  É a hora fatal para o profissional, pois ela determina se ele foi o não bem sucedido na sua missão de obter tudo aquilo que o leitor precisa saber.

As novas tecnologias de comunicação e informação (TICs)  acabaram também com essa tradição jornalística ao permitir que as notícias possam ser publicadas na web sem hora de fechamento.  Isso não significou apenas o fim de uma rotina, mas também uma mudança no conceito de notícia. Ela deixou de ser algo com prazo de validade para se transformar num processo, já que a internet permite atualizações e reformulações a qualquer momento.

Isso muda bastante a rotina das redações, mas também a dos leitores. Para os jornalistas, a mudança afeta a forma como tratam a informação, especialmente as mais complexas e especializadas. Em vez da obsessão com o furo e com o fechamento, os profissionais  passam a se preocupar com o processo de produção da informação.

Em vez de entregar um pacote informativo fechado em prazos determinados,  os jornalistas passam a produzir uma sucessão de detalhes, novos enfoques, percepções e contextos de forma cumulativa, num processo que pode implicar em correções e recuos.  O erro, quando reconhecido e corrigido, deixa de ser um pecado mortal para ser um acidente normal de percurso investigativo.

No lado do leitor, ele terá que,  gradualmente, passar a encarar  a notícia como um processo de descoberta da realidade e formação de conhecimento individual.  Isso fará com que ele tenha que substituir  a postura passiva atual por outra proativa, já que ele não receberá mais um produto acabado, mas algo em permanente construção.

Essas mudanças estão sendo estimuladas pela avalancha informativa deflagrada pela internet e pela web, responsáveis diretas pela maior percepção da complexidade das informações transmitidas aos leitores. A complexidade sempre existiu,  mas nós não tínhamos condições de percebê-la  porque os dados disponíveis era poucos.  Como hoje o número de versões  e percepções cresceu exponencialmente, os leitores  passaram a ter um trabalho extra de selecionar e interpretar noticias, em vez de digeri-las sem reflexão.

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